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Supera, a luz do amor, nossos escuros?

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No profundo do tempo, na primeira criação, “faça-se a luz”.
Nos crescimentos mais singelos, a direção é a luz.
A quem nasce, é “dada a luz”.
A quem melhor quer ver, “mais luz”.
Ao que suplica soluções, “uma luz”.
Há corpos celestes que emitem luz, há corpos celestes que a refletem.
A vida que vemos é luz, como é de luz a que julgamos não ver.
E se ligamos nossos vazios e nossos medos ao escuro, a ele também ligamos nossas solidões.
São mais luminosos os caminhos que fazemos acompanhados.
As veredas desenhadas a dois são mais seguras.
Mais fulgurantes as estradas partilhadas.
Uma gota solitária transparece alguma luz, mas é no brilho de muitas que se faz o arco-íris.
No brilho das amizades estão os nossos melhores risos e a claridade das boas trocas onde o melhor aprendemos.
Se como solitária flauta temos beleza, a mais forte e bela orquestra seremos se aliados.
Então nossa alma está sempre disposta ao abraço.
Bendito o abraço que ilumina.
Bendito o afago que faz nosso coração luminosamente mais doável.
Bendita a palavra que aponta para a luz de um novo dia.
Benditas as mãos que fazem cintilar a ternura divina.
Há uma generosa geografia que, vagalumeando as paisagens, forma pares; com pincéis de sol sublinha o encantamento, faz novas auroras. Incendiados os afetos funda, aqui na terra, exato céu.
E quando a voz dos sinos anuncia esse acontecimento, leva nossos corações a aplaudirem.
Quando a voz dos sinos anuncia que, na constelação de amigos, duas estrelas unem suas cintilâncias, fazemos festa: que os anjos teçam luminosos dias ao par que vemos!
Que “ela” e “ele” escrevam novos salmos na branca folha hoje inaugurada.
Que todos nós guardemos vívido sol a oferecer-lhes reconsolando-os das chuvas.
Que a chama de seus castiçais jamais se gaste, eterna acenda!
Que quando os olhos, molhados de lembranças, trouxerem a saudade desse dia, possamos repetir: “sim! A luz do amor supera nossos escuros!”

Texto de Cecília Inês Vertamatti, que ganhamos de presente há exatos 8 anos.
Obrigada pelas palavras, mãe.
Obrigada pela jornada, Digo.

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Bodas de açucar

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– Meninos, hoje nossa oração vai ser por uma coisa muito especial. Hoje é dia oito de setembro, vocês sabem o que aconteceu seis anos atrás?

– Eu sei! – o grito empolgado do Davi me deixou toda importante. – Falou na minha escola! É sobre um imperador!

Olhei para o Digo com um sorriso cúmplice. Ouvimos nosso sabidão continuar:

– Ele chamava Dom Pedro – inspirou interrompendo a frase e olhou para o irmão, abaixando o tom de voz – igual seu nome, Pi!

– É, igual meu nome, Davi!

Eu e o Digo rimo-nos cúmplices. Tentamos fazer a História continuar, mas o Davi proclamou sua independência dela e começou a discursar sobre os nomes dos familiares e amigos, e a soletrar aqueles que já sabe escrever.

– Então, meninos – disse eu, retomando meu desejo de agradecer a Deus – hoje é um dia muito importante, porque faz seis anos que a nossa família começou. Vocês sabem o que aconteceu nesse dia?

– O primeiro nasceu.

– Não, filho, duas pessoas já tinham nascido.

– Eu e o Pi!

– Não, vocês ainda não, vocês são os mais novos.

– Por isso que a vovó Neusa já é velha… – vinha ele de novo, desviando o rumo da prece.

– Então, a vovó Neusa já tinha nascido mesmo – resolvi ir direto ao ponto -, esse foi o dia que o filho dela casou comigo! Foi o dia que o papai casou com a mamãe! Alguém quer fazer um agradecimento por causa disso?

– Eu quero agadecê! Obgadu que vocês casaram e eu também quero casar com vocês!

– Ih, mas não dá pra casar de três, será que dá?

Gargalhamos cúmplices, nós dois, esposos e pais desses dois dons de Deus.

E, seis anos depois, podemos reiterar o clamor daquela grande noite: “Que a família que hoje se constitui, e todas as famílias do mundo, vivam em paz e unidade, sob a luz divina que iluminou Sant’Ana e São Joaquim, Maria e José. Senhor, por intercessão de Maria Menina, ouvi-nos.”

Canção, novela… romance.

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Ouvir rádio hoje foi mais interessante. Algumas declarações de amor, algumas lamentações de amor, muitas músicas de bailinho da vassoura. A esposa que deixou um bilhete surpresa para o marido dentro do carro, já às cinco da manhã; o radialista que despertou sua companheira com um beijo e um enigma.

Na academia só para mulheres foi instigante observar o movimento das conversas: quando alguém, apaixonada, começava a contar sobre os planos para mais tarde, muitas outras revelavam suas ideias, de românticas a picantes. Quando alguém, frustrada, reclamava que o marido ia jogar bola esta noite, muitas outras entortavam a boca e revelavam suas próprias decepções, de esquecimentos a presentes de grego. As mesmas interlocutoras teceriam conversas muito diferentes, dependendo do estímulo.

Há algumas semanas observei, compenetrada, dois casais durante a missa. Um deles evidentemente de namorados: o rapaz acariciava o ombro da companheira, a abraçava e falava em seu ouvido, mesmo que ela tentasse guardar silêncio ou ficar ajoelhada por um pouco mais de tempo que ele. A expressão corporal da moça, que eu só vi de costas, me disse que ela queria um pouco mais de introspecção e menos paparico. Não deixou de ser receptiva ao namorado, mas me pergunto: porque será que eu li seu pedido por oxigênio e ele não leu? Supus que, dentro de alguns anos, senão meses, senão minutos… a paciência da moça poderá se acabar. E a por vezes inoportuna ternura do rapaz poderá ressentir-se disso.

O outro casal revezava passeinhos, balangadas e passadinhas de fralda no rosto de seu primeiro bebê fofucho. Embasbacados, os dois, com aquela criancinha amada. Mas, enquanto o pai babava litros, a mãe parecia querer um pouco de ordem e de funcionalidade. Sacava os objetos de dentro da bolsa sem precisar olhar para as mãos, arregalava os olhos quando o pai sacolejava o bebê de um jeito que lhe parecesse menos conveniente. Mas ele não soube disso, porque não olhou para ela, não a percebeu; naquela cena só tinha olhos e braços para a filha. Tanto que quando a menininha passou para o colo da mãe, tão entusiasmado abaixou-se para beijar sua barriguinha, que bateu com força a cabeça no nariz da esposa, que, com as mãos ocupadas, nem pode segurar a dor que seus olhos crispados exprimiram. O marido nem percebeu: não pediu desculpas, não a acariciou, não a pegou no colo. Fiquei imaginando que, se isto ocorresse há algumas semanas, ou meses, ou anos, a mulher – que ainda viria a carregar no colo a filha que carregava no ventre, ou que ainda viria a carregar no ventre a filha que carregava na alma – poderia estar sendo consolada, cuidada, admirada e mimada pelo seu companheiro babão.

Avançando ou retrocedendo a fita de nossos discursos, manipulando o tempo do filme de nossos momentos, tentemos perceber nós mesmos o que fazemos com nossos amores e como tratamos quem mais nos importa. Talvez valha a pena recuperar os episódios iniciais de nossas novelas, para inspirar próximos capítulos instigantes e construir o tão desejado final feliz.