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Caracóis

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Caracóis dourados reclinaram no meu ombro logo após nosso encontro.

Negros caracóis aceitaram meu beijinho, mas mantiveram a distância segura que costumam praticar.

Caracóis dourados pulularam rindo com meus filhos, emolduraram sorrisos diante de minhas provocações.

Negros caracóis trepidaram, ambivalentes, no chacoalhar de minhas pernas.

Caracóis dourados adormeceram falando comigo, partilhando um tão honroso passeio vespertino.

Negros caracóis, depois de transpassarem meus olhos com toda sede que têm, finalmente confiaram na minha voz e penderam, transpirando, na curva resistente do meu braço.

Caracóis dourados despertaram chamando meu nome.

Negros caracóis de mim correram ao acordar.

Caracóis dourados fugiram de meus dedos e, sapecas, afirmaram querer ficar bagunçados.

Negros caracóis a mim sorriram cúmplices na despedida afetuosa.

Não tenho caracóis. Mas ontem tive.

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Quem vê cara não vê coração

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“Quem quer lavar a louça comigo?”
“Eeeeeeu!”
Francamente surpresa, ajeitei um banquinho para meu branquinho. Ofereci um avental e ele abriu os braços receptivo, mãozinhas meladas de picolé. Sentiu o cordão no pescoço e enquanto se contorcia disse: “Olha, um avental de cozinheiro! Mas não quero pôr. Mas quero lavar a louça mesmo assim.”
Voltei a pendurar o avental; paramentado ou não, não poderia recusar uma ajuda deste gabarito. Ensaboou as mãozinhas e pediu que eu abrisse a torneira para ele: estavam muito “escorregadias”.
Deliciou-se com a espuma abundante, deu os banhos mais demorados que aqueles desgastados copos de plástico já receberam até hoje. Encheu uma caneca de metal até transbordar e: “olha! Uma piscina!”.
Eu, já interessada nos utensílios limpos que estava esperando para começar uma receita, fiz uma voz de colherinha e me ofereci para mergulhar.
“Não, você não sabe nadar”.
Tentei molhar os pés – se a água estivesse gelada não insistiria. “Huuum… que água booooa!” exclamei, deixando o frescor percorrer meu corpinho de metal.
“Ah! Tá! Vem na piscina!”
“Iupi! Que delícia! Mas eu quero uma amiga…”
“Não cabe.”
“Cabe sim, a piscina é grande!”
“Mas não dá, tem que ser uma maior, mas tão todas vazias.”
“Ah, que pena…”
“Vai, mamãe” disse, um tom abaixo, “deixa eu pegar outra”.
Entreguei a ele um pote fundo.
“Éeeeessa é a piscina delas! Vem, vem!” disse ele, convidando alguma amiga, ainda não eleita.
Apontei um pote de sopa onde os talheres davam sopa. As colherinhas poderiam escolher dali as amigas que quisessem.
“Olha! Aquela amiga vem!” mostrou animadamente uma colher de sobremesa. “Mas ela é muito grande”, emendou.
“É a mãe delas?”, perguntei.
Tirou o talher dali, pelo cabo, percebendo ser um garfo.
“Não, é uma colher espeto. Vem brincar, colher espeto!… Mas não dá, porque ela é malvada.” Sentenciou, colocando de lado o vilão da história.
O pobre garfo, um pouco humilhado, foi então comigo, tomar banho de detergente.
A piscina, esta tarde, era só para as meninas boazinhas.

Cai não cai

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Faltam três dias para o Natal.

Passei a tarde com três meninos.

Dois filhos e um afilhado me puseram em contato com várias nuances do meu temperamento, da que derrete ao ouvi-los enumerar “palavras de amor” num jogo que inventamos, à que tem vontade de implodir cada um deles quando fazem voar pelos ares da sala já suficientemente badernada os componentes do “Cai não cai”.

Quem teve infância sabe de que se trata: um brinquedo encantado, bolinhas de gude, varetas pintadas, um tubo com passagens secretas, um mecanismo que parece mágico. Hoje, repaginado: o que para mim é Disney demais, para eles é super legal. Um brinquedo que oferece tantos riscos – de perfuração, asfixia, sumiço das peças sob o sofá, entre outros – e, consequentemente, faz a mamãe ficar junto brincando o tempo todo, está no topo da escala de atraência.

Para ter calma, conte até três.

Mas vou precisar de mais três chances…

Enquanto eu tirava do alcance alguma coisa mais proibida, eles tiravam da caixa a nave de Buzz Lightyear e todos os seus cacarecos. As varinhas e as mini bolas pulando pelo chão, alegres, coloridas, como adestradas pulgas gigantes. E as duas, mamãe e madrinha, berrando a plenos pulmões.

Deixa, não deixa? Pode, não pode? Dá, não dá? Quer, não quer? Vai, não vai? Fica, não fica? Fala, não fala? Cai, não cai? Caiu. Tentou saltar pirueteando da corda bamba a tarde toda, até que tropeçou no chão encerado e em seguida escorregou numa das pedras do caminho.

Sorte que os tigres tristes são apenas três.

Na hora da chuva, o menino do sobrado, desacostumado ao sexto andar, apareceu dizendo “vi uma coisa branca no céu!”. Um disco voador? Seu rostinho desbotou ainda mais. O foguete do Buzz? Um sorrisinho coloriu o rosto pálido. Era só um raio. Para quem já havia ouvido tantos trovões…

Sorte que os três reis magos enxergaram a estrela guia.

Mas… A bem da verdade… nós também a enxergamos algumas vezes, ao longo da tarde.