Arquivo da tag: Bofete

Mozzzquitozzz

Padrão

Levantei enfurecida aos quarenta e cinco minutos de um novo dia. Como se um pernilongo petulante me dissesse ao pé do ouvido: “dzzurma com ezzze bazzzulho…”

Recrutei marido para a cama, amanhã viajaremos cedo. Ele demorou para entrar no quarto. Demorou para pegar no sono. Mas eu demorei mais do que ele. Até que resolvi levantar para matar o pernilongo que eu não conseguia enxergar só com a luzinha de apoio.

Olhos espremidos de sono e claridade, pés descalços no chão frio, cabelo insistindo em cair na cara. Três príncipes capotados ao meu redor, tão dormindo que não puderam apreciar minhas poses ninja em trajes pouco nobres correndo atrás daquele inferno em forma de mosquito. Que logo percebi serem dois. E que, depois de morrer esmagado pela terceira vez, compreendi serem mais.

Um foi avistado na tela de proteção da cama do Davi. Voou de mim assim que o ataquei. Outro, no osso do pé dele, ali mesmo, onde a picada mais coça. Sensação total de ineficiência. Por fim, vi um dos grandes na têmpora esquerda do meu branquelinho alérgico. Peguei fogo!

Comecei a confundir os restos mortais rodeados por sangue inocente com os próprios mini-vampiros. Qualquer sombrinha era suspeita, e bati vorazmente no teto e nas paredes com minha arma de alta destruição, uma camiseta branca (que talvez nunca mais volte a sê-lo).

Numa das minhas visitas à caminha do Pi ajeitada no chão, percebi que bem ali ao lado, debaixo da minha cama, havia a maior densidade demográfica de bichos. Então fiquei de plantão, abaixada por sobre ele, já salpicado de picadas e erupções alérgicas. Até que ele acordou.

Coçando-se, me perguntou o que eu estava fazendo. Depois disse choramingando que não queria mosquitos nele. Tranquilizei-o e menti que mataria todos, e que ele podia dormir tranquilo. Na luz acesa. Com a mãe montada em cima. Sei.

Ficou me mostrando com o dedinho em riste por onde voavam os pilantras. Minutos depois, quando eu bailava pelo quarto desviando de roupas sujas, sapatos de quatro tamanhos e malas abertas, ouvi uma espalmada forte – que não era minha. Mãozinhas abertas tocando-se ainda, montou um sorriso maroto, olhos fechados, e declarou: “matei!”.

Comecei a rir, tanto que o marido acordou. De sua posição estratégica, o alto do beliche, poderia ser um grande aliado. Recebeu como arma uma calça de pijama enrolada e ordens expressas de fogo. Passou a me indicar com um “ali-ali-ali!” todo movimento suspeito, e fiquei um tanto confusa entre as minhas presas e as dele. Decorei a geografia do quarto e passei a ser capaz de desviar de pernas, de livrinhos infantis jogados e das quinas doloridas dos móveis sem quase olhar.

A cada pouco, eu ia espantar o vento ao redor dos meninos e estimar quantos criminosos ainda haveria sob a cama pelo nível de ruído.

Numa das aproximações ao Davi, ele acordou, arregalou bem os olhos, testa franzida, e perguntou: “que foi?”. Já meio carrancuda, respondi apenas “matar pernilongo” e ele levantou  bambo, equilibrando-se sobre o colchão, resmungando “matar pernilongo agora?! Mas eu tô morrendo de sono!”, como se houvesse acabado de ser recrutado pela minha frieza assassina.

Gargalhei abraçando-o e devolvi-o ao seu colchão, mais coberto do que antes, apesar do calor. Ele pegou no sono ainda com a mímica do sorriso no rostinho, tanto ri que riu comigo, sonado e tudo.

Matamos uns nove. Desisti rendida pela frustração e desiludida pelo número progressivo de filhos de uma p…. ernilonga-pouco-criteriosa-para-a-escolha-de-parceiros que surgiam dos mais inusitados lugares.

Deixamos o quarto salpicado de cadáveres, sim, mas mais salpicado de bolinhas vermelhas ficou o rostinho do Pi.

Transpirei nessa brincadeira mais do que nas caminhadas de final de tarde ao pôr do sol ardente de Bofete, mas em certo momento senti que algo no ar estava mais fresco, e resolvi deitar um pouco, apenas para observar o movimento.

Planejando o equipamento anti-mosquito da próxima temporada, percebi que começara a sonhar e resolvi escurecer de tudo o resto de noite que ainda me sobrava. Com as mãos sujas de sangue, a cabeça coberta pelo lençol e um sussurrado “zzzabia que o zzabiá zzzabia azzzzobiar” no ouvido, dormi até o amanhecer.

Horas depois, levantamos nos coçando, recolhendo os vestígios da batalha sangrenta, e conversando empolgados sobre o filme de ação que azzzistimos na madrugada.

Anúncios

Álvares Cabral?

Padrão

Ele vem correndo torto. O terreno irregular aumenta sua ginga. Às vezes as bochechinhas balançam emoldurando um sorriso raio de sol.

Camiseta manchada com protetor solar, fralda cheia, sandálias coloridas. Os joelhos decorados completam o visual: rodela bordô de um lado e casca quase marrom do outro.

Especialmente corado, cabelos de angilim, poucos, lisos, longos, quase brancos. Brilham à luz do final da tarde menina de verão.

Aperta uma bola verde murcha sob o bracinho direito. Vai sem muito rumo.

Cruza comigo e solta um melado “quéru vussé!”. Prosseguimos de mãos dadas. Vamos ao pomar conhecer a plantação nova que fizeram com os avós há pouco.

Craquelando o tapete de folhas secas com seus passinhos aventureiros, percebe uma plaquinha de “aqui tem gente feliz”. “Uma tataúuuga!”, exclama. Cutuca, descasca, balança a plaquinha.

Enxerga um pedaço de melancia em decomposição. Aproxima-se, quer mexer. Voam insetos minúsculos, uma nuvem deles. Afasta-se. Avista outra plaquinha rodeada por mangas verdes, amarelas e também pretas de tudo. “Óia! Ôta miancíiiia!”. Refere-se à joaninha pintada a mão.

Tento despistá-lo do pomar. Em boa hora o irmão convida para um pega-pega. Corro atrás de um e sou perseguida pelo outrinho, que vai gritando: “vo-tseis-num-mi-pé-gão!!”.

Pede colo e assim que levanto seus quilinhos de branco amor ele exclama, derretido em surpresa: “’ávui di natáu!!”. Foi uma das dezenas de pinheiros da paisagem próxima que seus olhinhos de puro cristal avistaram.

Não é só ele que se pega descobrindo uma América por minuto. Sou eu também. Obrigada, Pizinho, por me emprestar seus santos olhinhos.

Descobertas

Padrão

Trânsito, horário, academia de ginástica, e-mail, TV a cabo. Eu não preciso de nada disso para viver.

Acabo de passar uma semana maravilhosa no interior, durante a qual minhas preocupações eram poucas além de pendurar as toalhas no varal (para depois de algumas horas tê-las cheirando a sol para o próximo banho) e lembrar-me de pegar o boné antes de sair para caminhar (na deliciosa hora em que o dia ainda é claro o bastante, mas tanto eu quanto os passarinhos cantando já sabemos que se encaminha para seu final).

Fiz duas descobertas além da “obviedade” do primeiro parágrafo. A primeira é que o que me incomoda não é acordar cedo, e sim começar o dia, desde seu primeiro instante, em função das necessidades e vontades de outros.  Então, bem que posso acordar mais cedo e ter um tempo só meu para escolher a roupa, escrever, ler, olhar pela janela.

A outra é que adoro fazer os meninos dormirem. Essa é, na verdade, uma revolução – porque a tarefa de fazer filho dormir (inúmeras vezes, por dia e por noite, inclusive) já foi meu terror. Para isso basta que eu esteja alimentada, banhada e relaxada, como pude estar todos estes dias. É uma delícia vestir pijamas, beijar bichos de pelúcia e filhos, contar histórias e ouvir doces vozes completando finais de palavras, olhar de novo e de novo para as mesmas figuras e lembrar sem querer como era bom entrar no mundo mágico de cada imagem, deitada em minha cama de criança, todas as noites, pouco antes de Morfeu me pegar no colo.

E depois apagar as luzes, contar histórias decoradas, ser corrigida nos atos falhos (“…não tinha com quem dormir…” – “brincar, mamãe! Não tinha com quem brincar!”), misturar Davi e Pedro nos enredos, recapitulando o dia bem vivido, as pitangas e as cigarras, a areia e o sorvete, transformar história em prece, agradecer a Deus com a voz e com o rosto, deitada em minha cama, sem temer o sono que se apossa também de mim. Então, um cochilo depois, escutar a imobilidade dos corpinhos cansados e o soprinho de duas respirações compassadas, e decidir se quero levantar para terminar o dia – vendo a novela, fazendo a unha, folheando um romance, comendo mais um pouco ou usando o banheiro – ou se quero ficar ali mesmo, entregue à companhia dos meus companheirinhos adormecidos e do sono reparador no fim de um dia já acabado.

“Seis anos!”

Padrão

Ao chegarmos em Bofete, o Davi foi logo perguntando: “onde está o pomar de laranjas?”. Soubemos e vivenciamos pelo paladar que não é época de laranjas, que as mangas preparam-se para abundar em dezembro, que as pitangas e amoras estão no auge de sua lúdica safra e o principal: que existem os ingás. Como eu pude passar 31 anos de minha existência, e tantos deles jogando stop, sem conhecer o ingá? 

Hoje pela manhã fomos passear no pomar. Minha sogra ontem nos contava que quando criança tinha uma tartaruga à qual montava e que era tão moleca que fazia as tarefas da escola em cima de uma árvore. Esta manhã, com seus sessenta-e-sejamos-discretas-mas-parece-muito-menos, demonstrou ao Davi e a quem mais quisesse ver como se sobe numa árvore. Os primeiros passos e braçadas foram realizados, os demais, indicados.

O Davi e o Pedro têm, no pomar, uma mangueira cada um. Aos pés de cada árvore existe, respectivamente, uma plaquinha com uma joaninha e outra com uma tartaruga. Fixamos nossos esforços alpinistas na mangueira do Pi. Depois de dar as instruções, e já começando a ouvir alguns protestos entre excitados e apavorados, a vovó acalmou o Davi dizendo que ele só subiria na árvore quando tivesse uns cinco ou seis anos.

 A psicologia reversa foi muito efetiva e o baixinho começou com os porquês e com as contrapropostas. Então coloquei-o num galho confortabilíssimo, a cerca de um metro e meio de altura, com locais demarcados para assento e para apoio de cada uma das mãos. Logo começaram os gritos de súplica: “seis anos! Seis anos!”…

Já em terra firme e mais calmo, ele alegou que era muito duro para o bumbum. Se sentar no penico já é um problema para suas carninhas até então acostumadas com o fofo da fralda, que dirá um galho d’árvore.

Há pouco ocorreu outro episódio intestinal. Ou melhor, não ocorreu. Mas o Davi garantiu que quando tiver vontade de novo ele vai chamar “o papai, ou a mamãe, ou o vovô, ou a vovó, ou o Pedro. Porque o Pedro não? Porque ele não pode me ajudar?”

Escrito em dezembro de 2010.