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Mais um ano na lista dos bem vividos

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“Qual seria a sua idade se você não soubesse quantos anos você tem?” (Confúcio)

 

Cê tenta estimar: 30 anos, com tanta energia, sentada no chão

Cê tenta acertar: uns 50? Prata no cabelo, ouro no coração…

 

Cê tenta encontrar uma irmã, uma esposa, uma filha, de dedicação

Cê tenta entender essa mãe, essa tia, essa avó é um camaleão

 

Cê tenta cuidar-nos pra sempre, levando no colo, qual os cangurus

Cê tenta bordar ponto cruz, tecer uma vida louvando a Jesus!

 

“Cada um tem a idade do seu coração, da sua experiência, da sua fé.” (George Sand)

 

Salve 11/out/1942

Retrato de alguém que precisa melhorar

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Uma das atividades mais legais que o Davi fez na escola foi a releitura da obra de arte de Giuseppe Arcimboldo, na a qual usaram frutas para fazer um retrato e depois comeram de sobremesa.

Numa tarde que se encaminhava para ser mais calórica do que saudável, eu resolvi fazer circulozinhos verdes de kiwi, barrinhas amarelas de banana e lasquinhas vermelhas de maçã. Ficaram motivados e envolvidos. De quem eram aqueles os olhos verdes? Da vovó Ciça, claro!

– Mas e os óculos? – protestou o Pi. Sim, senhor, óculos nela.

– Não tá parecendo muito… Vou fazer de novo. Ah, não!

Em outro prato, armou olhos, nariz e boca. Mas usou as hastes dos óculos para fazer as sobrancelhas. Quase verticais.

– Essa você adivinha quem é.

– A vovó Ciça?

– Não. Outra pessoa. Uma mais brava, olha. – indicou as barras de banana, severas sobre os olhos.

– Não sei…

– Você tem que adivinhar uma pessoa brava, com as sobrancelhas assim.

– Acho que já sei…

– Então fala – desafiou-me com um sorriso corajoso.

– Eu…

– Acertou, ó! – apontou meu rosto.

– Eu sou muito brava, é?

– É, muitas vezes você é muito brava comigo. Precisa melhorar.

Ri, o que mais eu poderia fazer? Carinho em suas bochechas e um cheirinho atrás da orelha? Fiz também.

(Temos aqui o retrato da vovó Ciça. O da mamãe brava foi consumido antes da fotografia, porque os cabelos castanhos de chocolate granulado, esvoaçando sobre todo o rosto, estavam apetitosos demais. Ok, algo de doce eu devo ter, também…)

 

O vendedor de sonhos

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O vendedor de sonhos

Davi. Alex?nO Davi Alex é um menino adorável de 10 anos. O conheci na venda onde trabalha, uma lojinha simples, onde ele vende lápis coloridos. Não unicamente os coloridos, como ele mesmo ressalva, também os brancos e pretos.

Fui até lá porque precisava de lápis amarelos, e ele me apresentou uma cuidadosa variedade, que incluiu desde o bege até o rosa médio. Enfatizei que estava interessada mesmo nos amarelos e ele respondeu tranquilamente que sabia disso, e que aqueles dois ao lado eram rosa, mas estavam lá porque eram quase amarelos.

Muito satisfeita com meus bastões canário, ouro e limão, pedi quanto lhe devia e ele pensou, preenchendo o tempo com um rumor, com a boca torta e o indicador no queixo, me olhando de esgueio, até dizer: “zero”. “Puxa, são de graça?”, eu repliquei, eufórica. “Sim, porque hoje é o meu aniversário”. “Meus parabéns!”, soltei empolgada, ao mesmo tempo em que tomei sem perceber a liberdade de estalar-lhe um beijo na bochecha direita. Ele reagiu encabulado, porém não limpou a bochecha com as costas da mão, como algumas vezes já espero que faça meu filho mais velho.

Foi aí que me lembrei dele, e comentei com o aniversariante que meus filhos adoram festas de aniversário. Nessa hora, meu caçula, Pedro, chegou à venda, com cara de travesseiro e muito emocionado. Peguei-o no colo para me ajudar nas compras, mas ele não quis nada, apenas bolo de aniversário.

Então meu vendedor predileto disse que, se eu quisesse, poderia levar até minha casa o convite para a festa desta noite. Achei ótimo e, antes de me despedir, comentei que justamente as duas não cores que ele vende ali são as prediletas do meu outro filho, Davi. Ele sorriu largamente e disse que Davi também é seu nome. Encantada com as coincidências da vida, perguntei seu sobrenome.

Foi então que, pela primeira vez, ele, ainda com muita maturidade, demonstrou alguma dependência e pediu licença para ir até a cozinha descobrir. Esticou o pescoço e, apoiado no batente da porta, ainda com as perninhas para fora do ambiente, cochichou alguma coisa com seu silencioso pai. Retornou em seguida, dizendo: “Batício, meu nome é Davi Batício”.

Como os clientes caíssem na risada, ele retornou logo à cozinha, em tempo de dissolver o engano, e murmurou ao pai invisível que “isso deve estar errado, eles estão rindo muito”. E, de volta à venda, disse que seu real sobrenome é Alex, Davi Alex.

Recebi Davi Alex em casa, minutos mais tarde. Muito gentil, ele levou de presente para seu xará os lápis branco e preto. Eu queria muito que os dois se conhecessem, mas no único momento em que meu filho apareceu, meu convidado havia sumido. Tentei de todas as formas que os dois se encontrassem, mas ambos ficavam desconcertados demais quando isso estava prestes a acontecer e eu, rindo como uma adolescente, não conseguia promover evolução. Exceto por um instante, em que apertaram a mão um do outro, mas – talvez seja efeito do desconcerto – pareceu-me que Davi Alex deu duas esmagadas no nada enquanto cantarolava sorrindo.

Antes de se despedir, Davi Alex me contou que o bolo de sua festa seria de chocolate com muita cereja e, mais surpresa ainda, fiquei com as coincidências da vida, porque na atual temporada este é o sabor predileto do meu filho Davi.

Logo em seguida, ao cair da noite, levei meus dois filhos ao aniversário. O Pedro ficou ao meu redor, um tanto quanto desambientado, bem como nos sentimos quando… não somos os donos da brincadeira. O Davi sumiu assim que chegou o anfitrião, convidando para brincar de pula-pula na bola azul. Deve ter se entretido lá pra dentro, porque não mais o vi até a hora dos parabéns.  

Antes do bolo, porém, o Pedro foi bem servido com carne feita no forno a lenha e com janta. Claro, Davi Alex já está completando seu décimo aniversário, mas bem se lembra que é essa a sequência que as mães solicitam para os filhos pequenos. Só não foi muito feliz em chamar seu convidadinho de “o pequenininho”, enquanto falava comigo, pois isso despertou o senso de justiça do Pedro, que perdeu a compostura declarando que “pequenEninho, não!” ele é grande, e que até fez xixi no banheiro esta manhã.

Impasse facilmente resolvido, já que meninos de dez anos não criam caso com crianças de dois. Fomos à sala do bolo e, gentileza atrás de gentileza, Pedro pôde assoprar sua própria vela, ao lado do aniversariante da noite.

Só não sou capaz de identificar se esse menino fotografado deliciando-se com o bolo e cerejas é o Davi Alex ou se é meu filho… Talvez a câmera fotográfica tenha ficado confusa… ou tão comovida quanto eu pelas entusiasmadas palmas descompassadas que acompanharam os parabéns…

Exagérese

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Nenhuma vez me disseram o nome desse troço. Tá escrito “e-caligrafiaruím-ese”. Nas idas e vindas do agendamento, eu arrisquei todas as pronúncias que me pareceram possíveis, e só ouvia em resposta um “hum” – em todos os casos. Hoje na clínica resolveram chamar de “procedimento”. Procedimento é escovar os dentes. Estacionar o carro. Dobrar um lençol de elástico…

Clínica cirúrgica, procedimento cirúrgico, sala cirúrgica, maca cirúrgica, campo cirúrgico. E eu ali, deitadinha, durinha, sensivelzinha. Para a retirada de um cisto cebáceo.

A última vez em que aconteceu algo parecido foi na despedida do meu último terceiro molar. (O quarto, então, hehe). Uns vinte e um anos, eu devia ter. E chorei a tarde inteira tomando sorvete no sofá da sala. De pura dó de mim.

Já as primeiras vezes em que passei por algo assim… Inesquecíveis: Aos quatro anos pulava na cama obstinadamente e ouvia a ameaça “cabra maluca quebra os cornos”, como um mantra dando ritmo à molequice.  Caí de testa no baú de cabeceira. Lembro da pia do banheiro cheia de gelo e sangue, e de ter manchado a jaqueta (“capinha”) branca que minha avó tinha lavado na véspera – esse detalhe é o que faz mais efeito no Davi quando conto essa história para que ele pare de pular na cama, ou obedeça, ou saiba que eu, quando criança, também pulava na cama e desobedecia: a capinha branca recém lavada toda manchada de sangue. Dias depois, fui tirar os pontos engatinhando pela calçada, por dois quarteirões, de tanta birra que eu fiz e de tanta firmeza que minha mãe teve.

Aos cinco, operei do primeiro ssisstossebásseo, que eu denominava com o charme do ceceio anterior. Cenas de terror na sala de espera, depois de muito-muito esperar, quando a enfermeira resolveu (coitada, não foi ela que resolveu isso, eu sei) que minha hora tinha chegado. Bem aquela hora, em que minha mãe tinha ido rapidinho no carro amamentar meu irmãozinho. Eu lá no colo da minha avó, de onde não queria sair em hipótese alguma, muito menos para o colo de uma desconhecida vestida de branco, que me puxava com muita força. “Não deixa eles fazerem isso comigo, vó!” – eu gritava o mais forte possível. Ela, com suas unhas vermelhas e seu colo macio, provavelmente partida entre o dever e o querer, precisou me entregar. Logo um cheirinho fumacento de morango calou meus prantos. E depois da alta eu ganhei cachorro quente e brigadeiro.

Hoje, olhando para aquele tudo branco comecei e me sentir uma verdadeira vítima. A posição paradoxal de passividade em que a gente se encontra nesses casos é demais para mim: o corpo é meu, a coxa esquerda é minha, o cisto é meu e só o que eu posso fazer é respirar e relaxar. (Para quem gagueja isso é péssimo de se ouvir. E para quem se submete a uma e-sabe-lá-o-que-de-lesão-cística também.)

Esperei, por cinco picadas, a anestesia pegar. A partir daí, só tive que abstrair do remelexo que ocorria em minha perna para iniciar uma linda viagem pelos caminhos da imaginação. É claro que foi então que me lembrei dos detalhes acima descritos, e – especialmente na parte da capinha branca, da unha vermelha e do brigadeiro – eu solucei. O que fez a enfermeira perguntar se estava tudo bem, dizer para eu respirar e para eu relaxar. Paciência.

Conheci os pequenos furinhos interrompendo o branco eterno da parede azulejada, as bolhinhas da pintura branca do suporte da luminária. Ouvi barulhinhos que tentei, em vão, ignorar. Está cortando? Está queimando? O que ele está ligando? Cocei uma coceirinha no pescoço. Tocou meu celular. Duas vezes. Pedi desculpas – uma vez só, hehe.

Lembrei de uma vez em que o otorrino da minha paciente me disse por telefone com sua irônica voz que, sabe como é, era melhor eu não acompanhar a frenectomia dela não, porque eu podia desmaiar.  Naquela oportunidade eu tentei argumentar até onde a humilhação permitia, mas hoje eu diria, muito serenamente, “o senhor tem toda razão”.

Deitada naquela maca, vendo a hora passar, eu decidi que sim, eu era forte, eu era uma profissional da saúde muito bem formada, mas livre para optar por não espiar nada que estivesse acontecendo em frente ao Dr. Dermatologista. Foi quando um movimento ocular rebelde e insubordinado fez com que eu visse uns dedos de luva sujos de sangue. Pronto! Destruiu meu sonho. Justo quando um arco íris com fim em si mesmo emoldurava minhas lúdicas imagens de esferas perfeitas e branquíssimas saindo de dentro da minha pele e flutuando para a atmosfera, compondo com o tom salmão do meu vestido uma cena digna de Jelly Jam.  

Bem, depois de tudo terminado, doctor D. foi muito nobre em me estender sua pinça com aquela… verdadeira… bola de sebo pendurada na ponta. Mais nobre que o obstetra que negou-se a me mostrar a placenta do meu filho. Será que é porque o bebê ficou só nove meses dentro de mim, enquanto que o cisto ficou logo uns vinte anos? Hum…

Sei que, oscilando entre o lugar comum do alívio pelo fim da novela cirúrgica e o temor do que meu corpo possa vir a aprontar agora, eu muito me confortei ao rezar no começo e no final de tudo a invocação a Santo Inácio de Loyola: “Dentro de Vossas chagas escondei-me”. Certamente, é das chagas e dessa súplica ao bom Jesus que vou me lembrar sempre que olhar para essa cratera em minha perna e para a cicatriz que agora faz parte da minha história.

Visceral

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Saltitou por três dias antes de só se aguentar deitado de bruços. Numa pacata tarde resolveu render-se e, pulando miudinho, anunciou: “mamãe, preciso ir no no banheiro, rápido, rápido”. Depois de ajeitado, pediu privacidade. Bateu as perninhas até saírem voando bermuda e cueca. Começou a falar sozinho. A transpirar. A espremer os olhos, morder os lábios. A gemer. A gritar.

“Tá precisando de alguma coisa?”. “Não. Aiaiai. Dói muito. Fica comigo.”. Sentei no chão, despejei as trinta histórias de que tudo o que entra sai e de que tudo termina bem, se ainda não deu certo é porque não terminou. O suor fez uma gota na pontinha do nariz.

Bracinhos doendo por apoiar na bacia, barriga doendo, bumbum doendo. Dobrei seu tronco, berrou com medo de cair. Fiz massagem na barriga, piorou a dor. Sugeri outras inutilidades, foram mesmo inúteis.

Ele negava qualquer progresso que o aroma estivesse anunciando. Pedia ajuda mecânica, mas não possuíamos vacuoextrator.

Hiponasal, avisei que ia esperar lá fora. Com braços salgados e arrepiados, ele me segurou: precisava de mim. Fiz mais um pouco do mesmo.

Saí decidida e retornei com uma folha de jornal. “Mas eu nunca fiz isso”. “Tudo tem uma primeira vez.” “Você sempre fala isso. Jornal nãaao!”.

Carreguei-o rígido e entupido. Gritou mais, transpirou mais, olhava através de mim, dor de pavor. Joelhos estirados, negava-se a debutar sobre o anúncio de geladeiras das Casas Bahia. O penico do irmão, nem pensar. Não dispomos de moita, senhor…

Berrou muito mais. Devolvi-o ao trono. Tudo igual, menos o meu estado de espírito.

O desespero e o descontrole dele refluiram até mim pelo cordão umbilical que dizem que não existe mais. Gritei, também eu desesperada: “é só um cocôooo!!!”.

Última força. Pedra na água. Arqueado, ele voltou a respirar. “Muito bom… Quero tomar uma ducha. Quero ficar com você, mamãe.”

O sertão virou mar. O vinho, água. A hora do rush, manhã de domingo. O fogo, fumaça. A trave, cisco. O urubu, meu loro. Desenfezamo-nos.

Cookies de banana

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Tínhamos meia dúzia de bananas totalmente pintadas de preto. Então decidi que mais tarde faria uns cookies de banana com aveia, para aproveitá-las.

 Qual não foi minha surpresa quando cheguei da academia e descobri que quatro delas haviam sido milagrosamente consumidas pela manhã? Só porque as frutas da casa resumiam-se a dois limões, três fatias de abacaxi (sobraram as mais azedas) e quatro ameixas pretas – mas essas não contam, porque estavam na geladeira, sinônimo de invisibilidade.

Ok, a receita leva mesmo duas bananas. Mãos lavadas à obra! Davi, de novo, não quer lavar as mãos. Me garante que consegue sim mexer a massa mesmo com as mãos sujas. A contragosto, os dois tiveram suas mini mãozinhas lavadas – sem argumentações da minha parte e da parte do Pi.

Dessa vez decidi que não ia gritar durante nossa sessão culinária. Duas providências viabilizariam a intenção: (a)pedido expresso de auxílio a Nossa Senhora, (b) planejamento de atividades para manter os meninos entretidos e não gritando ou me pedindo coisas.

Mas eles são muito rápidos. E muito do contra. A brilhante idéia de dar as bananas para o Pi descascar originou choro sentido, porque não deixei  que ele as comesse. Então ele também não as descascou.

A brilhante idéia de dar batatas para o Davi lavar ocupou-o por tão poucos instantes que eu nem tive tempo de esquecer o que eram aquelas batatas molhadas – que nenhuma relação travavam com cookies de banana, a bem da verdade.

E assim foram as respostas às minhas propostas: ou faziam rápido demais (leia-se mal demais), ou recusavam-se a fazer. E sempre, sempre, a tarefa do irmão parecia muito mais legal. E a da mamãe, então, nem se fala.

[Mas ontem tive uma autopercepção de limite tão satisfatória – quando disse para o Davi: “cola você usa com as suas avós, com a mamãe não dá”- que resolvi mergulhar nessa aventura de perceber os meus limites e decidi que os ovos sou eu que quebro. Fim.]

Alguns momentos iluminados salvaram-se de pedidos, resmungos, poses desastrosas sobre banquinhos e cadeirão e roubo de objetos das mãos alheias:

– o momento em que os dois ficaram comendo Honey Nut’os (tá, tá, vai);

– o momento em que os dois ficaram comendo fatias de pepino japonês (!!!  Depois do sucrilhos!!!  E repetiram muito!!! E o Pi teve ‘aiai dói baída!’ mas nem me senti mal com isso!!!);

– o momento em que o Pi fez uma torre com as forminhas de silicone que eu pedi que ele distribuísse na assadeira;

– o momento em que o Davi “montou”, ups, “untou” a forma;

– o momento em que o Pi me ajudou a colocar os ingredientes medidos na tigela (obs: este momento deve ser considerado apenas a partir do ponto descrito, excluir os instantes anteriores, em que ele fazia bolhinhas de saliva por reação ao nojo que sentiu do fermento em pó);

– o momento em que o Davi ajudou a espalhar a farinha sobre a forma untada dando nela batidinhas fofas com o lado da mão (obs: este momento deve ser considerado apenas a partir do ponto descrito, excluir o instante anterior, em que ele espirrou sobre a forma untada, que teve que ser lavada e novamente untada);

– o momento em que os dois educada e pacientemente mexeram a massa dos biscoitos com um garfo, ao som de “eu! Eu! Eu! Eu! É meu! Té pomê!” e “mas afinal essa massa é mesmo muito dura hein, mamãe!”

Enfim, os cookies ficaram prontos e cheirosos.

Muitas outras coisas deram certo. O almoço foi simultaneamente confeccionado. E saiu. E eles comeram a comida e não os cookies.E já temos o lanche da tarde prontinho.

Bom saber: Nossa Senhora dá plantão ao final das manhãs de segunda-feira.

Escrito em setembro/2011.

Programinha

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Eis que chegamos à Pinacoteca Municipal, em plena manhã de quinta feira. O guarda soltou um “pois não, senhora?” mal humorado, pronto para explicar pela milésima vez na semana que a entrada do parque de diversões é pelo outro lado.

Ou então esta pode ter sido a minha impressão, na verdade o guarda estava apenas apavorado com os meus dois guarda costas uniformizados, trajando suas camisetas do Hot Wheels e seus joelhos esfolados.

Subimos as escadas no ritmo do funcionário, e não no nosso, mas a partir do “podem ficar à vontade”, realmente ficamos. Duas exposições nos esperavam ali. Li para os meninos seus títulos, “Todas as cores do mundo” e “Hammler brincante“, e dou um doce multicolorido para quem adivinhar para qual das salas eles quiseram correr primeiro.

Vimos árvores, pássaros e pessoas xilogravados. O Davi descobriu que obras têm títulos, e perguntava cada um deles, antes mesmo de olhar para os quadros. Passamos por uma instalação com cartões de aniversário e objetos juninos, o Pi encasquetou com um chapéu de palha e foi içado por mim até encaçapar a cabecinha nele, com ajuda do Davi. Entramos na outra sala e enquanto o Pedro nomeava “póba”s e “boi”s, eu comentava como as estampas das roupas pintadas eram lindas e o Davi, neto de artista, justificava: “é porque ele quis pintar assim, mamãe”.

Antes de nossa meia horinha diferente terminar, senti os meninos como peças em exposição, interrogados, cumprimentados e elogiados pelos funcionários do local. O guarda da recepção transformou a expressão do rosto, da voz e de todo seu ser ao nos despedirmos.

Passamos pelo jardim de esculturas, que os meninos juraram que fossem brinquedos, e o Davi teve coragem para escalar o gramado íngreme até uma obra específica, “umas pernas com uma bola de espinhos”, que foi sua preferida. Minha também, já que os tais espinhos são bicos de mamadeira, e está aí um bom uso para eles.

Claro que estávamos todos ambivalentes entre ficar mais um pouco ou voltar para casa. Mas, lembrando do almoço por fazer, lancei uma proposta irrecusável: iríamos logo embora, para nós mesmos pintarmos telas, assim como os inspiradores artistas nordestino-abecedenses.

Orgulhosa por proporcionar cultura local de boa qualidade aos meus pequenos, coloco-os nas cadeirinhas do carro instigando sua memória e sua imaginação. Não estava tão difícil assim montar essa excursão digna de pré-escola com atividades correlatas e tudo. Então escuto o Davi, ansioso, dizer quais cores usaria para pintar o Super Why, seu programa preferido, assim que chegássemos. Eu querendo arrumar um programão pra eles, e o Davi querendo ficar com seu programinha de sempre. Então tá.

Escrito hoje.

Bódibaiábadôi

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Hoje levantei incrédula: dormi a noite toda e acordei com a sensação de ter acabado de sair do chão da sala, em meio aos brinquedos, para onde voltaria dentro de instantes, recém acordada por uma vozinha bebezal rouca declamando: “Meu meia! Meu meia tirô! Ôta tá, ôta não tá!”.

Há uma semana reduzimos drasticamente a televisão aqui em casa. Os resultados são palpáveis: o Davi, viciado mor, está muito mais criativo, disposto, espontâneo, divertido. Só volta ao comportamento padrão de exigente, reclamão, desanimado e desmotivado depois de assistir a horinha de desenho que eu permito – aliás, da qual necessito para fazer o jantar.

Estamos nos divertindo muito juntos, nos conhecendo melhor, brigando muito e nos perdoando mais. Há períodos em que ficamos tão absorvidos na atividade que levo um susto ao olhar para o relógio. Há outros em que mudamos tão freneticamente de atividade que a casa parece um campo de batalha hipercolorido, cheio de peças de plástico, retalhos de papel, bonecos acumulados sob almofadas, panos de todos os tamanhos estendidos e embolados, figurinhas coladas nos lugares mais improváveis, migalhas de bolacha e pedaços abandonados de frutas pelos cantos.

Nas duas situações me pego escapando e vindo para o computador: meus e-mails são o contato mais estável com o mundo externo; o blog tem me instigado muito; tenho textos em pdf para ler para um curso toda semana.

Às vezes, os meninos deslancham apertando botões barulhentos ao meu redor, fuçando em livrinhos, rabiscando com canetinha papéis de rascunho e os próprios corpos. Geralmente, finjo que participo, ajudando a abrir uma caixa aqui, oferecendo um potinho de giz de cera ali, recortando bem em cima da linha acolá.

Mas, quase sempre, depois de alguns minutos, desligo o monitor e volto para o chão, onde começo instintivamente a realizar os pedidos deles, guardar e arrumar o que estiver ao meu alcance.

Eles têm que aprender a brincar sem mim e tenho esperança de que surja neles essa criatividade independente e ajuizada que o coletivo das mães só pode idolatrar. Mas é evidente que é muito difícil para esses serzinhos em miniatura abdicarem de uma presença tão acessível, tão facilitadora – e tão gostosa. Ao menos por enquanto.

Hoje fomos para a casa do vovô e tentava me concentrar numa leitura em meio aos barulhos lá autorizados e à agenda mental da rotina diária, quando o Pi se aproximou insistente. Eu já havia explicado várias vezes a ele nos últimos instantes que precisava ficar no computador um pouco. Mas ele garantia que meu colo era essencial naquele momento. E repetia, incansável: “Bódibaiábadôi! Bódibaiábadôi! Bódibaiábadôi!”.

Parei de impedir e de explicar, deixei que subisse, pezinhos descalços, boca suja de lanche da tarde. Sentou no meu colo, de costas para mim, pegou minhas mãos, levou ao teclado, juntou as suas mãozinhas sobre a mesa e ficou tamborilando os dedinhos em bloco, olhando para a tela. Quando ele aprender a falar “minha meia saiu”, provavelmente dirá com todas as letras: “po-de-tra-ba-lhar-no-com-pu-ta-dor. Só quero ficar um pouco aqui no seu colo enquanto isso, mamãezinha”. Então, seja bem vindo meu loirinho cheiroso…

Escrito hoje.

Três estratégias para as crianças esquecerem que não querem comer

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1)      “Finas Fatias”

Ingredientes: uma maçã e uma boa faquinha, uma bisavó, uma neta e dois bisnetos.

Modo de fazer: Ofereça a maçã às crianças após terem comido muito pão de queijo na casa da bisavó, no momento em que o caçula começa a chorar pedindo o pão de mel que comeu na semana passada e que hoje não tem. Eles recusarão a maçã. Lembre-se, então, que o caçula aceita muito melhor a maçã quando esta é cortada em lâminas. Alardeie: “então… teremos, tchan, tchan, tchan, tchan! Finas fatias!” Deixe que as crianças comecem a comemorar e, quando comer uma simples meia lua transparente de maçã começar a perder a graça, comece a esculpir corações “representando o meu amor por você”, formas geométricas,  letras do alfabeto.

Resultado: comem permanentemente até que a brincadeira acabe (em geral devido ao fim do estoque de maçãs ou à preguiça do escultor) e você ainda ganha um elogio admirado da sua avó, o que deixa tudo muito melhor.

2)      “Eu, eu, eu!”

Ingredientes: os pratos de comida, pai, mãe e dois filhos cansados.

Modo de fazer: Levem as crianças ao parque de diversões, depois saiam juntos para almoçar, passeiem no shopping e não priorizem as sonecas. Na hora do jantar, quando os dois estiverem gritentos e chorentos, decididos a recusar colheradas de qualquer composição, encarregue cada adulto de empunhar a colher de um dos filhos e declame com voz misteriosa: “a próxima colherada vai só para a criança queeeee… pulou no pula-pula do Mickey!” Varie os enunciados com provocações do tipo: “…sabe o que tem dentro do baú do tesouro!”, “…não teve medo do dinossauro grande!”, etc. Observe a expressão do seu marido iluminar-se a cada colherada aceita.

Resultado: eliminado o mau humor, o apetite é diretamente proporcional ao gasto de energia ao longo do dia e inversamente proporcional ao sono dos participantes.

3)      “Ouvindo vozes”

Ingredientes: danoninhos*, mãe e dois filhos.

Modo de fazer: Ingenuamente apresente às crianças, na hora do lanche, a bandeja de danoninhos inteira e deixe que escolham a cor desejada. Destaque os potinhos e, se necessário, abra-os. Guarde os demais e espere que comam comecem a resmungar, reclamar e chorar pedindo o(s) sabor(es) já guardado(s). Então, franza a testa teatralmente, olhe para a geladeira e diga que está ouvindo um sonzinho estranho vindo dali. Mantenha sua expressão neutra e tão imóvel quanto possível e, com voz agudizada, diga: “Oi! Olá-á! Eu sou o danoninho verde! Não vou sair daqui! Tô aqui na geladeira, fechado! Só saio outro dia!” e assim por diante. Atenção: é importante que o discurso seja cuidadosamente planejado, evitando os sons bilabiais, como: “Tô aqui preso”, “só saio amanhã”, o que prejudicaria o desempenho de ventríloquos amadores.  

Resultado: enquanto as crianças estiverem distraídas, ouvindo o personagem fantástico e dialogando com ele, será consumido o danoninho inicialmente escolhido. Em seguida, há grandes chances de ser também consumido o danoninho falante.

 *Faz-se necessário explicar porque alguém poderia precisar de alguma estratégia extraordinária para que as crianças comam danoninho: existem bandejinhas com sabores sortidos, e, obviamente, no instante seguinte à abertura dos potinhos escolhidos para aquela refeição, eles mudam de ideia quanto ao sabor. Alguns pais, especialmente os que estejam de dieta, podem desejar que seus filhos consumam o potinho já aberto.

Escrito em setembro de 2011.