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Fé e perfeição

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De tão perfeccionista que sou, diante de um desastre estétido-culinário percebi-me rezando Ave Marias engatilhadas: “…bendita sois vós entre as MELHORES…”

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Biscoitinhos da Semana Santa

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Nem bem curado das dores e da mamãezite que acompanham a gripe ele estava, aceitou o convite para fazer Biscoitinhos da Semana Santa. Deixou as mãos serem lavadas aflito, vendo o irmão, já asseado, obtendo as arriscadas raspas de um limão. “O outro é meu!” protestou, custando a entender que um mesmo limão renderia o trabalho dos dois ajudantes de cozinha.
Destino pouco criativo o desta tarde: o esperado aconteceu, e além da casca do limão, mamãe e filhinho ralaram, (des)coordenados, a pontinha de um dos menores dedos médios da casa. Para deleite dos mais cruéis, imediatamente besuntado no suco de limão. Gritou de lábios roxos. Sentei-o e agachei a sua frente, disponível.
Observei recentemente que, ao ceder o choro, ele cruza os bracinhos em frente ao tronco, mãos apertando os ombros, como quem se abraça. Acarinhei seus joelhinhos e, pensando nessa percepção, prossegui os afazeres, abrindo o armário logo acima de nossas cabeças. De onde caiu uma caixinha de milho verde. Que quicou com a quina na cabeleira loira da vítima do dia.
Choro cansado e lábios muito roxos. Rindo sem dever, poupei-o desta vez de usar seus próprios bracinhos e abracei-o pelo tempo que precisasse. Foi apaziguando. Continuamos abraçados, até que irrompeu um comentário ressentido:
“Ah, eu queria ser o Pi!”
“Porque? Cê queria ralar seu dedo no limão e levar uma caixa de milho na cabeça?”, bem humorada, provoquei o senso de realidade do mais velho.
“Não, mamãe, é que eu queria ficar assim com você”, disse ele, baixinho: em tom de voz, em ângulo das comissuras labiais, em alvo do olhar. Cheguei bem perto, abracei-o. Minhas mãos estavam mais frias que seu pescoço e sua cintura. Ele está tão grande, e ainda assim consigo dar duas voltas nele com meus braços…
“Eu sei que você quer carinho. Sabe, as mães se preocupam muito em cuidar dos filhos pequenos, que são mais atrapalhados, e cuidam menos dos filhos maiores, que já sabem fazer as coisas”. Dei um ou dois bons exemplos de sua independência . Silenciei. Deixei-me sentir o que ele sentia. “Comigo também aconteceu isso, filho, porque eu era a criança maior da minha casa, igual você. Eu sei do que você está falando. Mamãe tá aqui. Te amo.” Olhou-me comovido e, quando o irmão pulou da cadeira para bagunçar outras bandas da casa, começou a me ajudar com as medidas e misturas.

“Abraço de mãe é doce, bronca é muito azedo. Dedo machucado é azedo, mas conseguir tirar sozinho a camiseta é bem docinho. Ah! Comer biscoito gostoso é uma coisa doce.”

Biscoitinhos da Semana Santa:

• 3 xícaras (chá) de aveia em flocos finos
• 1 xícara (chá) de açúcar
• 1/2 xícara (chá) de margarina
• 1 ovo
• 1 colher (chá) de fermento em pó
• 2 colheres (sopa) de suco de limão
• 2 colheres (sopa) de raspas de limão
Misture tudo e ponha colheradinhas numa assadeira untada e enfarinhada. Leve ao forno médio por uns 20 minutos.

Sabemos que alguns de nossos dias podem ser amargos e que passamos por circunstâncias azedas como o limão.
Mas a alegria pelos dons que recebemos e a esperança de dias melhores têm o doce sabor do açúcar.
A aveia é um cereal completo e nutritivo, assim como a rica Semana Santa que vivemos, capaz de nutrir nossa fé na Vida.
Desejamos uma Santa Semana a você e sua família e… uma Feliz Páscoa!
Davi, Pedro e família. (mar/2013)

Retrato de alguém que precisa melhorar

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Uma das atividades mais legais que o Davi fez na escola foi a releitura da obra de arte de Giuseppe Arcimboldo, na a qual usaram frutas para fazer um retrato e depois comeram de sobremesa.

Numa tarde que se encaminhava para ser mais calórica do que saudável, eu resolvi fazer circulozinhos verdes de kiwi, barrinhas amarelas de banana e lasquinhas vermelhas de maçã. Ficaram motivados e envolvidos. De quem eram aqueles os olhos verdes? Da vovó Ciça, claro!

– Mas e os óculos? – protestou o Pi. Sim, senhor, óculos nela.

– Não tá parecendo muito… Vou fazer de novo. Ah, não!

Em outro prato, armou olhos, nariz e boca. Mas usou as hastes dos óculos para fazer as sobrancelhas. Quase verticais.

– Essa você adivinha quem é.

– A vovó Ciça?

– Não. Outra pessoa. Uma mais brava, olha. – indicou as barras de banana, severas sobre os olhos.

– Não sei…

– Você tem que adivinhar uma pessoa brava, com as sobrancelhas assim.

– Acho que já sei…

– Então fala – desafiou-me com um sorriso corajoso.

– Eu…

– Acertou, ó! – apontou meu rosto.

– Eu sou muito brava, é?

– É, muitas vezes você é muito brava comigo. Precisa melhorar.

Ri, o que mais eu poderia fazer? Carinho em suas bochechas e um cheirinho atrás da orelha? Fiz também.

(Temos aqui o retrato da vovó Ciça. O da mamãe brava foi consumido antes da fotografia, porque os cabelos castanhos de chocolate granulado, esvoaçando sobre todo o rosto, estavam apetitosos demais. Ok, algo de doce eu devo ter, também…)

 

Feito com amor

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Perguntei pra mulherada na academia como é que se reparte um bolo em dois, pra rechear. A história do fio de linha é linda, mas nem sempre tem final feliz.

Chegando em casa, tentei conduzir a fome de um culinarista mirim e duas receitas diferentes no mesmo forno – e o almoço ficou pra janta…

Mas, entre uvas desgranadas e purê de mandioquinha, tive a grande ideia de dividir a massa do bolo em duas formas iguais, obtendo, vinte e cinco minutos depois, duas finíssimas solas de sapato de relevo acidentado sabor chocolate. Brincadeira, pegaram só um pouquinho na assadeira e nem quebraram muito na hora de desenformar.

Muitas horas se passaram sem que eu pudesse dar prosseguimento à tarefa. Caiu a noite. Mas eu sabia que preparar as partes moles seria mais condizente com meu talento de formiga profissional. Recheio e cobertura renderam menos do que eu esperava, mas que doce lar não tem uma lata sobressalente de leite condensado?

Suspirando de orgulho misturei as cerejinhas picadas ao brigadeiro de cacau. “Tá bom que não reduzi o açúcar, mas acrescentei levedo de cerveja pra enriquecer a vitamina”. “Esse caldinho da cereja não tem nada de saudável, mas completei a medida do trigo com integral, vai”.

Montar o edifício hipercalórico foi realmente desafiador, porque os dois maluquinhos (que até então tentavam desvendar na sala ao lado as fronteiras da dor e do prazer em suas lutas corporais) resolveram brigar de espadas entre os ingredientes tentadores espalhados pela cozinha.

Dei um pote degustação para cada um e exigi que ficassem em seus lugares, enquanto eu terminava.

“Porque esse bolo tá assim?” perguntou a boquinha lambuzada de um rostinho lambuzado emoldurado por longos cabelos loiros lambuzados.

“Assim… torto? Porque é o primeiro bolo de aniversário de verdade que a mamãe faz”.

“Eu quero comer”.

“Você já está experimentando as partes do bolo desmontadas, esse montado é pro Davi levar na escola amanhã; ninguém vai comer hoje, só amanhã. Davi, se alguém perguntar quem fez esse bolo, o que você vai falar?”.

“Que foi você… Não é?”

“É sim, filho. E você vai falar que eu fiz com quê?”

“Com cereja!”

“Não, querido, com amor.”

“Mas ó a cereja aqui!”

Abandonei a conversa para ajeitar a obra na geladeira antes que terminasse de desmoronar. Ainda não tenho a menor ideia de como vou fazer para transportá-la para a escola amanhã sem nenhum desastre, mas ao menos esta noite minha geladeira poderia ser fotografada para encarte de supermercado.

E eu vou dormir me sentindo bem melhor que a Sarah Jessica Parker naquele filme* em que ela pegou piolho da filha! Até porque não tenho filha. E piolho nenhum teria coragem de emigrar da cabeleira do Pi, lotadinha de brigadeiro daquele jeito…

 

 

* “Não sei como ela consegue” (2011). (A mãe executiva promete à filha que fará com suas próprias mãos uma sobremesa para a festa da escola; atrasa-se numa viagem de negócios, chega tarde da noite e compra numa loja de conveniência uma torta pronta, um pirex e açúcar de confeiteiro; tenta forjar um doce caseiro, mas não engana a ninguém.)

Gusta

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Ela tinha olhos nas costas e muitos pares de tamancos.

Um verde profundo no olhar, cabelos lisos permanentemente disfarçados pela permanente.

Sobre suas calcinhas, digo que eram gigantescas – eu as amarrava nas laterais quando, por algum acidente, precisava pegar emprestadas – e que, na minha humilde opinião,  nunca funcionaram como buchinha no banho. Eu preferiria a espuma generosa de uma esponja, como estava acostumada, mas na casa da vó o banho era com sabonete esfregado no “paninho”.

Duas coisas me faziam ter ataques de riso: seu rosto espremido por uma gargalhada que a fizesse molhar os olhos e tirar os óculos; seus pés sem o esmalte vermelho. O segundo motivo eu não sei explicar, mas me fazia rir muito, muito. Suas unhas dos pés viviam vermelho ambulância, e vê-las ao natural era no mínimo constrangedor…

Tinha tudo planejado, organizado, preciso e bem feito – com antecedência. Não suportava que a esperassem: bem antes da missa das quatro começar já estava de batom e spray nos cabelos; na Marginal Tietê já segurava nas mãos a chave do portão de casa.

Calculava que precisaríamos de nada mais, nada menos do que trinta e dois pãezinhos – para ela os moreninhos! Não gostava que interferissem em suas panelas – afinal ela mesma não interferia no porão de ninguém…

Dirigia. Primeiro, um fusquinha bege. Depois, um gol bordô, como ela mesma escolheu. Aceitou me acompanhar nas primeiras voltas depois de tirada minha carta, e até hoje repito como um mantra seu sábio “deixe que buzinem”.

Não deixava o dito pelo não dito e ensinava minuciosamente como se lavava alface, como se estendia a toalha da mesa, como se fazia o sinal da santa cruz, como se “totchava” o pão no molho sem sujar as mangas e como se enxugavam as pocinhas no chão do quintal… (esta foi uma estratégia para entreter seis netos entediados num dia feio).

Participava da novena de Natal todos os anos – apesar dos netos que por vezes a acompanhavam tumultuando as reuniões e rindo dos cânticos tocados nas vitrolas das vizinhas.  Rezava o terço diariamente. Tinha padres muito amigos, músicas preferidas e sabemos nós que Nossa Senhora lhe deu a mão e cuidou do seu coração, da sua vida e do seu caminho até o fim.

Cozinhava bem, muito, rápido. E por mais que eu tenha muitas cenas emocionantes para me lembrar, é sentir agora, nesse ar de quinze anos depois, o cheiro de pizza das noites de sábado e o sabor da carne com laranja dos domingos especiais que me faz assumir os soluços e me render à saudade. Que nunca, nunca, vai acabar.

 

*15/06/1926

+15/10/2000

Chamei pra fazer sopa, mas ele fez uma salada.

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A: Pi, vem ajudar a mamãe a fazer sopa?

P: Tá.

A: Qual o nome disso?                                   (abobrinha)

P: É… Francisco.

A: KKKKK… Francisco, meu amor? É abobrinha!

P: Ah.

A: E isso, como chama?                                (mandioqiuinha)

P: É… cenoura.

A: Quase, lindão; é mandioquinha. Ó a cenoura aqui.

P: Ah.

A: E isso, como chama?                                  (chuchu)

P: Pêra!

A: Pêra? KKKKK… Parece uma pêra, né? Pronto, tá tudo na panela.

P: Você viu a camomila que o Davi plantou? Já brotou…

A: Ãhn?

A: Aqui, ó.

P: Ah!! Tá. Agora quero vê a Camila.

Cookies de banana

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Tínhamos meia dúzia de bananas totalmente pintadas de preto. Então decidi que mais tarde faria uns cookies de banana com aveia, para aproveitá-las.

 Qual não foi minha surpresa quando cheguei da academia e descobri que quatro delas haviam sido milagrosamente consumidas pela manhã? Só porque as frutas da casa resumiam-se a dois limões, três fatias de abacaxi (sobraram as mais azedas) e quatro ameixas pretas – mas essas não contam, porque estavam na geladeira, sinônimo de invisibilidade.

Ok, a receita leva mesmo duas bananas. Mãos lavadas à obra! Davi, de novo, não quer lavar as mãos. Me garante que consegue sim mexer a massa mesmo com as mãos sujas. A contragosto, os dois tiveram suas mini mãozinhas lavadas – sem argumentações da minha parte e da parte do Pi.

Dessa vez decidi que não ia gritar durante nossa sessão culinária. Duas providências viabilizariam a intenção: (a)pedido expresso de auxílio a Nossa Senhora, (b) planejamento de atividades para manter os meninos entretidos e não gritando ou me pedindo coisas.

Mas eles são muito rápidos. E muito do contra. A brilhante idéia de dar as bananas para o Pi descascar originou choro sentido, porque não deixei  que ele as comesse. Então ele também não as descascou.

A brilhante idéia de dar batatas para o Davi lavar ocupou-o por tão poucos instantes que eu nem tive tempo de esquecer o que eram aquelas batatas molhadas – que nenhuma relação travavam com cookies de banana, a bem da verdade.

E assim foram as respostas às minhas propostas: ou faziam rápido demais (leia-se mal demais), ou recusavam-se a fazer. E sempre, sempre, a tarefa do irmão parecia muito mais legal. E a da mamãe, então, nem se fala.

[Mas ontem tive uma autopercepção de limite tão satisfatória – quando disse para o Davi: “cola você usa com as suas avós, com a mamãe não dá”- que resolvi mergulhar nessa aventura de perceber os meus limites e decidi que os ovos sou eu que quebro. Fim.]

Alguns momentos iluminados salvaram-se de pedidos, resmungos, poses desastrosas sobre banquinhos e cadeirão e roubo de objetos das mãos alheias:

– o momento em que os dois ficaram comendo Honey Nut’os (tá, tá, vai);

– o momento em que os dois ficaram comendo fatias de pepino japonês (!!!  Depois do sucrilhos!!!  E repetiram muito!!! E o Pi teve ‘aiai dói baída!’ mas nem me senti mal com isso!!!);

– o momento em que o Pi fez uma torre com as forminhas de silicone que eu pedi que ele distribuísse na assadeira;

– o momento em que o Davi “montou”, ups, “untou” a forma;

– o momento em que o Pi me ajudou a colocar os ingredientes medidos na tigela (obs: este momento deve ser considerado apenas a partir do ponto descrito, excluir os instantes anteriores, em que ele fazia bolhinhas de saliva por reação ao nojo que sentiu do fermento em pó);

– o momento em que o Davi ajudou a espalhar a farinha sobre a forma untada dando nela batidinhas fofas com o lado da mão (obs: este momento deve ser considerado apenas a partir do ponto descrito, excluir o instante anterior, em que ele espirrou sobre a forma untada, que teve que ser lavada e novamente untada);

– o momento em que os dois educada e pacientemente mexeram a massa dos biscoitos com um garfo, ao som de “eu! Eu! Eu! Eu! É meu! Té pomê!” e “mas afinal essa massa é mesmo muito dura hein, mamãe!”

Enfim, os cookies ficaram prontos e cheirosos.

Muitas outras coisas deram certo. O almoço foi simultaneamente confeccionado. E saiu. E eles comeram a comida e não os cookies.E já temos o lanche da tarde prontinho.

Bom saber: Nossa Senhora dá plantão ao final das manhãs de segunda-feira.

Escrito em setembro/2011.