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Doses homeopáticas

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Sei que com esse post corro o risco de ter meu blog fechado pela vigilância sanitária, mas vamos ao assunto.
Temos uma coleção familiar de medicamentos homeopáticos. Uma farmacinha itinerante, acionada quando alguém cai de cama no fim do dia (sem ser pelo sono que atinge os Gerbelli e as galinhas logo ao cair da noite); quando alguém nem sai da cama ao raiar do sol; quando alguém se acidenta (netos e avôs são bons nisso); quando a farmácia de manipulação está fechada e depois de muitas tentativas conseguimos contato com o médico.
Em gavetas reservadas, ou num cantinho do armário de copos, ou em caixas de sapato infantis etiquetadas por inicial, ou em nécessaires fofas cheias de penduricalhos charmosos. Cada um da família tem seu estilo. Uma sabe de cabeça se tem ou não o remédio naquela potência, porque são quatro bocas em casa para medicar. Outro não sabe de cabeça, mas consulta em instantes sua planilha de Excel super atualizada, e descobre até em que endereço está aquele determinado vidrinho.
Seria muito curioso investigar no repertório homeopático os sintomas da minha tia na data de manipulação daqueles glóbulos que tanto me ajudaram mês passado. Tenho um primo que corre para a internet ao chegar em casa da consulta médica, e confere tintim por tintim a indicação do remédio de fundo cuja receita acaba de receber em mãos. E rola de rir pensando: “não sabia que estava tão grave”.
Uma vez, contorcida de cólica menstrual, bati os olhos no rótulo do vidrinho que tanto me ajudava e li nele o nome do meu avô. Tudo bem, existe uma explicação plausível, já que o remédio cobre muito bem sintomas repentinos, mas meu senso de humor não se conformava em imaginar o Pedrão naqueles dias…
Os rótulos contêm uma série de informações personalizadas. E podem-se imaginar as circunstâncias em que os pedidos são feitos percebendo os errinhos que aparecem ali: A “Dra. Silvia” não existe, Dr. Sylvio é homem. Não temos “Riberto” na família. E não conhecemos médico algum chamado “Silvio Roberto”…
De vez em nunca arrumo minha remedioteca. Confesso que fico com os olhinhos paralizados nos rótulos dos remedinhos do Pi, porque assim, em letras impressas, ler “Pedro Gerbelli” dá muita saudade…
Hoje, fazendo uma faxina, encontrei remédios muito vencidos. E percebi que a parte deles eu tenho um apego afetivo. Os frasquinhos encomendados nos últimos dias de gestação e utilizados nos primeiros dias de puerpério… Aqueles com anotações a caneta no rótulo, para não nos confundirmos quando os doentes eram múltiplos… Claro que a doença não dá saudade. Mas é legal demais perceber – com o apoio de objetos paupáveis – que a saúde voltou. E que conseguimos passar pelas muitas crises da história. Em doses homeopáticas, claro.

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Eis-me aqui

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Chegou à Igreja, missa começada. Cederam-lhe logo um lugar. Vestia boas roupas. Barba e cabelos finos salpicando a careca. Tossia muito nas mãos magras de unhas bem aparadas. Rezou sentado, completamente curvado no banco. Elegeu poucos momentos para ficar em pé. Um deles, no ofertório, foi para retirar do bolso a carteira, e dela uma nota de cinquenta. Escândalo dos meus olhos e admiração da minha alma. A precariedade do corpo deve ter esclarecido a ele em que empenhar as economias.

Não sei seu nome, impossível estimar sua idade. Durante uma crise de tosse, toquei-lhe as costas e ofereci-me para buscar um copo d’água. Com o rosto amarelo e o sorriso maior do que nunca – sendo os dentes os únicos não emagrecidos – agradeceu, justificando com frases sobre o pulmão e o tratamento. Amanhã é dia de quimio.

Passou a missa segurando a bengala, o boné e uma agenda de 2012. Pensei que os três símbolos o resumem: a bengala apóia o fio de vida; o boné nas mãos indica a devoção; a agenda de ontem declara que tem consigo seu passado. O futuro, a Deus pertence.

Exagérese

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Nenhuma vez me disseram o nome desse troço. Tá escrito “e-caligrafiaruím-ese”. Nas idas e vindas do agendamento, eu arrisquei todas as pronúncias que me pareceram possíveis, e só ouvia em resposta um “hum” – em todos os casos. Hoje na clínica resolveram chamar de “procedimento”. Procedimento é escovar os dentes. Estacionar o carro. Dobrar um lençol de elástico…

Clínica cirúrgica, procedimento cirúrgico, sala cirúrgica, maca cirúrgica, campo cirúrgico. E eu ali, deitadinha, durinha, sensivelzinha. Para a retirada de um cisto cebáceo.

A última vez em que aconteceu algo parecido foi na despedida do meu último terceiro molar. (O quarto, então, hehe). Uns vinte e um anos, eu devia ter. E chorei a tarde inteira tomando sorvete no sofá da sala. De pura dó de mim.

Já as primeiras vezes em que passei por algo assim… Inesquecíveis: Aos quatro anos pulava na cama obstinadamente e ouvia a ameaça “cabra maluca quebra os cornos”, como um mantra dando ritmo à molequice.  Caí de testa no baú de cabeceira. Lembro da pia do banheiro cheia de gelo e sangue, e de ter manchado a jaqueta (“capinha”) branca que minha avó tinha lavado na véspera – esse detalhe é o que faz mais efeito no Davi quando conto essa história para que ele pare de pular na cama, ou obedeça, ou saiba que eu, quando criança, também pulava na cama e desobedecia: a capinha branca recém lavada toda manchada de sangue. Dias depois, fui tirar os pontos engatinhando pela calçada, por dois quarteirões, de tanta birra que eu fiz e de tanta firmeza que minha mãe teve.

Aos cinco, operei do primeiro ssisstossebásseo, que eu denominava com o charme do ceceio anterior. Cenas de terror na sala de espera, depois de muito-muito esperar, quando a enfermeira resolveu (coitada, não foi ela que resolveu isso, eu sei) que minha hora tinha chegado. Bem aquela hora, em que minha mãe tinha ido rapidinho no carro amamentar meu irmãozinho. Eu lá no colo da minha avó, de onde não queria sair em hipótese alguma, muito menos para o colo de uma desconhecida vestida de branco, que me puxava com muita força. “Não deixa eles fazerem isso comigo, vó!” – eu gritava o mais forte possível. Ela, com suas unhas vermelhas e seu colo macio, provavelmente partida entre o dever e o querer, precisou me entregar. Logo um cheirinho fumacento de morango calou meus prantos. E depois da alta eu ganhei cachorro quente e brigadeiro.

Hoje, olhando para aquele tudo branco comecei e me sentir uma verdadeira vítima. A posição paradoxal de passividade em que a gente se encontra nesses casos é demais para mim: o corpo é meu, a coxa esquerda é minha, o cisto é meu e só o que eu posso fazer é respirar e relaxar. (Para quem gagueja isso é péssimo de se ouvir. E para quem se submete a uma e-sabe-lá-o-que-de-lesão-cística também.)

Esperei, por cinco picadas, a anestesia pegar. A partir daí, só tive que abstrair do remelexo que ocorria em minha perna para iniciar uma linda viagem pelos caminhos da imaginação. É claro que foi então que me lembrei dos detalhes acima descritos, e – especialmente na parte da capinha branca, da unha vermelha e do brigadeiro – eu solucei. O que fez a enfermeira perguntar se estava tudo bem, dizer para eu respirar e para eu relaxar. Paciência.

Conheci os pequenos furinhos interrompendo o branco eterno da parede azulejada, as bolhinhas da pintura branca do suporte da luminária. Ouvi barulhinhos que tentei, em vão, ignorar. Está cortando? Está queimando? O que ele está ligando? Cocei uma coceirinha no pescoço. Tocou meu celular. Duas vezes. Pedi desculpas – uma vez só, hehe.

Lembrei de uma vez em que o otorrino da minha paciente me disse por telefone com sua irônica voz que, sabe como é, era melhor eu não acompanhar a frenectomia dela não, porque eu podia desmaiar.  Naquela oportunidade eu tentei argumentar até onde a humilhação permitia, mas hoje eu diria, muito serenamente, “o senhor tem toda razão”.

Deitada naquela maca, vendo a hora passar, eu decidi que sim, eu era forte, eu era uma profissional da saúde muito bem formada, mas livre para optar por não espiar nada que estivesse acontecendo em frente ao Dr. Dermatologista. Foi quando um movimento ocular rebelde e insubordinado fez com que eu visse uns dedos de luva sujos de sangue. Pronto! Destruiu meu sonho. Justo quando um arco íris com fim em si mesmo emoldurava minhas lúdicas imagens de esferas perfeitas e branquíssimas saindo de dentro da minha pele e flutuando para a atmosfera, compondo com o tom salmão do meu vestido uma cena digna de Jelly Jam.  

Bem, depois de tudo terminado, doctor D. foi muito nobre em me estender sua pinça com aquela… verdadeira… bola de sebo pendurada na ponta. Mais nobre que o obstetra que negou-se a me mostrar a placenta do meu filho. Será que é porque o bebê ficou só nove meses dentro de mim, enquanto que o cisto ficou logo uns vinte anos? Hum…

Sei que, oscilando entre o lugar comum do alívio pelo fim da novela cirúrgica e o temor do que meu corpo possa vir a aprontar agora, eu muito me confortei ao rezar no começo e no final de tudo a invocação a Santo Inácio de Loyola: “Dentro de Vossas chagas escondei-me”. Certamente, é das chagas e dessa súplica ao bom Jesus que vou me lembrar sempre que olhar para essa cratera em minha perna e para a cicatriz que agora faz parte da minha história.

Põe a mão na cabeça que vai começar…

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Muitíssimo agradecida a Deus eu conto que meus meninos estão recuperando sua saúde de ouro. Ainda estão olheirentos, catarrentos, tossilentos, magrelinhos e chorões demais, mas hoje tiveram um dia muito mais próximo do normal. Foi tão bom ver o Davi pulando pelado na cama antes do banho! Fiquei tão feliz naquela hora que a pressa de vesti-los novamente deu uma trégua e, ditando a coreografia, cantei com eles músicas de qualidade duvidosa. Vi que o Pi não estava muito participativo, acho que era preguiça. Deixei-o lá, embaraçando meus terços e forjando nós nos meus cordões de Santa Filomena, a fralda verdinha quebrando o branco inteiriço da cabeça aos pés. Quando já colocava o Davi na banheira quentinha escutei vinda do quarto a doce voz com seu sotaque inconfundível: “uebolêtsantsan, uebolêtsan…”.

Troca com troco

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Troquei o pijama babado por uma echarpe combinando com o esmalte

Troquei a penumbra de janelas fechadas pelo azul balouçante dos agapantos

Troquei o calor do rostinho febril no meu ombro pelo calor do sol brilhante nas costas

Troquei o cheirinho de catarro pelo perfume avassalador do frango assado da padaria

Troquei o som de resmungos e chiados por belos hinos de louvor

Troquei o gosto amargo dos filhos gementes pelo sabor do vinho consagrado

Troquei minhas mil faltas empoeiradas pelo perdão do Cristo Rei

Depois voltei e peguei tudo de volta: mais bonito, mais claro, mais suave, mais leve, mais vivo e ainda mais Real.

 

Doencinha personalizada

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co.que.lu.che:

s. f. 1. Med.: Moléstia infecciosa aguda caracterizada por acessos de tosse convulsiva.

       2. Fam.: Pessoa que é objeto de preferência passageira do público.

 

(Peço desculpas pelo plágio aos senhores Aurélio Burque de Holanda – que escreveu o dicionário – e Roberto Gerbelli – que por sua vez plageou o dicionário num e-mail que acabei de receber -, mas depois de uma semana inteira entre tosses, colos, termômetros e cuida-de-mins em dose dupla, isso é tudo o que consigo publicar.)