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Genosidade

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Ganharam um DVD novo e brigaram para desembrulhá-lo, para segurá-lo, para assistí-lo; acabaram se batendo.
Eu disse calmamente, enquanto pegava o DVD em minha mãos: “Sunnyside (nosso código para doações). Vocês não tinham isto e não estavam brigando, então vão voltar a não ter.”
Abaixaram-se rastejando ao meu redor, por favores mamãezinha, nãos e nãos. Lágrimas e uivos.
Escondi o objeto e prossegui dobrando roupas (é o que faço quando perco o prumo). Continuaram suplicando e prometeram paz eterna.
– Venham aqui. Estão vendo este relógio? Vocês têm três minutos aqui sentados juntos. Usem esse tempo dizendo um ao outro palavras de amor. Agradeçam o irmão, falem de coisas felizes até eu voltar.
“Obrigado que… você jogou futebol comigo”. “Obrigado… que você fica comigo”. “ Te amo”. “Tá”. “Obrigado que você fica comigo há sete anos”. “Obrigado que você fica comigo, Davi”. “Te amo, Pedro”. “Hum”. “Te amo muito P— pronto, acabou o tempo! Mamaaãe!”
Apareci, casual e pedi que me contassem o que mais gostaram de ouvir do irmão.
Com os olhinhos molhados, relataram as falas que já me haviam comovido instantes atrás. Amarrei dizendo que irmãos são amigos para sempre e que para sempre ficarão juntos um do outro. Demo-nos as mãos e propus rezarmos um Pai Nosso. “…o pão nosso de cada dia- ”
-Ei! – interrompeu o Pi – isso tem no ursinho azul! Espera um pouco! Foi correndo procurar a pelúcia a pilha para oferecer ao irmão.
Acionamos a gravação e rezamos com ela. Davi chorando, como sempre ocorre ao escutar a musiquinha de fundo que acompanha a oração.
Devolvi a eles o DVD. As cenas de amor apagaram a violência e a punição. Prosseguiram ajudando-se a fechar a cortina, ligar o DVD, escolher o idioma…
– Mamãe, a gente pode parar de fazer genosidade? A gente não vai fazer raiva, a gente só vai ficar parado… é só que o Davi só tá fazendo bondade.
Autorizei. Que prossiga a vida real, com seus pecados e seus perdões.

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Como se fosse um dia comum

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Após a escola, almoço em família, natação, passeio pelo centro da cidade, visita à bisavó. O privilégio de compartilhar o dia com a tia que mora muito, muito longe.
No final da tarde, o pequeno chegou em casa dormindo, mas ao ser depositado na cama, começou a falar enrolado e rumou para a sala, de onde vinham as vozes da tia e do irmão.
Assistiram a filmes, mexeram nas coleções de cacarecos, ficaram por mais algumas horas misturando almofadas e pés, matando tempo, convivendo como se este fosse um dia comum.
Até que a noite chegou. Corpo exausto e coração apertado, os meninos começaram a brigar. O pequeno pediu para ir dormir, mas a mãe determinou uma sopinha. Tomou cinco colheradas entre soluços e protestos, depois de ter arremessado uma lata na canela do irmão e perdido a guarda de seu bonequinho predileto, que fora o motivo da discórdia.
Já deitado em seu quarto, de olhos fechados e molhados, protestava: “quero o Buzzinho, quero o Buzzinho, quero o Buzzinho”. Massagem nas costas e um bom cafuné fizeram-no relaxar, transformando o mantra em cantiga de ninar. Mas não ninou. Declarou “já se acalmei” e em seguida tentou a sorte: “agora posso ir lá com eles?”.
“Não, filhinho, a tia Helô só ta cuidando do Davi pra você dormir, jajá ela vai embora”.
“E amanhã ela volta aqui?”, perguntou com a testa crispada diante da possibilidade da resposta negativa. Olhos rasos d’água convocaram os meus. Silêncio. Autorizei nossa saída.
Despedimo-nos da visita sem saber quando é que ela vai voltar aqui pra nossa casa bagunçada, sentar no chão e montar Lego, preparar o melhor dos mingaus.
Fomos direto da porta para a cama, rezamos comovidos e entregamos a Deus nossas fraquezas e nossa saudade. Saudade da tia Helô e do tio Vitor. E, por parte do Pi, saudade hoje também do Buzzinho.

Bonança

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Dei no Davi uma briga desproporcional.

As desculpas vieram de onde não deviam e, agachada diante dele, procurei desenrolar-me daquela passional injustiça.

Pingos nos ii, perguntei: “porque você não me olha nos olhos?”. Atendeu de baixo para cima, queixinho no peito. Vendo meu sorriso, empinou um pouco mais o nariz.

“O que você tá vendo bem no meio do meu olho?”.

Prestou bem atenção e quadradinhos preciosos de marfim cravados na gengivinha doce vieram à luz, num sorriso brilhante: “Eu!”.

Sentenciei, escutando surpresa cada palavra inspirada que eu mesma dizia: “Aparece pelo olho o que a pessoa tem dentro do coração”.

Aproximou-se num impulso de aconchego. Caímos juntos no chão. Doeu. Rimos abraçados, gargalhada retroalimentada pelo alívio da reconciliação. E pelo desajeitado do tombo também.