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Bodas de açucar

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– Meninos, hoje nossa oração vai ser por uma coisa muito especial. Hoje é dia oito de setembro, vocês sabem o que aconteceu seis anos atrás?

– Eu sei! – o grito empolgado do Davi me deixou toda importante. – Falou na minha escola! É sobre um imperador!

Olhei para o Digo com um sorriso cúmplice. Ouvimos nosso sabidão continuar:

– Ele chamava Dom Pedro – inspirou interrompendo a frase e olhou para o irmão, abaixando o tom de voz – igual seu nome, Pi!

– É, igual meu nome, Davi!

Eu e o Digo rimo-nos cúmplices. Tentamos fazer a História continuar, mas o Davi proclamou sua independência dela e começou a discursar sobre os nomes dos familiares e amigos, e a soletrar aqueles que já sabe escrever.

– Então, meninos – disse eu, retomando meu desejo de agradecer a Deus – hoje é um dia muito importante, porque faz seis anos que a nossa família começou. Vocês sabem o que aconteceu nesse dia?

– O primeiro nasceu.

– Não, filho, duas pessoas já tinham nascido.

– Eu e o Pi!

– Não, vocês ainda não, vocês são os mais novos.

– Por isso que a vovó Neusa já é velha… – vinha ele de novo, desviando o rumo da prece.

– Então, a vovó Neusa já tinha nascido mesmo – resolvi ir direto ao ponto -, esse foi o dia que o filho dela casou comigo! Foi o dia que o papai casou com a mamãe! Alguém quer fazer um agradecimento por causa disso?

– Eu quero agadecê! Obgadu que vocês casaram e eu também quero casar com vocês!

– Ih, mas não dá pra casar de três, será que dá?

Gargalhamos cúmplices, nós dois, esposos e pais desses dois dons de Deus.

E, seis anos depois, podemos reiterar o clamor daquela grande noite: “Que a família que hoje se constitui, e todas as famílias do mundo, vivam em paz e unidade, sob a luz divina que iluminou Sant’Ana e São Joaquim, Maria e José. Senhor, por intercessão de Maria Menina, ouvi-nos.”

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A ladra

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Quinta-feira chuvosa, dois filhos no carro, tentando entender o que vai fazer o carro da frente e, ao mesmo tempo, encontrar uma estação de rádio que pegue bem em pleno Centro de São Bernardo. Enquanto isso, debatemos o tema “hidratação” (sim: água tem que beber, para hidratar o corpo, mas água não hidrata muito a pele; hidratante hidrata a pele, mas não pode beber, nem se quiser hidratar o estômago).

O farol fecha. Aproxima-se um artista (?), rosto colorido. A ampla boca de palhaço desenhada a batom contrasta com a boca real: pequena, desdentada, esforçando-se por um sorriso animado.

Além de tudo o que (não) me passa pela cabeça, invadem-me dois pensamentos: (a) em quanto tempo o farol vai abrir? (b) que consciência referente a esta abordagem têm meus filhos neste momento? Vejo-me abrindo uma fresta do vidro, ao que o ator agradece e eleva um sacão de pirulitos.

– Obrigado, minha jovem, vamos ajudar este palhaço? Um pirulito por um realzinho ou então a moedinha que a senhora tiver, só pra colaborar, não tem problema não!

Ebulição de pensamentos: “Ajudar esse palhaço a quê? Não vai dar tempo de perguntar, preciso decidir sem essa informação, antes que comecem a buzinar. Embaixo dessa tinta azul é uma cicatriz? Acho que as moedas acabaram… Os meninos já viram os pirulitos? Será que esse pirulito presta? Onde foi que ele arrumou isso? Será que é roubado? Porque ele não está de peruca, ia ajudar a proteger da garoa… Eles vão me questionar mais se eu comprar ou não comprar? Mas o homem vai me dar um só? Tô perdida.”

Em sete segundos encontro três moedinhas mixas e, vendo o farol esverdear, coloco-as na palma da mão do palhaço, gritando: “Mas vou precisar de dois, senão vai ser uma choradeira danada!”. Ele, com uma expressão atônita, abre o saco para que eu retire os doces.

Preocupo-me imediatamente com os acordos que começo a fazer com os meninos e sigo viagem.

– Eba, mamãe! Mas porque você nunca compra isso?

– Porque eu sempre acho que moço assim tem que trabalhar no circo ou na loja de pirulitos, mas só hoje eu comprei.

O caçula entende mal o trecho sobre o “moço”, e contribui:

– O monstro deu o pilo?

– Que monstro, filhinho? O moço! O moço com a cara pintada, ele é um palhaço, não um monstro. Ele que deu o pilo.

Rindo do Pedro, seja por ter entendido assim a monstruosa caracterização do rapaz, seja pela imensa intimidade com os doces que lhe permite abreviar “pilolito”, revejo mentalmente todas as cenas, e, enquanto reescuto a voz do vendedor, rio rouca de mim mesma: ele queria um real por pirulito e recebeu 65 cents por dois. Pra não dizer que o roubei, concluo que obtive um belo desconto nessa transação…

Cenas de solidariedade por ocasião da Páscoa*

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A imagem do escuro/claro foi a tônica com o Davi nesta Páscoa. Ele entendeu muito bem que às três horas da tarde na sexta-feira santa, quando Jesus morreu, ficou tudo escuro e “chuva, e céu preto e monstros e fantasmas”; a manhã da ressurreição, por outro lado, foi cheia de luz “e as pessoas ficaram felizes porque têm Jesus no coração”.

Tendo introduzido o tema da luz e das sombras, posso contar que durante esta quaresma o lustre de nossa sala queimou, e fomos ao supermercado, eu e os meninos, comprar uma lâmpada para reposição. Depois de passar três vezes pelo mesmo corredor respondendo a infinitas perguntas sobre pneus, lanternas e porque crianças não podem ganhar brinquedos para cachorros, resolvi perguntar para uma moça se ela sabia onde ficavam as lâmpadas.

Enquanto ela me respondia “bem ali”, apontando para algum ponto exatamente debaixo do meu nariz, percebi que ela vestia uma camiseta do uniforme da escola onde estudei durante oito anos. Perguntei o nome dela e me vi abraçando-a, enquanto exclamava “a minha professora de Educação Física!”.

Apresentei meus filhos a ela, e ela a meus filhos. O Pi pouco mudou, continuou sentado no carrinho com sua carinha branca. O Davi começou a piar enquanto eu pedia que ele dissesse “oi”, e a rosnar quando a moça começou a explicar os atrativos da escola para crianças de seu tamanho. Levemente frustrada, me despedi.

Reencontramos-nos minutos depois, na fila do caixa, quando a professora estacionou seu carrinho atrás de nós. Uma senhora pagava sete ou oito contas em nossa frente, o Davi começou a comentar sobre os ovos de Páscoa que forravam a loja, a apontar para seus eleitos, a pedir um deles – o azul – e a fazer uma cena inesquecível de birra. Eu mantive a calma, na verdade estava mais preocupada com a contrariedade por passar por isso às vistas de uma professora que há anos eu não via, do que em driblar os maus modos do menino. 

Quando o constrangimento pela gritaria do Davi, já deitado no chão, após ter usado todos os seus argumentos sensatos (como me dizer “mamãe, estica seu braço e pega o ovo pra mim, você precisa ter coragem!”), transbordou de mim e chegou à minha mestra, ela comentou algo sobre a demora da fila e levou seu carrinho de compras para outro caixa, bem longe dali. Semi-ufa.

Mas a birra continuou e contagiou o irmão. Os dois chorando-gritando, eu começando a considerar impossível passar todos os itens do carrinho pelo caixa, ensacolá-los  com o Pi no colo, pagar e chegar até o carro sem danos à  integridade física de ao menos um de nós. Perguntei à senhora de nossa frente se ainda tinha muitas contas para pagar e ela respondeu, educada, que “não, só mais essas três”. Devo ter feito uma cara de pavor, embora tenha procurado manter minha expressão neutra.

Instantes depois, vi que a senhora mexia os lábios olhando para mim. (Exato, poderia ter dito que ouvi a senhora falando comigo, mas de início não ouvi absolutamente nada além do berreiro de minha prole). Cheguei mais perto e detectei que ela havia interrompido seu pagamento e se oferecia para me ajudar. Começou a pôr meus itens na esteira antes que eu pudesse aceitar. Enquanto isso começou a contar para o Davi que “todos aqueles ovos de Páscoa na verdade estão vazios, porque o coelhinho ainda está fazendo o chocolate, que está mole e só fica pronto na Páscoa”.

Nunca me senti tão bem em relação a uma história engrupidora de menores; os dois pararam de chorar, eu primeiro endossei tudo o que minha consciência permitiu (a outra parcela transformei em “é mesmo?”s), enquanto ela empacotava nossas coisas.  Terminei de pagar e encher o carrinho me desfazendo em gratidão, ela distribuiu “de nada”s sinceros e ainda completou dizendo que “não somos nada sozinhos” e que “nessa vida é um por todos”. Fez todo o sentido e eu tive uma certeza muito encaixada de que também agirei assim quando as crianças choronas da fila não forem as minhas.

Saí de lá sorrindo e serena, tocada com a humanidade que tinha acabado de me encontrar. 

Voltando à luz e às trevas: muito embora tivessem dormido apenas oito horas e durante este período acordado, ao todo, cinco vezes, os meninos despertaram ao primeiro raio de sol nesta manhã de Páscoa. Amamentei o Pedro enquanto fazia planos ousados de levá-los comigo à missa das sete.

Desejamo-nos Feliz Páscoa, encontramos os ovos e cenouras de chocolate que o coelhinho deixou em nossa sacada ao lado da cenoura que deixamos para ele. Engolimos alguns bombons (o Pedro também experimentou os restos da cenoura suja de terra, provavelmente a única coisa saudável que comeria neste dia), nos vestimos, nos despedimos do papai e de seu tornozelo torcido e levamos os brinquedos que vieram nos ovos de Páscoa para a missa.

Nos primeiros minutos dentro do carro o Davi me lembrou de que ainda não tinha feito xixi. Aturdida, conferi com ele se daria para aguentar até a Igreja. Ele consentiu e eu confiei. Chegamos ainda antes da homilia – eu, um coelhinho de pelúcia, as únicas crianças menores de sete anos de toda a Igreja e uma mala maior que uma delas.

Logo no penúltimo banco estava o vovô, que recebeu o Pedro resmunguento de “mamãínn” enquanto eu levava seu irmão mais velho ao toilette. A tia-avó organista nos acompanhou – e segurou o coelho – enquanto o Davi se aliviava reclamando do cheiro de banheiro. 

De volta à Igreja, ele educadamente desejou “Feliz Páscoa” baixinho a todos os conhecidos que encontrou e estabelecemo-nos no banco em que vovô e Pi nos aguardavam. Uma senhorinha fez questão absoluta de ceder seu lugar a nós e manter-se em pé até o final da missa. Mais tarde justificou-se, incluindo nas explicações sua “diverticulite nos intestinos”.

 Não entrarei em detalhes quanto à bagunça e aos ruídos que os meninos originaram durante os minutos de celebração que se seguiram, nem ao menos descreverei os malabarismos que me vi fazendo durante a consagração, em pé no corredor central com um filho no colo (querendo jogar para o alto a bola que segurava) e o outro filho no banco (chorando porque não estava grudado em mim).

Bastará dizer o quão encabulada fiquei após os cristãos idosos que nos rodeavam terem abaixado em média três vezes cada um para recolher os folhetos/peças de brinquedo/sapatos que os meninos compulsivamente deixavam cair.

Achei por bem sair da Igreja com as cuias (a mala ficou com o vovô) e deixar que os pequenos brincassem num cantinho do átrio com as mil pecinhas que haviam levado. Foi aí que uma nova cena marcante de solidariedade teve lugar.

Um senhorzinho, que se apresentou como alfaiate do padre, abaixou ao meu lado e me disse que agora eu não sei, mas um dia saberei; ele tem um bisnetinho que entra em casa correndo e perguntando se “o f*%$ da p&#@ do bisavô dele já foi para a alfaiataria”. (Por uma fração de segundos fiquei em dúvida se o senhor estava reclamando da ingratidão dos seus descendentes, mas logo percebi que não).

Mostrou-me sua carteira com a imagem da Sagrada Face, disse que as crianças são a melhor coisa do mundo, reforçou que um dia, quando eu tiver meus netos, eu saberei, e terminou desejando Feliz Páscoa e dizendo – já teria sido muito bom se ele não tivesse terminado assim, mas devo enfatizar que ele disse  – que viu a forma carinhosa como eu entrei com os meninos na Igreja.

Nesse instante, o embaraço, o cansaço e a ponta de arrependimento por ter levado meus filhos à missa das sete deram lugar à gratidão, à consciência de comunidade e à clareza (com todo peso da palavra após estas linhas) do que é a Páscoa.

 

*Escrito na manhã de Páscoa de 2011.

Atchim, tchim!

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Algumas coisas deram certo demais da conta hoje.

Dancei Zouk na academia. Quem? Eu. A mesma pessoa que por anos foi magnetizada pelas cadeiras mais escondidas nos bailinhos. A mesma pessoa que só consegue permanecer em uma pista de dança em festa de casamento se estiver com uma ou mais crianças no colo.

(Então aproveito a oportunidade para contar que ontem, na mesma academia, eu joguei um basquetebol daqueles. Quem? Eu! A mesma pessoa que passava horas desmarcada dentro do garrafão na quadra da escola, pulando com os braços para o alto e declamando os nomes das colegas que passavam a bola entre si enquanto me ignoravam.)

Achei uma larga vaga para estacionar o carro exatamente em frente ao consultório de nossa médica, pela primeira vez em três anos. E na sombra.

Acertei o caminho das Perdizes para a Vila Pires, apesar das obras, das placas tortas, do calor, do falatório, choratório, gritatório, reclamatório e – especialmente – do perguntatório no banco de trás.

Agarrada a um fino fio de esperança de ter em casa o remédio que o Davi precisa tomar amanhã ao despertar, sentei diante da transbordante caixinha das letras B, I, K, L e M. Um riso bufado escapou quando li logo o rótulo do terceiro frasquinho que peguei nas mãos: medicamento certo, potência certa, forma certa, dentro da validade.  

“Atchim, tchim”. Isto quer dizer “assim, sim”, “muito bem”, “certo”, “bingo”, “aê, hein!”.

Pega de calças curtas

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Está calor há dias e eu cansei de ser prisioneira da calça comprida. Combinei de deixar os meninos com meu pai e ir à depilação.

Meio-dia, malas arrumadas, todos almoçados, não fiz ninguém dormir com a intenção de que durmam no carro. Vamos embora.

“Para onde, mamãe?” pergunta o mais velho. Respondo só nomes de ruas, para não excitá-lo com o destino verdadeiro, onde os chocolates, grampeadores e permissões gerais são uma diversão.

Repenso a minha decisão – não saber o destino correto pode ser em si excitante, então completo: “mas a mamãe esqueceu de dizer que é muito longe e vocês vão dormir no carro”. Decido que foi a frase final, a partir de agora só o rádio funcionando como sonolento ruído de fundo.

“Ai, as comidas!” Nada feito, esqueci os jantares dos dois, que passei a manhã preparando. Telefono para a empregada, dou as instruções, reformulo duas ou três vezes cada frase e respondo duas perguntas. Deverá dar certo.

Fazemos o retorno e começam os porquês. O caçula se agita com a voz do irmão. Será que vão dormir? A empregada traz a térmica conforme o combinado, podemos continuar. Foi previdente não marcar horário na depilação.

A gasolina entra na reserva. Ótimo, vamos abastecer e, enrolando mais um pouquinho os bichos, quem sabe o sono vem. O frentista lava o parabrisa, o Davi se esquece do vidro e ri ao imaginar a água molhando a mãe. Respondo mais perguntas. Paciência se ele não dormir, o mais importante é o sono do bebê.

As perguntas param, o Pedro toma o turno com sua cantoria. Olho para trás e confirmo: o Davi dormiu. Ok, só falta um.

Telefono para o vovô descer e me ajudar a carregar os filhos e as bagagens via elevador. O ruído dos talheres ao fundo me faz suspeitar: ele estava almoçando fora. Devia ter dito que “mal combinei de deixar os meninos com meu pai”. Decido dar mais voltas com o carro, quem sabe o Pedro pega no sono. O choro começa. Vai acordar o irmão! Decido voltar, me perco pelas ruas sem saída do bairro, como sempre.

Lágrimas e gritos depois, chegamos à garagem – excepcionalmente eu trouxera o controle do portão! Subir até o apartamento era impossível, então enquanto esperávamos, o Pedro mamaria/pararia de chorar e pegaria no sono. Quando o avô chegasse estudaríamos o que fazer, de acordo com os tempos-base que eles costumam dormir. Mas o Pedro acha que estar no carro fora do bebê conforto é como estar em um parque de diversões, nem mama, nem – muito menos – dorme. Preciso de outro plano: andar de carro um pouco mais. Vamos para a casa da minha mãe, onde não tem elevador para complicar.

Chegando lá descubro que ela está em casa, tem tempo para fazer o Pedro dormir, pode tomar conta do Davi até que acorde. Posso sair com o carro dela, assim não precisamos mexer no dorminhoco, que a essa altura certamente acordaria. Aviso meu pai de que não temos hora para ir. Tarde demais, ele já está indo para casa, pediu para embrulharem o almoço.

Apresso-me em sair para a depilação. Mas… o barulho do portão abrindo acorda o Davi, que me vendo através dos vidros dos dois carros choraminga: “mamãe, quero ficar com você!”.

Despeço-me da vovó, seria inviável fazer um dormir com o outro acordado e manhoso. Retomamos o plano anterior e voltamos para a casa do vovô. Quase chegando, decido investir em dar mais voltas pelo caminho, funciona: o Pedro, depois de chorar e de cantarolar já entregue, adormece.

O carro do vovô está na vaga da frente, ele não acreditava mais na visita dos furões. Enquanto manobro os dois carros o Davi se aflige e fica mais reclamão. Quer descer sozinho da cadeirinha. Quer saber porque tem uma placa com o menino descendo a escada. Tudo isso com a mamãe pedindo o impossível silêncio. Brigamos ao entrar no elevador. Ele chora alto, o irmãozinho abre os olhos. Penso em sentar no chão e chorar também eu, mas aproveito um sopro de inspiração e decido balançar o bebê conforto do Pi, ele fecha novamente os olhinhos. Pego Davi no colo, desculpa filhinho.

Chegamos ao apartamento, o vovô, que já terminava de almoçar, leva um susto. Tiro os telefones da tomada, fecho as cortinas, deixo o pequeninho em paz no quarto. O Davi pode comer quantos chocolates quiser, volto em uma hora.

Quarenta minutos depois estou de volta, não tinham horário para a sobrancelha. Mas minhas pernas finalmente me permitem usar calorentos vestidos. Embora, a propósito, o tempo tenha virado hoje e por mais uns dias as calças devam ser a mais sensata opção.

 

Escrito em setembro de 2010. Postado com meus agradecimentos ao Vitor, à Maluca e à Nayroca, que com este texto começaram a pedir o blog. 😉

E como você faz se eles dormem no carro?

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Essa pergunta é uma das “top dez”. Ouço muito frequentemente, mas toparia ouvir ainda mais, caso significasse que eles obrigatoriamente dormiriam no carro a cada vez que isso me fosse perguntado – e especialmente que não acordariam ao serem colocados na cama.
Minhas respostas usuais:
“Um no carrinho e outro no colo”.
“Interfono chamando o Digo (pode ser substituído por algum santo vizinho do ap.44) e ele me ajuda”.
“Como sempre”.
“Tô acostumada”.
Às vezes o dia foi tão longo antes desse questionamento que eu tenho ímpetos de dar respostas mais criativas, como:
“Ah, acordo os dois pra eles me ajudarem a subir com as malas”.
“Deito meu banco e durmo também”.
“Espero o zelador achar e entregar junto com a correspondência”.
“Deixo lá e pego amanhã de manhã”.
Mas, para fins científicos (aceitando servir de fonte para alguma pesquisa antropológica do próximo século, que investigue o impacto da tecnologia rudimentar edifício-carro-elevador na vida das famílias), serei aqui bem específica:
a) manobro com cuidado especial para não bater o carro nas colunas, evitando acordá-los;
b) estaciono na vaga, sendo que, caso o carrinho de bebê esteja no porta-malas, deverá ser deixada folga da parede permitindo abertura da porta;
c) desligo o carro, mantendo o rádio ligado;
d) abro o carrinho de bebê em local seguro, próximo do carro, calculando a rota por entre as colunas para que não entale quando estiver carregado;
e) pego o copo d´água e o “amigo” do Davi (bicho de pelúcia pré-selecionado que o acompanhará durante a noite, pode também ser outro objeto, como um pedaço de papel laminado, um canudo, o token do tio), coloco-os na bolsa do carrinho;
f) tiro o cinto de segurança do Davi , pego-o no colo, sento-o no carrinho;
g) fecho as portas deste lado do carro, dou a volta;
h) abro a porta do acompanhante, pego as sacolas e as penduro nas manoplas do carrinho;

h’) caso o volume das sacolas impeça que eu empurre o carrinho com segurança ou caso seu peso ultrapasse os 15 Kg correspondentes ao peso do Davi, uma ou mais sacolas ficará em minhas costas e/ou braços e/ou pescoço; caso o conteúdo das sacolas seja não-perecível, elas poderão aguardar a chegada do cônjuge conhecido como “papai”; caso haja certa urgência na chegada das sacolas no apartamento, elas deverão ser deixadas em local visível para que o cônjuge atine pegá-las – leia-se: sobre o capô do carro ou no meio da vaga da frente;

h”)atenção: não inverter a sequencia de colocação das cargas descritas em “f” e em “h”, evitando assim que o carrinho tombe;

i) levo o carrinho até o hall dos elevadores e, dependendo do andar em que estiverem, aciono o botão;
j) volto correndo para o carro e ponho a chave de casa entre os lábios;
k) ouço atentamente se há algum veículo chegando ou saindo da garagem, e em caso positivo, verifico se pertence a algum vizinho barulhento ou conversador, o que pode adiar a continuidade dos procedimentos até o desaparecimento completo do mesmo;
l) desligo o rádio e fecho a porta do acompanhante;
m) abro a porta do Pedro, tiro o objeto que estiver em suas mãos (em geral uma bola, mas pode também ser um cadeado, uma escumadeira plástica ou um CD);
n) tiro o cinto de segurança do Pedro (este é um momento crítico para a continuidade ou não do sono), tiro o cabelo de meu ombro direito, pego o Pedro no colo, deito-o no ombro, fecho a porta do carro;
o) ando até o hall dos elevadores (caso algum vizinho surja a partir deste momento, ele será tratado de forma não-verbal, mesmo porque estou com a chave na boca);
p) abro a porta do elevador, seguro-a com o pé esquerdo, abro bem as pernas, troco a mão que apoia o Pedro da direita para a esqueda e manobro o carrinho com a mão direita até que ele entre no elevador, entro no elevador (este procedimento é significativamente facilitado caso chegue o elevador de serviço, cuja porta mantém-se aberta);
q) “apétusseis”, aguardo a chegada no andar desejado (caso o elevador pare antes em algum outro andar, não há motivo para preocupação, porque como já fico encostada na porta, de costas, com uma carequinha loira ao lado, qualquer um vê que não dá para entrar);
r) desço de ré, empurrando a porta com as costas, puxo e manobro o carrinho, até que deixe a porta do elevador livre para que se feche;
s) manobro o carrinho até que fique de frente para a porta de casa;
t) tiro a chave da boca e abro a porta;
u) tiro um pé do sapato e uso para segurar a porta de casa (caso o sapato seja muito leve ou faça barulho no piso de madeira ou esteja me incomodando desde o meio-dia, tiro os dois pés);
v) entro com o carrinho em casa, afasto o(s) sapato(s), acendo alguma mínima luz, fecho a porta;
w) levo o Pedro para o quarto, fecho a janela (caso se aplique), deito-o no berço (momento crítico principal);

w’) a experiência de ter que ninar o Pedro por minutos a fio chacoalhando seu bumbum no berço até que volte a dormir ou ainda amamentando-o por período ainda maior, provocou a supressão do procedimento algumas vezes adotado de manter o Davi no hall do andar, o que suprimiria completa ou parcialmente os itens “u” e “v”);

x) volto para a sala, retiro silenciosamente as sacolas das manoplas do carrinho, retiro a água e o “amigo” do bolso do carrinho, coloco-os na cama do Davi;
y) pego o Davi no colo, levo-o para o quarto, deito-o na cama, cubro-o;
z) fecho a porta do quarto;
aa) faço o Sinal da Santa Cruz.

Escrito em abril de 2011.