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O prumo e o rumo

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Concentrada nas lacunas da despensa, ela andava em direção ao mercadinho. Planejava sacolas moderadas, conteúdo essencial. Depois disso, compromissos engatilhados aos quais compareceria prolongando a caminhada.
Vieram à mente os docinhos diet, doçura disciplinada que a rotina consciente lhe permitia. Catalogou mentalmente os sabores desejados, já se vendo diante das prateleiras. Porém, ainda na calçada, dobrou-se secamente, três passos para a frente, braços estendidos, previu já as mãos ardendo pelo atrito com o cimento áspero, um passo torto para o lado, olhos arregalados pelo susto. Magicamente voltou para o prumo, joelhos exigidos, ofegante. Endireitou-se.
Atropelada por uma bicicleta, no calçadão comercial. Ofendida pela intrusão do impacto em seus planos. Assustada e dolorida.
Quando viu, a centímetros de si, a bicicleta vermelha deitada, ardiam as solas dos pés e queimava o pescoço. Levantou o olhar, pronta para o protesto, ou para o “olha por onde anda”, ou para a indiferença mal educada. Mas o que enxergou foi uma face de consternação e só o que pode dizer foi: “que bom que nenhum de nós se machucou, né?”.
Olhos arregalados responderam silenciosamente à sua compaixão e, em seguida, a voz quase adolescente reuniu-se do fundo da vergonha para dizer: “a senhora me desculpa, é que eu tô muito cansado”. Rependurando sacolas no guidão e o corpo magro no selim, voltou a pedalar cambaleante com seus chinelos encardidos.
Ela vinha das compras e seguia para a aula. Ele vinha da exaustão e rumava para o mistério. No meio do caminho, os dois encontraram a empatia.

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Encontro

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– Coador de café – ela me disse, séria.
Veio à minha mente uma cafeteira. Olhei para minhas mãos, repletas de itens de material escolar. Não, eu não podia estar parecendo uma funcionária do hipermercado…
Ela resolveu espremer os olhinhos e cumprimentar:
-Bom dia!
Sorri parcialmente e respondi.
– Só tem do 102, como vai fazer, fica tudo saindo pra fora…
Visualizei a cena do pó de café derramado. Ou seriam as bordas do papel do coador que ficariam sobrando?
Inspirei achando graça e desisti de me esquivar. Não importava quem eu fosse, não importava que eu não soubesse sequer passar um café.
– Pra mim precisa ser o 2, o 102 não serve, mas não tem ali. Vem aqui ver – ela me guiou decidida pelos corredores.
Acompanhei, carregando meus rolinhos de durex.
– Filtro de papel a senhora quer, né?
– Isso, bem! Olha aqui, só tem do 102 – e apontou para dezenas de caixas verdes.
Vi bem ao meu lado três caixinhas azuis: 2. Lentamente estendi o braço, indicando-as.
– Olha aí, não é que você achou? Eu olhei, olhei, mas só vi o 102!
– Ah, estão escondidinhas, mesmo…
– Ah, que bom! – Pôs uma delas na sua cestinha de compras. Ocorreu-lhe algo brilhante, que dividiu comigo:
– Tá vendo, o 2 que é bom, tá todo mundo levando, por isso que não tem! Vou levar logo duas!
– Boa ideia, aproveita!
– Obrigada, viu, bem!
Encontros. O que seria de nós sem eles?

Vulto

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Foi andando em direção às batatas que nos cruzamos. Na verdade, só me dei conta de ter passado por um vulto quando senti ímpetos de ir abraçá-lo correndo e sorrindo.
Mas era mais baixo, talvez. Um pouco mais magro? Não era ele, não.
Peguei uma batata grande. Olhei para trás. Como pode um desconhecido segurar as mãos daquele jeito? As duas atrás das costas, entrelaçadas por um dedo só, entre elas e a pele do corpo um blusão de lã bege. Ou cinza, agora não me lembro. A que me disparou a saudade foi a bege.
Umas cinco batatas está bom. Meia dúzia para ser mais clássica. Ele nunca compraria menos que o dobro disso.
Quantas vezes bandolei com ele por mercados que não existem mais? Eu não pedia nada, mas quando íamos as três netas, sempre a espuleta o fazia trazer uns Danones pra casa. E escolhia as bolachas. Os Bebezinhos Pullman ele pegaria de qualquer forma, mesmo que não estivéssemos ali. Ou umas Ana Marias, para deixar no armário onde guardavam o durex. No armário das xicrinhas ficava o queijo provolone. Hum…
Foi só depois de adulta que cruzei com ele sem querer pela cidade. Geralmente no comércio rotineiro das manhãs – mercados, centro da cidade. E no cemitério aos domingos, mas aí não era sem querer, era de propósito. Sentava ao seu lado para assistir à missa, sobre um encarte qualquer de ofertas que ele tirava bem dobradinho de dentro do bolso.
Uma vez o chamei para visitar uma exposição na Marechal. Ele foi! Segurei o choro quando o vi chegar e fui abraçá-lo no meio da calçada hostil pela qual tanta gente se ignora toda hora.
No supermercado nos encontramos regularmente quando eu já ia acompanhada, bisnetinho no sling. O corredor de limpeza me dispara a alergia, mas nesse dia os olhos lacrimejaram não por isso. Ao invés de abrir o sorriso e vir ao nosso encontro, ele recuou. Apenas com o olhar, mas senti-o recuar. As compras já estavam meio penosas, queria acabar logo e voltar para sua casa com tudo certo, sem imprevistos. Nada de pegar nenê no colo.
Nada mais justo, depois de oito décadas e meia de disposição. A vida agora amarga já fora muitíssimo bem vivida.
O senhor que passou por mim antes das batatas, que me trouxe a memória do cheiro do sabonete Palmolive e do belo sorriso de olhos verdes, deve ter ido embora logo.
Mas a saudade não foi.

Chiadinhos

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“Chiadinhos”. Foi isso que ele me pediu, com ênfase sedutora. Almoçara já há um bom tempo, acabara de acordar da soneca, passara uns dois intervalos comerciais em frente à televisão. Chiadinhos só podia ser de comer.

“O que é que ele quer, Davi?”, perguntei, sendo ignorada. Quatro olhinhos cansados fitando sua majestade, a telinha. Sentei entre os dois, cafuné em um, massaginha no joelho do outro. O “quero ficar com você” motivou minha permanência ali até o próximo intervalo comercial.

Uma bela musiquinha, crianças lindas lambendo os beiços, muita farinha, uma fornada de biscoitos quentinhos generosamente recheados de chocolate cremoso. “Recheadinhos Bauducco? É isso que você quer, Pi?”

Era. Na última compra em que me acompanhou ele pediu e eu, seduzida pela foto da embalagem, arremessei um pacotinho carrinho adentro, para experimentar. A hora era agora.

Fui para a cozinha e retornei com dois potinhos cheios de… chiadinhos e vontade de agradar. “Não, bigadu”. Ele nem sequer reconheceu o objeto de seu desejo. “É recheadinhos que você pediu, filho”. Não quis. Por insistência minha mordeu uma bolachinha, que deixou pela metade. O irmão comeu, entre faminto e distraído, mas não creio que tenha gostado muito.

Evidências sobre os efeitos da propaganda (enganosa) no meu dia-a-dia. Mas agora eu aprendera e tudo estaria facilmente sob controle… Até a próxima ida ao supermercado, quando uma mãozinha branquela capturaria um pacote da prateleira. Eu chiaria, mas, apesar de tudo, ainda não seria fácil fazer meus chiadinhos soarem mais alto que o poder da propaganda…

 

 

Texto postado por ocasião da blogagem coletiva proposta pelo Movimento Infância Livre de Consumismo juntamente com blogs parceiros. Este movimento é composto por pais e mães que desejam uma regulamentação séria e eficiente da publicidade voltada para crianças. Para saber mais acesse: http://www.infancialivredeconsumismo.com. br