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Levou bolo

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– O lanche de hoje tava bom, filho?
– Tava, muito! Mas…
– O que?
– Eu derrubei o bolo na Carol.
Recebendo o meu olhar atento e espantado, explicou:
– Sabe quando o bolo ia cair, e fica pulando na nossa mão e cai de novo? Então, aconteceu isso na camisa dela.
– E ela? Chorou?
– Mamãe! Claro que não chorou. Só ficou brava.
– Ah é? E o que você fez?
– Tentei limpar com a toalhinha do lanche.
– Ixi…
– Não deu pra limpar muito, mas…
– Imagino que não mesmo, mas que bom que você tentou.
Sorrimos e ele revelou-se aliviado por não levar bronca. Eu disse que se eu fosse a Carol ele certamente teria levado. Rimos.
– Seus amigos perguntaram de que era o bolo?
– Não, mas eu falei sem eles perguntarem.
– Sério? E o que eles acharam?
– Hum… Eu falei que era de chocolate. Porque se eu falasse que era de cenoura, maçã, cacau e essas coisas eles iam achar nojento. Sabe aquele pãozinho verde que você faz? É gostoso, mas eles acham nojento, só porque é de espinafre.
– Tá bom. Você tá usando sua esperteza, né?
Orgulhosa por ver meu filhote encontrando suas estratégias de remediação e de defesa – e por vê-lo comer numa boa essas delícias nojentas…

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Retrato de alguém que precisa melhorar

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Uma das atividades mais legais que o Davi fez na escola foi a releitura da obra de arte de Giuseppe Arcimboldo, na a qual usaram frutas para fazer um retrato e depois comeram de sobremesa.

Numa tarde que se encaminhava para ser mais calórica do que saudável, eu resolvi fazer circulozinhos verdes de kiwi, barrinhas amarelas de banana e lasquinhas vermelhas de maçã. Ficaram motivados e envolvidos. De quem eram aqueles os olhos verdes? Da vovó Ciça, claro!

– Mas e os óculos? – protestou o Pi. Sim, senhor, óculos nela.

– Não tá parecendo muito… Vou fazer de novo. Ah, não!

Em outro prato, armou olhos, nariz e boca. Mas usou as hastes dos óculos para fazer as sobrancelhas. Quase verticais.

– Essa você adivinha quem é.

– A vovó Ciça?

– Não. Outra pessoa. Uma mais brava, olha. – indicou as barras de banana, severas sobre os olhos.

– Não sei…

– Você tem que adivinhar uma pessoa brava, com as sobrancelhas assim.

– Acho que já sei…

– Então fala – desafiou-me com um sorriso corajoso.

– Eu…

– Acertou, ó! – apontou meu rosto.

– Eu sou muito brava, é?

– É, muitas vezes você é muito brava comigo. Precisa melhorar.

Ri, o que mais eu poderia fazer? Carinho em suas bochechas e um cheirinho atrás da orelha? Fiz também.

(Temos aqui o retrato da vovó Ciça. O da mamãe brava foi consumido antes da fotografia, porque os cabelos castanhos de chocolate granulado, esvoaçando sobre todo o rosto, estavam apetitosos demais. Ok, algo de doce eu devo ter, também…)