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Noite da pesada

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20:04h.

O bebê X*. adormece.

21:10h.

Seu irmão Y*. pega no sono.

A mãe, Z*., embora já tivesse dado suas cochiladas durante o ritual de sono do mais velho, volta à ativa após colocá-lo na cama e esquenta algo para jantar.

21:30h.

O marido, W*., chega do trabalho. Não vai jantar, já comeu alguma coisa, não se lembra mais o que foi.  Vai para o banho.

Z. come o que havia previsto e ataca mais uns doces enquanto ajeita a cozinha.

O casal tenta assistir algo na TV. Quase nada agrada. Definitivamente, não há nada que agrade simultaneamente aos dois.

22:28h.

Z. vai para a cama e adormece em aproximadamente dois minutos e meio.

W. fica no sofá.

23:05h.

X. chora.

Z., pula da cama, dissolvendo um sonho que já estava em curso, amamenta-o.

Y. se mexe na cama, geme, range os dentes. Não acorda oficialmente.

23:20h.

X. fica facilmente no berço após a mamada, Z. volta para a cama.

W. vai para a cama. Quarenta segundos depois, quando Z. adormece, W. ainda está rolando. Não há informações precisas sobre o horário em que adormece.

00:00h.

Y. chama a mãe.

Z. custa a acreditar, mas levanta antes que X. acorde.

Y. quer água, Z. o lembra de que o copo d’água (com tampa e válvula anti-vazamento) está ao seu lado na cama, entrega a ele. Ele toma quase todo e fica quieto.  Milagrosamente X. não acorda.

Z. volta para cama.

W. ronca.

00:29h.

X. chora, está sentado berço.

Z. levanta cambaleante, vai até ele, deita-o, acaricia-o e emite “shhhhh”  até que o choro cesse, fica balançando seu bumbum até que ele pegue no sono. Milagrosamente ele dorme sem mamar.

Y. se mexe na cama, geme, range os dentes. Não acorda oficialmente.

00:40h.

Z. volta para a cama, começa a perceber-se irritada, suspira e rola na cama, adormece em cinco minutos.

W. ronca.

1:17h.

Y. chama a mãe.

Z. levanta num pulo, vai até ele impaciente. Ele tem sede. Z. sussurra rispidamente que pegue seu copo d’água e beba, salienta que para isso ele não precisa dela. Sai do quarto.

Milagrosamente X. não acorda.

Z. deita-se. Decide levantar para ir ao banheiro. Não acende nenhuma luz, não aciona a descarga.

W. muda de posição, suspira.

3:30h.

X. chora, Z. levanta e vai atendê-lo. Encontra-o sentado no berço, pega-o, amamenta-o.

X. demora a relaxar, mama dos dois lados, parece satisfeito.

Z. coloca-o no berço. Ele estica o corpo, choraminga. Ela faz “shhhh”, tenta balançar o bumbum dele, ele levanta, chora mais, ela tenta deitá-lo, ele resiste, ela suspira, ele chora forte.

Y., chupa os dedos, se mexe, está de atravessado na cama, começa a gemer e a resmungar.

Z. percebe que está perdendo o controle sobre si mesma, levanta as grades do berço e vai para o quarto do casal dizendo ao marido num fôlego só frases confusas , sobrepostas e provavelmente exageradas sobre os fatos já acontecidos (e. i.: diz que já se levantou sete vezes esta noite, na realidade foram apenas cinco). Pretendia sussurrá-las, mas precisa falar em intensidade incomum para a madrugada – o choro de X. está muito alto.

W. eleva o tronco e mantém-se em posição intermediária,  possivelmente tentando entender se deve levantar-se ou manter-se deitado.

Z. vai para seu lugar na cama pisando duro, enquanto o marido levanta, tromba no armário, dá ré, previne-se com o braço estendido à frente, tromba na porta, entra no quarto dos meninos e pega X. no colo – sem abaixar a grade do berço.

X. chora a plenos pulmões, grita.

W. leva-o para o trocador e começa a trocar sua fralda no escuro.

W. não consegue prosseguir na tarefa porque não enxerga e acende a luz do quarto.

X. chora o mais que pode.

Y. encolhe-se na cama, chupa os dedos com força, tenta tapar os olhos com a mãozinha.

Z. pula da cama, corre até o quarto dos filhos, coloca a luz noturna na tomada, soca o interruptor apagando a luz do quarto. Diz ao marido para não acender aquela luz.

W. diz que não estava conseguindo enxergar.

Os esposos disputam irritados os últimos passos da troca de fraldas, W. diz a Z. que vá deitar-se, Z. diz a W. que não deveria tê-lo chamado.

Z. vai até a cama de Y., pergunta se precisa de algo. Ele sinaliza que não, procurando manter-se imóvel. Ela acaricia-o, beija-o.

W. vai para a sala com X. resfolegando no colo. Z. aproxima-se, diz ao marido pela segunda vez que não deveria ter acendido a luz do quarto. Tenta pega X. no colo – W. reluta mas acaba permitindo. O bebê silencia.

W. volta para a cama.

Z. leva X. para o quarto, senta-se na cadeira de balanço com o bebê no colo, balança até que ele durma.

Abaixa a grade do berço com uma mão só e todo cuidado para não fazer barulho. Coloca X. no berço, ele fica.

Y. parece dormir tranquilamente. 

4:52h.

Z. volta para sua cama. Não consegue fechar os olhos pensando na proximidade do amanhecer. Pega no sono em alguns minutos.

W. ronca.

6:15h.

O despertador de W. toca, ele o desliga.

6:27h.

W. levanta, entra no banheiro e fecha a porta.

6:28h.

X. chora.

Z. levanta, vai até o quarto dos filhos, encontra Y. também acordado.

Após uma noite restauradora a família está pronta para mais um dia.

 

*as iniciais foram trocadas para preservar as identidades dos envolvidos. X. tem 13 meses, Y. tem 3 anos e 4 meses, W. tem 34 anos e Z. prefere não revelar a idade.

Escrito em dezembro de 2010.