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Tu

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No teu balanceio, mistério
Tua risada me atravessa
No meu colo quente, suspira
Te olho e o que vejo é promessa

Entregue à tua brincadeira
Espero teu tempo passar
Imito e me vejo imitada
Tua força consigo espelhar

Furtivo o olhar que resgato
A voz silencia no ser
Teu tom toma conta do espaço
Estar junto a ti é crescer

Com muita gratidão às crianças que permitem que eu me desdobre para entrarmos em relação.
2 de abril, dia Mundial da Conscientização sobre o Autismo.

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Quem vê cara não vê coração

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“Quem quer lavar a louça comigo?”
“Eeeeeeu!”
Francamente surpresa, ajeitei um banquinho para meu branquinho. Ofereci um avental e ele abriu os braços receptivo, mãozinhas meladas de picolé. Sentiu o cordão no pescoço e enquanto se contorcia disse: “Olha, um avental de cozinheiro! Mas não quero pôr. Mas quero lavar a louça mesmo assim.”
Voltei a pendurar o avental; paramentado ou não, não poderia recusar uma ajuda deste gabarito. Ensaboou as mãozinhas e pediu que eu abrisse a torneira para ele: estavam muito “escorregadias”.
Deliciou-se com a espuma abundante, deu os banhos mais demorados que aqueles desgastados copos de plástico já receberam até hoje. Encheu uma caneca de metal até transbordar e: “olha! Uma piscina!”.
Eu, já interessada nos utensílios limpos que estava esperando para começar uma receita, fiz uma voz de colherinha e me ofereci para mergulhar.
“Não, você não sabe nadar”.
Tentei molhar os pés – se a água estivesse gelada não insistiria. “Huuum… que água booooa!” exclamei, deixando o frescor percorrer meu corpinho de metal.
“Ah! Tá! Vem na piscina!”
“Iupi! Que delícia! Mas eu quero uma amiga…”
“Não cabe.”
“Cabe sim, a piscina é grande!”
“Mas não dá, tem que ser uma maior, mas tão todas vazias.”
“Ah, que pena…”
“Vai, mamãe” disse, um tom abaixo, “deixa eu pegar outra”.
Entreguei a ele um pote fundo.
“Éeeeessa é a piscina delas! Vem, vem!” disse ele, convidando alguma amiga, ainda não eleita.
Apontei um pote de sopa onde os talheres davam sopa. As colherinhas poderiam escolher dali as amigas que quisessem.
“Olha! Aquela amiga vem!” mostrou animadamente uma colher de sobremesa. “Mas ela é muito grande”, emendou.
“É a mãe delas?”, perguntei.
Tirou o talher dali, pelo cabo, percebendo ser um garfo.
“Não, é uma colher espeto. Vem brincar, colher espeto!… Mas não dá, porque ela é malvada.” Sentenciou, colocando de lado o vilão da história.
O pobre garfo, um pouco humilhado, foi então comigo, tomar banho de detergente.
A piscina, esta tarde, era só para as meninas boazinhas.

Fragmento

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Fragmento

Tenho dois meninos. Passamos a tarde brincando de casinha. Montamos, arquitetamos, costuramos, colamos, inventamos. Muitas idéias não deram certo. Eles pisaram nas miniaturas delicadas. Avisei mil vezes para não pisarem nos brinquedos. Disputaram mil vezes o mesmo material. Briguei por causa da bagunça. Brigaram pelo beliche de cima. Espetei o dedo na agulha. Riram porque eu não sei costurar.
Tudo muito como na vida real: discordâncias sobre os ingredientes e tropeços quanto ao modo de preparo, desrespeitos à receita, louça acumulada… Mas comer quentinho é bom demais!

Um trechinho da brincadeira:
A: “Agora vamos fazer um sofazinho?”
P: “Tive uma ideia!! Que tal a gente faria o sofá com isso?” (levantando o fogãozinho diante do meu rosto)
A: “Ah, Pi, mas a gente vai fazer o sofá de sucata, sabe, senão a gente vai ter que fazer um fogão também, mas já tem esse fogão pronto”.
Inspira profundamente com o nariz colado no fogãozinho.
P: “Ó, cheira. Tem cheiro de sucata. To sentindo cheiro de sucata. Isso é sucata!!!”