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Desmame

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Ontem no banho minha garganta foi invadida novamente por certo nó que há mais de quatro anos eu engoli uma vez.

No final da minha primeira gestação resolvi verificar se havia algum colostro. Mesmo sabendo que aquilo não queria dizer nada, não devia nem ao menos ser feito, não achei colostro algum e lá estava uma garganta amarrada, num pescoço auto-exigente e ansioso, num corpo determinado a bem amamentar.

Depois disso muitas águas rolaram (a amniótica, a que o marido trazia para aplacar a sede avassaladora do amamentar, a de banhos roubados e a de banhos merecidos, ao final de dias mais longos do que eu supunha aguentar).  

Outros muitos nós vieram. Um desatou em mastite, logo aos doze dias de maternidade. Tantos e tantos nós desataram em prantos. Um ano e quatro meses depois, quando meu bebê virou menino e começou a andar, ainda não queria desmamá-lo. Sentia-me trapaceando, burlando a orientação de que a aquisição da marcha é um momento muito propício para o desmame. Mas prossegui. Amamentei-o por um ano e sete meses, quando me descobri grávida do segundo filho e – tonta e enjoada – precisei me render à evidência de que gestar e amamentar simultaneamente era mais do que o meu corpo podia.

Numa bela noite – bela mesmo! – deitei ao lado do Davi em seu colchão, à meia luz, e comecei a cantar para fazê-lo dormir. Sem amamentar. Aos primeiros acordes de “boi, boi, boi” ouvi sua voz doce pontuando para os botões do seu pijaminha: “bô!”. (Devia ser algo como um resumo para: “Botõezinhos do meu pijama, preciso dar uma notícia a vocês: acabou o leite da mamãe. Agora o Davi dorme à noite sem mamar, do mesmo jeito que dorme à tarde. Boa noite pra vocês”). Suprimi um nó para a garganta continuar cantando, e ele dormiu como um anjo, até o amanhecer. Um anjinho desmamado que, naquela madrugada, decidiu parar de acordar.  Por muitos meses agradeci por, na noite anterior, não ter sabido que o amamentava pela última vez. Seria muita emoção. 

Na segunda gestação não verifiquei colostro algum. O Pedro nasceu na cama em que foi concebido, veio imediatamente para o meu colo e mamou por cinquenta minutos. Sua amamentação não foi livre de nós. Aliás, nunca estive tão embaraçada e emaranhada em toda minha vida como naquela fase em que meus dois filhos eram bebês. Mas amamentar pela segunda vez foi ainda melhor, tão bom que eu decidi que não teria pressa para o desmame, andasse ou não meu homenzinho. O Pedro começou a andar com treze meses, mamou por vinte e dois, e parou há um. 

Desmamá-lo foi uma decisão muito ambivalente. Há algum tempo ele vinha mamando apenas a cada dois ou três dias. Certa noite viu o irmão deitar em sua cama aconchegante e pulou no berço, enroscando-se confortável. Esqueceu-se de mamar. Cantei para eles, esperei adormecerem, e quando saí do quarto deixei minha alma chorar de orgulho, alegria e saudade.

Mamou algumas vezes depois disso, até que num anoitecer comentei, sem saber ao certo onde queria chegar: “sabe filhinho, o peito da mamãe não tá fazendo mais muito leite, porque você já tem dente, já sabe comer muitas coisas gostosas, está crescendo, igual o Davi.” Mais uma vez encorajado pelo exemplo do irmão, ele pegou no sono e nunca mais mamou. Agradeço novamente por não ter sabido qual foi a última mamada dele e por não precisar me despedir.

As semanas passaram e no banho de ontem, quando, sem pensar, fiz uma expressão, o leite não jorrou – pela primeira vez em quatro anos. Fui tomada por um misto de incredulidade e decepção. Engoli com força o nó então surgido e senti um gosto terno e maduro, real e satisfeito.

Esta manhã, por acaso, o Davi me pediu que desse de mamar para o Pedro, “porque ele parece um porquinho mamando e eu quero ver”. E eu pude sorrir serena e responder que ele não mama mais. Mas que veríamos juntos umas fotos dos meus dois porquinhos mamando.

Demorei uns minutos para ir atrás das fotos. Com a sensação de missão cumprida, fiquei ali sentada, na cadeira de balanço que tanto me embalou no colo dos meus bebês. Em silêncio e alegria.

“Fiz calar e sossegar a minha alma.

Ela está em grande paz dentro de mim

Qual criança bem tranqüila, amamentada

No regaço acolhedor de sua mãe.” (Salmo 130)

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Desmam(ã)e

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O menino tinha muito medo de palhaço. A mãe queria desmamá-lo. Quando ele pediu para mamar, ouviu da mãe: “Ih, filho, o palhaço mamou aí”. Chorou assustado e nunca mais pediu.

A pequena de um ano e quatro meses que “não saía do peito” foi deixada por quinze dias na casa da avó no interior, o “único jeito” de parar de mamar.

A bebê levantou a blusa da mãe querendo mamar e encontrou um band-aid. A mãe disse que não podia mais mamar, porque o peito estava machucado.

O medo para aplacar o conforto certo.

O vácuo para apagar o vínculo.

A dor para encerrar a delícia. 

Não tem que ser assim.

Primeiro mame e depois desmame. Com final feliz.