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Franja felpuda

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Sentada em seu carrinho, esfregando os mini pés, ela lambia ora as mãos, ora o sinto de segurança. Olhava ao redor, mas à sua frente as costas de sérios adultos sentados no banco da igreja, e ao seu lado pernas sem graça de mais gente grande.
Vocalizou um pouco, boa ideia para espantar o tédio, e recebeu uma chupeta cor-de-rosa, que a todo instante caía e a mamãe recolocava. Aproveitou uma brecha para falar mais alto, “abaixo a monotonia!”.
Então a mamãe tomou a decisão de introduzir-lhe na boca uma chuquinha – ou qualquer nome que queira dar a uma pequena mamadeira com uns dedinhos de suco amarelo dentro.
Mas, para ela, a chuquinha veio do mesmo além do qual surgira a chupeta, e, antes, a fraldinha bordada. De costas para mamãe a papai estava ela.
Suquinho tomado, esfregou ainda mais os pezinhos e soltou sua doce voz suave. Não estava chorando. O carrinho começou a mover-se para frente e para trás, tentando embalá-la num ritmo impessoal. Insistiu nessa dança, o carrinho. Automático, seria? Com sensor de voz? Não, porque a vozinha já havia sido novamente silenciada pela chupeta misteriosa.
Até que, finalmente, a chupeta caiu, o carrinho parou e sua minivoz falou de novo. E lá do alto veio papai, tirá-la do superseguro cinto e aninhá-la pertinho do coração.
Uns trinta minutos de cuidadosos cuidados, sem face, sem voz, sem pele. Uma garotinha de franja felpuda e, no máximo, quatro ou cinco meses de idade. Muito amada.
Tem certas coisas que, se a gente não olha, a gente não vê.

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De todos os tipos

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Prometi limpá-lo 240 vezes, correspondendo ao número de vezes que me chamou do banheiro. Foi quase isso o necessário, mesmo…

– Meeeu Deus, cê ta com diarréia?!

– Porque quando a pessoa tem diarréia o cocô fica mole?

Comecei a rir, rendida pela pergunta com fim em si mesma.

– Cocô, cocô, cocô!

Adorando a cena e pensando que o motivo do meu riso fosse a palavra, ele começou a repetir, vozinha esganiçada.

– Não, filho, tô rindo da sua pergunta…

– Então não ri, responde!

– A mamãe não sabe, filho, diarréia já é cocô mole.

Mãos lavadas, voltamos para outro tipo de sujeira, a arte com hidrocores que entretia o caçula no escritório.

Arabescos de um, cruzes infinitas de outro. Borrões nos dedos, chão, porta de armário. Uma caneta vazando!

– Meeeu Deus!

– Que, mãe?! A caneta também ta com diarréia?!