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O vendedor de sonhos

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O vendedor de sonhos

Davi. Alex?nO Davi Alex é um menino adorável de 10 anos. O conheci na venda onde trabalha, uma lojinha simples, onde ele vende lápis coloridos. Não unicamente os coloridos, como ele mesmo ressalva, também os brancos e pretos.

Fui até lá porque precisava de lápis amarelos, e ele me apresentou uma cuidadosa variedade, que incluiu desde o bege até o rosa médio. Enfatizei que estava interessada mesmo nos amarelos e ele respondeu tranquilamente que sabia disso, e que aqueles dois ao lado eram rosa, mas estavam lá porque eram quase amarelos.

Muito satisfeita com meus bastões canário, ouro e limão, pedi quanto lhe devia e ele pensou, preenchendo o tempo com um rumor, com a boca torta e o indicador no queixo, me olhando de esgueio, até dizer: “zero”. “Puxa, são de graça?”, eu repliquei, eufórica. “Sim, porque hoje é o meu aniversário”. “Meus parabéns!”, soltei empolgada, ao mesmo tempo em que tomei sem perceber a liberdade de estalar-lhe um beijo na bochecha direita. Ele reagiu encabulado, porém não limpou a bochecha com as costas da mão, como algumas vezes já espero que faça meu filho mais velho.

Foi aí que me lembrei dele, e comentei com o aniversariante que meus filhos adoram festas de aniversário. Nessa hora, meu caçula, Pedro, chegou à venda, com cara de travesseiro e muito emocionado. Peguei-o no colo para me ajudar nas compras, mas ele não quis nada, apenas bolo de aniversário.

Então meu vendedor predileto disse que, se eu quisesse, poderia levar até minha casa o convite para a festa desta noite. Achei ótimo e, antes de me despedir, comentei que justamente as duas não cores que ele vende ali são as prediletas do meu outro filho, Davi. Ele sorriu largamente e disse que Davi também é seu nome. Encantada com as coincidências da vida, perguntei seu sobrenome.

Foi então que, pela primeira vez, ele, ainda com muita maturidade, demonstrou alguma dependência e pediu licença para ir até a cozinha descobrir. Esticou o pescoço e, apoiado no batente da porta, ainda com as perninhas para fora do ambiente, cochichou alguma coisa com seu silencioso pai. Retornou em seguida, dizendo: “Batício, meu nome é Davi Batício”.

Como os clientes caíssem na risada, ele retornou logo à cozinha, em tempo de dissolver o engano, e murmurou ao pai invisível que “isso deve estar errado, eles estão rindo muito”. E, de volta à venda, disse que seu real sobrenome é Alex, Davi Alex.

Recebi Davi Alex em casa, minutos mais tarde. Muito gentil, ele levou de presente para seu xará os lápis branco e preto. Eu queria muito que os dois se conhecessem, mas no único momento em que meu filho apareceu, meu convidado havia sumido. Tentei de todas as formas que os dois se encontrassem, mas ambos ficavam desconcertados demais quando isso estava prestes a acontecer e eu, rindo como uma adolescente, não conseguia promover evolução. Exceto por um instante, em que apertaram a mão um do outro, mas – talvez seja efeito do desconcerto – pareceu-me que Davi Alex deu duas esmagadas no nada enquanto cantarolava sorrindo.

Antes de se despedir, Davi Alex me contou que o bolo de sua festa seria de chocolate com muita cereja e, mais surpresa ainda, fiquei com as coincidências da vida, porque na atual temporada este é o sabor predileto do meu filho Davi.

Logo em seguida, ao cair da noite, levei meus dois filhos ao aniversário. O Pedro ficou ao meu redor, um tanto quanto desambientado, bem como nos sentimos quando… não somos os donos da brincadeira. O Davi sumiu assim que chegou o anfitrião, convidando para brincar de pula-pula na bola azul. Deve ter se entretido lá pra dentro, porque não mais o vi até a hora dos parabéns.  

Antes do bolo, porém, o Pedro foi bem servido com carne feita no forno a lenha e com janta. Claro, Davi Alex já está completando seu décimo aniversário, mas bem se lembra que é essa a sequência que as mães solicitam para os filhos pequenos. Só não foi muito feliz em chamar seu convidadinho de “o pequenininho”, enquanto falava comigo, pois isso despertou o senso de justiça do Pedro, que perdeu a compostura declarando que “pequenEninho, não!” ele é grande, e que até fez xixi no banheiro esta manhã.

Impasse facilmente resolvido, já que meninos de dez anos não criam caso com crianças de dois. Fomos à sala do bolo e, gentileza atrás de gentileza, Pedro pôde assoprar sua própria vela, ao lado do aniversariante da noite.

Só não sou capaz de identificar se esse menino fotografado deliciando-se com o bolo e cerejas é o Davi Alex ou se é meu filho… Talvez a câmera fotográfica tenha ficado confusa… ou tão comovida quanto eu pelas entusiasmadas palmas descompassadas que acompanharam os parabéns…

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Gênero? Generalizado!

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Davi: “Obrigada!”

Aline: “É obrigado, quem fala obrigada é menina.”

(…)

Davi: “Vou descer esses degrais.”

Aline: “Degraus.”

Davi: “Quem fala degrais é menina?”

Passeio pela vizinhança do vovô

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Passamos o dia no apartamento do meu pai. À tarde resolvi levar os meninos para um passeio.  O Davi queria ir “naquela padaria perto da casa do vovô. Como chama aquela padaria mesmo?” “Miami?” “Não!” “Mou Mousse?” “Não, aquela padaria que começa com a letra BU”. “Ah, filho, o Burger King?” “Éee!”

Então fomos. Talvez tenha sido o primeiro passeio oficial com o Pedro andando. “Mão”, ele pedia. Ufa, bem que pensei que ele fosse sair fugindo, sem mão nenhuma, morro acima e morro abaixo.

Passamos por muitas pessoas. É impressionante como meu par de meninos caprichados chama a atenção.

Na ida passamos por trabalhadores de um depósito vizinho ao prédio do vovô. Um caminhão – daqueles que misteriosamente se enfia todos os dias numa ruazinha sem saída e ainda supõe que os carros vão transitar normalmente – sendo descarregado.

O Davi comentou que aquele é o mesmo trabalho do vovô. Apontei que sim, a diferença é que ao invés de caixas de madeira o caminhão do vovô leva carros. E ele: “Nossa, precisa de muita gente, porque carro é muito pesado!”. Ri alto e respondi praquela cabecinha inocente que alguém dirige os carros para dentro do caminhão, sem precisar carregá-los. Será que eu deveria mesmo ter dito isso e jogado um balde de realidade nas idéias do pequeno?

O Pi era içado por mim a cada degrau da calçada,vinha sempre a reboque, o último da fileira dos três de mãos dadas. Quando a subida tornou-se descida, dei apenas o suporte para que ele fizesse sozinho a ginástica nos degraus. Eis que um cachorrão preto, baforento, babão e maior que meu pequenoio, rosnou de dentro de um portão. Trememos os três, arranquei o Pi do chão e guardamos bem o endereço para não cometermos o mesmo erro na volta. No restante do passeio até nosso destino o Pi foi soltando “auau”.

Chegamos ao Burger King. O Davi não queria comer nada, só queria “ir no brinquedão”. Eu expliquei que para usar o brinquedão a família tem que comprar alguma comida. Então ele pediu frios. Achou mesmo que fosse uma padaria…

Na volta, devidamente brincados e recheadinhos com milk shake e batatas fritas, os dois foram elogiados por uma moça que passou por nós, torceu o pescoço e não desistia de olhar.

O Davi me perguntou o que “aquele moço”, um catador de papelão, estava fazendo. Eu respondi que ele estava recolhendo papelão para reciclar e fazer outras caixas.

Perto do farol, um menino malabaristas de bastões pediu se eu tinha uma moeda. Respondi que não. Um pouco porque não quis soltar a mão de um dos meninos para pegar, outro pouco porque não quis abrir meu portaniqui na frente dele e o terceiro pouco porque não quis incentivar sua carreira de pedinte. Mas ele nem bem ouviu meu não, estava era interessado no “nenê”. Perguntou o nome do Pedro, disse que ele era bonitinho, acenou, sorriu, ao que o Pedro acenou, mas não sorriu.

Perguntei o nome dele: Weverson. Ele perguntou o nome do Davi, que não respondeu – e depois me informou que estava prestando muita atenção no caminhão para não sermos atropelados e por isso não pode falar. 

Weverson chamou o amigo Gabriel, que acenou e sorriu, ao que o Pi acenou, mas não sorriu. Então o Pi aproveitou para acenar sem sorrir para o passageiro de um caminhão, que acenou e sorriu muito.

Voltamos morro acima, um pouco de colo para meu loirinho popular, especialmente no trecho do cachorro.

Expliquei para o Davi o que é uma esquina. Ele disse “sim“. Retornamos à rua do vovô. Passamos novamente pelo caminhão dono da rua, o Davi espiou dentro do depósito e me perguntou o que é que tinha lá. Eu disse que não sabia. Ele insistiu. Um funcionário passou por nós, sorriu, eu aproveitei: “Davi pergunta para esse moço”. O rapaz disse: ”Aqui tem carrinho. Cê gosta de carrinho. Cê quer um carrinho?” O Davi mudo (pela manhã, na saída da natação, ele me disse que estava com tanto frio que sua língua congelada não conseguia falar. Teria acontecido algo assim também agora?)

O rapaz, todo sorriso, pediu para esperarmos. Demorou um pouco, eu já em dúvida se havia entendido certo. O Pi querendo prosseguir viagem, o Davi mudo chupando o dedo. O moço reapareceu com dois pacotinhos. Imediatamente peguei o Pi no colo e comecei a agradecer. O moço perguntou de qual o Davi gostava mais, ele pulou em cima do azul, o Pi ganhou o vermelho, agarrou com as duas mãos – agora, além de não sorrir, também não acenaria.  

Pedi para o Davi agradecer. Ele mudo. O moço perguntou o nome dele, sem resposta. Peguei-o no colo – dois filhos e dois carrinhos, sorte que não levei a bolsa – e determinei que respondesse e agradecesse. Ele, com a vozinha mais doce, o fez. Ainda apertou a mão do moço, que comentou que nos viu subindo, na ida, e que achou a cena engraçada.

Mais alguns agradecimentos depois, terminamos de descer a rua e entramos no prédio, cada um segurando seu carrinho. O Pi disse “auau”, desconfiado,  e acenou sem sorrir para uma pedra do jardim.

Chegando ao apartamento, brincaram com / brigaram muito pelos carrinhos. Banhados, jantados e cansados recolhemos nossas coisas para irmos embora. Foi um pouco trabalhoso apanhar todas as roupas sujas, calçados espalhados e brinquedos emprestados da casa do avô, mas a mais árdua tarefa foi encontrar o carrinho azul – que obviamente precisaria passar a noite ao lado do Davi. Já depois de encerradas as buscas, o Pedro resolveu localizá-lo, com toda naturalidade: dentro do forninho elétrico. Viemos para casa.

Escrito em março de 2011.

 

Diálogo poético

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Mãe irritada com filho que criou o hábito de limpar a boca no braço e não no guardanapo. Olha feio para o filho, o filho para e fica acuado, até que toma coragem para falar:

Filho: Eu quero limpar a boca.

Mãe: Limpa no braço, não é pra isso que serve seu braço?

Filho: Não, mamãe, meu braço serve pra dar a mão pra você…

 

Escrito em dezembro / 2010.

Tchibupa

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Meu caçula fez o download das boas maneiras. Foi-se rapidamente o tempo em que ele passava o dia dizendo “pato” e “puta” – “obrigado” e “desculpa”.

Na última atualização de programa, ele instalou o “com licença” e outro dia, para o prato de comida caber na mesinha do cadeirão, afastou educadamente a Mônica de borracha e seu coelhinho Sansão acoplado, pedindo “tentsa, Monta!”.

O sotaque do seu “pufavôooi” não deixa alternativa para nenhum interlocutor.

Mas a palavra que ele considera a mais mágica de todas é “desculpa”.

Topa o dedão no pé da cadeira e solta “tchibupa” antes de erguer o pezinho até alguma boca beijante.

Assiste o irmão numa disputa acirrada por brinquedo com algum amigo e dispara, apaziguador: “tchibupa”.

Ouve seu nome completo ser pronunciado (não o “Pi”, mas o “Pe” e também o “dro”, de uma vez só!) e antes mesmo de entender do que se trata inclina a cabecinha, eleva levemente as maçãs do rosto empurrando também as pálpebras inferiores e declama: “tchibuupa…”.

E quando se trata de uma bronca já prevista, inclui um risinho no pacote, estendendo também os bracinhos em direção ao oponente.

É assim quando encharca a mamãe no banho, quando joga a comida no chão, quando distribui palmadas nervosas no cocuruto do irmão, quando teima persistentemente que não vai entrar no elevador até ser carregado com decisão para dentro deste e começar a chorar.

Antes assim, uma inclinação para o arrependimento. O irmão mais velho pende é direto para o perdão (de si mesmo): quando sente que a pressão para desculpar-se não lhe deixa alternativa, abrevia o “abracadabra”, elimina o “sim salabim” e vai direto para o “tá bom, tô desculpado”.