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Chapéu de cowboy

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Esta tarde, meu filho abraçou-me com uma força incomum. Escondeu o rostinho sofrido em meu ombro e tentava bravamente não chorar enquanto os alegres amiguinhos da escola, todos de camisa xadrez, como ele, aproximavam-se para dizer “oi, Davi Belini!”.

Aceitava meus beijos e respondia “não” a todas as minhas perguntas, mesmo quando eu indagava alguma questão tentadora demais sobre alguma daquelas criancinhas, todas de jeans, como ele. Muitas delas sorrindo para fotos, algumas outras escorregando exibidamente no chão com suas botinhas country. Quase todas de sorriso no rosto e chapéu de cowboy na cabeça.

Há alguns meses fomos ao circo, eu, ele e o irmão. Foi uma noite inesquecível. Enquanto cheirava a doce cabeleira loira do Pedro, sentando em meu colo, eu podia segurar a mãozinha direita do Davi ou abraçar seu ombrinho magro. Rimos juntos de piadas bobas, gritamos juntos por sustos ruins e também por sustos bons, que nos fizeram rir em seguida. Arregalamos nossos olhos no escuro exagerado, habituamo-nos a falar ao pé do ouvido, única forma de nos escutarmos com todo aquele barulhão. Compartilhamos daquela atividade cultural, e, assim, pusemos mais um tijolinho na parede de companheirismo da nossa relação. Naquela noite ele precisou ter quatro anos, nada mais. Estava no circo: roubando pipocas do senhor ao lado, na maior cara de pau, sentindo o coraçãozinho acelerado diante do globo da morte, sorrindo para mim ao perceber o erro do malabarista, rindo às gargalhadas diante do palhaço que se fazia de bobo. Precisou ter quatro anos, nada menos, tendo que suportar minhas negativas a todo comércio de bugigangas, tendo que andar rápido de mãos dadas até o estacionamento na noite escura, tendo que manter-se apenas ao meu lado na arquibancada, pois a vaga sobre mim já estava ocupada por alguém com a metade de sua idade.

Naquela noite especial o vi bater palmas envolvido no ritmo da música, cotovelinhos indo juntos para frente e para trás.  O vi levantar as mãos quando sua resposta à pergunta do apresentador era positiva. O vi imitar os palhaços, com seu corpinho que até então eu chamaria de envergonhado mor. Cheguei a ouvi-lo cantar em coro o refrão da música nova. E, muito admirada, o vi dançar de corpo e alma no corredor central do circo: foi então que reconheci que aí, dentro desta criancinha tão amada, existe a coragem de um leãozinho, que para dar seus primeiros passos requer o olhar protetor, confiante e cheio de serenidade da mamãe. Sim, sim. Para conseguir fazer isso a mamãe tem que ser mesmo uma leoa.

Num final de tarde, semana passada, sentada no chão de seu quarto, eu segurava no ar a cintura esticada de sua calça de pijama, enquanto ele, cabelo molhado ainda despenteado, peninhas de fora, cantarolou dançandinho alguma coisa sobre “alô galera, bate a mão e bate o pé”*. Engoli e histeria e perguntei absorta como é que ele conseguia bater só a pontinha do pé no chão. Mostrou-me, numa boa. Então comentei, despretensiosamente, que isso parecia uma dança de festa junina que eu fiz uma vez quando era pequena. E ele continuou me dando as dicas, que depois eu devia ter ido bem pro lado direito até bater palma, e depois bem pro lado esquerdo. “Ah, é. Assim, né, filho?”. Não, era beeem mais pro lado, “assim”, ele me mostrou. E assisti. Fiquei assistindo com exclusividade um trecho da primeira dança junina do meu pimpolho. De camarote.

Nem naquele dia, nem hoje, ele usou o chapéu branco de cowboy que fomos juntos comprar. Com o aproximar-se da data da festa, o chapéu foi se tornando o símbolo do desafio, e foi se apagando a fulminante chama da paixão, outrora acesa dentro de uma lojinha abarrotada da Marechal. Hoje, na hora de pôr o chapéu – “jogue a paixão pra fora”*! -, ele reconheceu que não havia a menor possibilidade de dançar e nem de manter-se tranquilo com a inevitável pressão a este respeito.

Esta tarde, a dúzia de crianças alegres que divide há seis meses suas manhãs com meu pequerrucho dançou, “todo mundo envolvido na folia”*, de jeans, camisa xadrez, chapéu de cowboy e sorriso no rosto. O jeans, o xadrez e até um cinto com fivela de cavalo o Davi também vestia. O chapéu, já sabemos que não. Falta falar sobre o sorriso no rosto: apareceu, limpo e do tamanho certo, quando, do lado de cá do palco, ouviu a música acabar, percebeu ter tido respeitado seu limite e, ao final dos aplausos, recebeu um beijo verdadeiramente orgulhoso pela bela dança que ele ensaiou junto com os amigos durante as últimas semanas.

* “Bate o pé” – Rionegro e Solimões

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Atchim, tchim!

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Algumas coisas deram certo demais da conta hoje.

Dancei Zouk na academia. Quem? Eu. A mesma pessoa que por anos foi magnetizada pelas cadeiras mais escondidas nos bailinhos. A mesma pessoa que só consegue permanecer em uma pista de dança em festa de casamento se estiver com uma ou mais crianças no colo.

(Então aproveito a oportunidade para contar que ontem, na mesma academia, eu joguei um basquetebol daqueles. Quem? Eu! A mesma pessoa que passava horas desmarcada dentro do garrafão na quadra da escola, pulando com os braços para o alto e declamando os nomes das colegas que passavam a bola entre si enquanto me ignoravam.)

Achei uma larga vaga para estacionar o carro exatamente em frente ao consultório de nossa médica, pela primeira vez em três anos. E na sombra.

Acertei o caminho das Perdizes para a Vila Pires, apesar das obras, das placas tortas, do calor, do falatório, choratório, gritatório, reclamatório e – especialmente – do perguntatório no banco de trás.

Agarrada a um fino fio de esperança de ter em casa o remédio que o Davi precisa tomar amanhã ao despertar, sentei diante da transbordante caixinha das letras B, I, K, L e M. Um riso bufado escapou quando li logo o rótulo do terceiro frasquinho que peguei nas mãos: medicamento certo, potência certa, forma certa, dentro da validade.  

“Atchim, tchim”. Isto quer dizer “assim, sim”, “muito bem”, “certo”, “bingo”, “aê, hein!”.