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Ausência

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Na última ladeira antes de chegar em casa, o carro da frente parou no meio da pista. Esperei. Buzinaram atrás de mim (um carro com uns seis meninos cabeludos dentro). Buzinaram atrás do de trás. A fila de latarias com luzes acesas na noite fria foi crescendo, e acho que empatou o trânsito da avenida.
Farolei um pouquinho, nada. Observei atentamente, e cheguei a ter a impressão de que o carro estava sem motorista. Mas o tinha visto ser dirigido até ali…
Um motoqueiro costurante subiu até o primeiro da fila. Parou, desceu da moto, tirou o capacete. Fez sinal de negativo com o polegar, como se estivesse indicando uma pane mecânica. Mas a pane era humana…
Coração na garganta, desci do carro também. Eu, o motoqueiro e uma moça que trazia a mãe no banco do carona ficamos em frente à janela do senhor que nos olhava sem nada dizer.
Cheiro de urina. Incapacidade de tomar decisões, planejar, tomar qualquer iniciativa. Respondia nossas perguntas em circunlóquios. “Quer que chame uma ambulância?”, perguntou o motoqueiro. “Moro aqui”, respondeu ele. “Quer que interfone para alguém?”, perguntei eu. “Moro sozinho”, falou devagar e irritado. “O senhor lembra o número do seu apartamento?” “Claro que lembro”, respondeu entre cínico e confuso. Mas não nos disse. “Eu sofri uma perda muito…” disse o senhor ao motoqueiro, que soltou “o senhor vai ficar bem”, sincero, parecendo ter medo de ouvir mais. “Encosta aqui, não precisa estacionar direitinho”, orientou a moça, prática e prestativa. Em um automatismo, ele embicou na garagem, a moça o seguiu edifício adentro enquanto a mãe foi para o carro desentupir a ladeira.
Voltei para meu volante, aliviada porque em instantes estaria em minha casa quentinha com aqueles que amo.
Mas, no fundo, teria gostado muito de preparar um chazinho aconchegante para aquela comunidade instantânea que se formou no meio da rua. Trocar nomes, histórias e talvez lágrimas. Trocar as roupas molhadas daquele sofrido e perdido senhor, da mesma forma como buzinas hostis foram trocadas por solicitude e um pouco de humanidade.

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Dinossauros católicos

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Há algumas semanas o que anima o Davi para ir à missa é a provocação: “mas e se o Gabriel estiver lá?”. Decide os brinquedos que vai levar pensando no amigo da escola, escaneia a assembléia em busca do coleguinha.

Hoje, achamos, eu e ele, nossos lugares num banco já cheio. Minutos após nos sentarmos, quando eu terminava de ler uma história da Bíblia para Crianças, bem ao pé do ouvido, com ele no meu colo, vi um sorriso sincero abrir-se: “eu vi o Gabriel”.

O Gabriel e sua família estavam exatamente na linha do nosso banco, do outro lado da igreja. Convidei-o com um gesto para vier até nós, e ele veio com seus cards de dinossauro. “Sabe meu dente que tava mole, Davi? Ó!”. Mostrou a janelinha na boca. A Fada do Dente presenteou-o com os dinos.

Passaram a hora revezando entre oração e bate papo, anquilossauros e a parábola do bom pastor, o mapa da Galiléia e o estegossauro. Deram-se as mãos no Pai Nosso, me disseram os nomes de seus padrinhos ao assistir o batizado, entraram num consenso sobre me acompanhar ou não na hora da comunhão.

O Gabriel me despistava com “mas a gente falando baixinho” e o Davi olhava para mim com um sorriso lindo – entre cúmplice, agradecido e bagunceirinho.

Interrompi uma das conversas empolgadas com “agora é hora de falar obrigado pra Jesus pelos nossos amigos”. “Mas na cabeça, tá, mãe?”, destacou meu filho encabulado.

Os fiéis ao redor de nós estavam certamente mais encantados com a vida viva e as gracinhas dos dois amigos, do que contrariados com o barulhê. Comovi-me ao perceber que a comunidade abraça a cada um, e que, assim como meus amigos sustentam minha vida, meu filhinho já tem sua vida sustentada pelos seus.

Depois da celebração, despedimo-nos da família do Gabriel com gostinho de quero mais. Entramos no nosso prédio, Davi muito mais saltitante que o normal. Me disse que adorou encontrar o amigo. E eu me lembrei: “Sabe o que Jesus falou uma vez, filho?”

“O que?”. “O que, mãe?”, parou de saltar pelo quadriculado do piso do hall, impaciente com minha demora em responder.

Engoli o choro e finalmente respondi: “Quando dois ou três estiverem reunidos em meu nome” – novo fôlego embargado – “aí eu estarei”.

“Então ele estava!”.

Estava sim, filho. E permanecerá.