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Atemoia

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Primeiro, eu percebi a contração desnecessária dos músculos da minha testa. Em seguida, olhei no espelho retrovisor do carro e vi minha cara de má. Por quê?

Então, parada no sinal, respirei fundo e tirei a corcunda, e resolvi começar o exercício de reconhecer a positividade.

E não é que a luz do farol combinava direitinho com aquelas flores bem vermelhas e peludas da árvore exatamente atrás dela? Bonito! Bonitas todas as árvores, e no meu caminho são muitas.

Que interessante os muros das casas vizinhas comporem a cara da rua sem que haja alguma reunião municipal para isso, e os cachorros atravessarem na faixa de segurança (por vezes com mais responsabilidade que os pedestres). E aquele jardineiro descendo da escada, às oito da manhã, a que horas será que ele subiu?

Achei legal andar a pé do estacionamento até a academia e gostei de contar moedas para completar um real. Até a dor na perna esquerda me fez feliz por senti-la ativa.

Dei-me o direito de deixar o carro na vaga da vizinha por dez minutos; comemorei encontrar meu filho de cueca seca; passei batom violeta; abri a janela do quarto para a luz do dia animar meu marido.

Decidi comprar atemoia pela primeira vez e resolvi zerar a quilometragem do carro porque hoje me pareceu um bom dia para ver quanto ele está rendendo.

Pareceu também um bom dia para matricular as crianças no esporte e aproveitar a tarde arremessando-as na piscina de bolinhas do clube. O Davi corre com o polegar dos pés um pouquinho levantado e o Pi trança tanto as pernas ao correr, que poderia acabar dando meia volta. Eles dois babam e tem os dentes mais lindos do mundo. O eco da voz deles dentro do tubogã me faz sorrir inspirando e gosto da moldura que o capuz dá ao rostinho deles. São muito fraternos e proíbem injustiças da minha parte – o que hoje eu recebi com muita gratidão, porque de que me adianta ser injusta?

Não fui eu que fiz as uvas do nosso lanche estarem doces, nem fui eu que desenhei as sobrancelhas dos meninos. Não fui eu que me dei dois filhos homens, não fui eu que determinei a cota de sensibilidade à qual teria direito, não fui eu que graduei a ternura do sol desta tarde.

O que eu precisei foi lembrar que não sou simplesmente uma cara séria e um monte de tarefas a cumprir e que meu coração quer mais do que apenas cada coisa em seu lugar.

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Atchim, tchim!

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Algumas coisas deram certo demais da conta hoje.

Dancei Zouk na academia. Quem? Eu. A mesma pessoa que por anos foi magnetizada pelas cadeiras mais escondidas nos bailinhos. A mesma pessoa que só consegue permanecer em uma pista de dança em festa de casamento se estiver com uma ou mais crianças no colo.

(Então aproveito a oportunidade para contar que ontem, na mesma academia, eu joguei um basquetebol daqueles. Quem? Eu! A mesma pessoa que passava horas desmarcada dentro do garrafão na quadra da escola, pulando com os braços para o alto e declamando os nomes das colegas que passavam a bola entre si enquanto me ignoravam.)

Achei uma larga vaga para estacionar o carro exatamente em frente ao consultório de nossa médica, pela primeira vez em três anos. E na sombra.

Acertei o caminho das Perdizes para a Vila Pires, apesar das obras, das placas tortas, do calor, do falatório, choratório, gritatório, reclamatório e – especialmente – do perguntatório no banco de trás.

Agarrada a um fino fio de esperança de ter em casa o remédio que o Davi precisa tomar amanhã ao despertar, sentei diante da transbordante caixinha das letras B, I, K, L e M. Um riso bufado escapou quando li logo o rótulo do terceiro frasquinho que peguei nas mãos: medicamento certo, potência certa, forma certa, dentro da validade.  

“Atchim, tchim”. Isto quer dizer “assim, sim”, “muito bem”, “certo”, “bingo”, “aê, hein!”.

Gargalhada

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Nesta manhã tive o maior ataque de riso do mês – e olha que já estamos no dia 29. Posso aproveitar e elencar os outros quatro finalistas:

1)      Minha mãe telefonar para o CEATOX após perceber que o Pi lambeu o arco da bolinha de sabão;

2)      O Davi me perguntar se a Lucia (das aparições de Fátima) já se transformou em Nossa Senhora;

3)     http://tts.imtranslator.net/GbF4

4)      Vendo o irmão receber um tubo vazio de papel toalha, o Pi correr para a cozinha e imediatamente retirar um tubo igual do vão sobre a máquina de lavar louças, que estava ali Deus sabe desde quando.

Sinto uma pressão constante, como se a própria atmosfera exigisse de mim mais do que posso dar. O Pedro quer brincar de bola no meu colo durante o café da manhã – não serve brincar de outra coisa no cadeirão, não serve brincar de bola no cadeirão, não serve brincar de bola em outro lugar.

O Davi pede para eu preparar todas as opções alimentícias disponíveis na mesa, mas após o primeiro gole ou bocado, as relega a “nunca mais” e continua deitado na cadeira, com os pés no meu colo – sim, mesmo que o Pedro já esteja ali e comece a gritar – pedindo outra coisa para comer.

A empregada decide iniciar todas as conversas compridas quando estou atrasada (ops! percebo que acabo de cometer uma injustiça: a qualquer minuto que ela emita palavra dirigida a mim eu estarei atrasada. E a qualquer minuto que ela mantenha um silêncio sepulcral também).

O meu marido me pede para procurar o papel da dieta na segunda gaveta – só para abrir a segunda gaveta a gente tem que se paramentar, benzer e afastar as crianças. O meu marido me pergunta se eu quero pão com manteiga ou requeijão. O meu marido me pergunta se eu quero mais suco. (Sacaram? A essa altura a mais simples das perguntas torna-se impossível de responder). 

Foi então que, nesta manhã, entrei no banheiro para fugir de tudo escovar os dentes. (Confesso que antes aproveitei para usar o vaso sanitário. E para dar uma lidinha na coluna da Ingrid Guimarães. ) Naquele momento, com a boca cheia de espuma, escutei a maçaneta da porta sendo acionada. Sem querer minhas pálpebras contraíram levemente, temendo o final do momento de sossego. Qual não foi minha surpresa quando um ruidinho fino e inusitado, seguido pela bufada do Rodrigo, anunciou que a maçaneta passaria a negar-se a trabalhar nas condições progressivamente mais precárias em que se encontrava desde nosso primeiro dia habitando esta residência. Ou seja: a porta emperrou. Eu estava trancada no banheiro!

Antes mesmo de ter certeza do veredicto, comecei a rir descompassadamente e a babar a pasta de dentes. Conforme tive a confirmação das suspeitas, precisei usar a toalha de banho para enxugar as lágrimas de riso dos meus olhos apertados e remelentos. 

Mas que sorte era essa? O que mais eu poderia querer?

Depilação nas áreas necessárias, esfoliação nas pernas, nos pés, nos cotovelos, até no nariz se eu quisesse, touca com o bendito condicionador que eu nunca usei, banho de banheira com sais até ficar mole, desenhar no vidro embaçado do box e depois no espelho, direito a hidratante, direito a desodorante – em ambas as axilas! Cheirar todos os perfumes e passar o predileto, arrumar todos os batons em degradé e escolher o que combina com a cor das unhas.  Secar o cabelo. Tudo isso com o bônus de uma revista recém-desplastificada trancada no mesmo ambiente que eu! E, além do mais, com o fenomenal brinde dado pelo acaso de ter estado sozinha no banheiro durante o ocorrido e de ter que permanecer assim, afastada das fraldas sujas, das bolachas, das meias sem par, dos desenhos da TV e dos gritos.

A gargalhada durou muito, entrecortou minha comunicação com o mundo exterior. O inesperado acontecera! Eu, livre presa por algumas horas.

Foi apenas quando percebi a aflição/frustração/culpa/atraso do Rodrigo para ir para o trabalho que resolvi parar de rir e estudar aquela maçaneta. E, pelo lado de dentro, foi possível, com um pouco de delicadeza, abrir a porta.

Ele entrou no banheiro correndo, e eu saí para a vida real. Instantes mais tarde, quando fiz menção de entrar para pentear os cabelos, me percebi, agora sim, presa: trancada para fora. Levei uma bronca: “Davi, não falei que não era pra mexer aqui?!”. Defendi o pequeno, mea culpa. Vi-me abrindo a caixa de ferramentas: chave inglesa, alicate, chaves de fendas de todos os tamanhos. Desmontamos a fechadura e ao longo de todo o dia a fralda que amarramos na porta me lembrou do episódio, da relatividade “cárcere X liberdade” e de quão animadores foram aqueles minutos de expectativa e bom humor.

Não precisamos de um banheiro apenas para as emergências gastrointestinais. Para as psíquicas também. E, de preferência, um banheiro com um pouco de privacidade. “Priva o quê, mãe?” “Privacidade”. “Priva-cidade? Priva-rua! Priva-teto! Priva-lâmpada! Priva-chão! Priva-cama! Hahaahhaha!!!” 

 

Escrito em junho de 2011.