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Consciência limpa

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“Nota paulista?”

“Bom dia, filha, tudo bem com você?”

“Tudo…” Respondeu baixinho a operadora de caixa ao senhor que começava a atender.

Procurando a chave do carro na bolsa e empurrando o carrinho de compras, eu pensava na simpatia dos senhores e senhoras que cruzam meu caminho. A que, sem nem me conhecer, me revelou que adora goiaba, mas achou essas pequenas demais; o que esperou com calma e sorriso meus filhos de mãos dadas superarem as calçadas acidentadas; o que acompanha nos encontros de elevador as buscas pelo boneco perdido do Pedro.

Chegando ao carro, percebi ter esquecido de pagar o detergente. Deixei as sacolas e voltei para dentro do mercado. “Moça, ficou no carrinho e esqueci de passar”. “Ah, tá, já passo pra você.” A naturalidade dela me confortou.

Faltava tomar coragem de olhar para o senhor do bom-dia-filha, cujo atendimento interrompi sem introdução. “Tá vendo como tem gente-“ (suspense mental: o que eu sou? O que eu sou, na concepção do senhor educado?) “-honesta?”. (Ufa.)

“É… Que mundo a gente quer?” Disse eu diante da aprovação.

“Então… Cê não vai se sujar por uma coisa dessa…”

“Não… Ainda mais por uma coisa que é pra limpar, né?”

Rimos nós três e, guardando minhas moedinhas, respondi de cabeça baixa às despedidas dos dois. Para esconder o rosto comovido.

Cena pitoresca de um mundo melhor.

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Mais um ano na lista dos bem vividos

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“Qual seria a sua idade se você não soubesse quantos anos você tem?” (Confúcio)

 

Cê tenta estimar: 30 anos, com tanta energia, sentada no chão

Cê tenta acertar: uns 50? Prata no cabelo, ouro no coração…

 

Cê tenta encontrar uma irmã, uma esposa, uma filha, de dedicação

Cê tenta entender essa mãe, essa tia, essa avó é um camaleão

 

Cê tenta cuidar-nos pra sempre, levando no colo, qual os cangurus

Cê tenta bordar ponto cruz, tecer uma vida louvando a Jesus!

 

“Cada um tem a idade do seu coração, da sua experiência, da sua fé.” (George Sand)

 

Salve 11/out/1942

Gusta

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Ela tinha olhos nas costas e muitos pares de tamancos.

Um verde profundo no olhar, cabelos lisos permanentemente disfarçados pela permanente.

Sobre suas calcinhas, digo que eram gigantescas – eu as amarrava nas laterais quando, por algum acidente, precisava pegar emprestadas – e que, na minha humilde opinião,  nunca funcionaram como buchinha no banho. Eu preferiria a espuma generosa de uma esponja, como estava acostumada, mas na casa da vó o banho era com sabonete esfregado no “paninho”.

Duas coisas me faziam ter ataques de riso: seu rosto espremido por uma gargalhada que a fizesse molhar os olhos e tirar os óculos; seus pés sem o esmalte vermelho. O segundo motivo eu não sei explicar, mas me fazia rir muito, muito. Suas unhas dos pés viviam vermelho ambulância, e vê-las ao natural era no mínimo constrangedor…

Tinha tudo planejado, organizado, preciso e bem feito – com antecedência. Não suportava que a esperassem: bem antes da missa das quatro começar já estava de batom e spray nos cabelos; na Marginal Tietê já segurava nas mãos a chave do portão de casa.

Calculava que precisaríamos de nada mais, nada menos do que trinta e dois pãezinhos – para ela os moreninhos! Não gostava que interferissem em suas panelas – afinal ela mesma não interferia no porão de ninguém…

Dirigia. Primeiro, um fusquinha bege. Depois, um gol bordô, como ela mesma escolheu. Aceitou me acompanhar nas primeiras voltas depois de tirada minha carta, e até hoje repito como um mantra seu sábio “deixe que buzinem”.

Não deixava o dito pelo não dito e ensinava minuciosamente como se lavava alface, como se estendia a toalha da mesa, como se fazia o sinal da santa cruz, como se “totchava” o pão no molho sem sujar as mangas e como se enxugavam as pocinhas no chão do quintal… (esta foi uma estratégia para entreter seis netos entediados num dia feio).

Participava da novena de Natal todos os anos – apesar dos netos que por vezes a acompanhavam tumultuando as reuniões e rindo dos cânticos tocados nas vitrolas das vizinhas.  Rezava o terço diariamente. Tinha padres muito amigos, músicas preferidas e sabemos nós que Nossa Senhora lhe deu a mão e cuidou do seu coração, da sua vida e do seu caminho até o fim.

Cozinhava bem, muito, rápido. E por mais que eu tenha muitas cenas emocionantes para me lembrar, é sentir agora, nesse ar de quinze anos depois, o cheiro de pizza das noites de sábado e o sabor da carne com laranja dos domingos especiais que me faz assumir os soluços e me render à saudade. Que nunca, nunca, vai acabar.

 

*15/06/1926

+15/10/2000

“Coequinhas”

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O lance é pegar amor pela cueca. Desejar uma cueca verde do fundo do coração. Ir ao bazar comprar um trio de cuecas novas, porque nele vem uma verde, ainda que seja verde musgo e dois números maior que o necessário. Carregar a sacolinha até chegar em casa. Querer – e conseguir – vestir sem lavar. Esse é o espírito da coisa.É claro que é um saco levar no banheiro a cada meia hora – ainda mais porque nada garante que no minuto 32 não venha a escapar algo mais.  E muito mais chato do que trocar fralda é trocar cueca, calça, meia, sapato e tapete. A cada trinta e dois minutos.

Uma cueca molhada de xixi fica triste. Já uma cueca feliz de verdade é bem sequinha e limpa. Daí que um pouco de mente aberta facilitou todo o resto. Alguém já pensou em pôr a cueca por baixo da fralda? Porque ninguém nunca me falou isso? Para mim essa ideia foi uma revolução.

Depois que o menino pega amor pela cueca, basta haver uma cueca em primeiro plano e, em teoria, todas as demais vestimentas serão preservadas. Na prática, porém, não se compromete a higiene de toda a casa-cadeirinha do carro-casa dos outros-etc, se houver uma fralda por cima da cueca.

E à cueca predileta do dia pode ser dada maior carga dramática… Ele quer a “coecalanja”?  Se estiver lavando, terá que escolher outra. Quer a “coecamalela”, para combinar com a meia?  Se estiver secando, terá que fazer outra opção. E trocar de meias também, por que não? Então é melhor fazer xixi no banheiro e não na “coecazulcala”. Estamos entendidos?

O problema é que, em se tratando da personalidade forte do Pi, quem se destaca é sempre a… “COECAPETA”.

A criança pinta o primeiro quadrado com a cor da cueca que acabou de vestir. Na próxima ida ao banheiro, se estiver seca, desenha-se um rosto feliz e pinta-se o próximo quadrado da mesma cor, até que se troque a cueca. Se a cueca for molhada, desenha-se um rosto triste e completa-se o próximo quadrado com a nova cor.

Marta, Marta

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Lendo historinhas da Blíblia* antes dos meninos dormirem, detivemo-nos na passagem de Zaqueu (Lc 19).

Porque tinha tanta gente? Porque ele subiu na árvore? Porque ele era baixinho? Porque Jesus foi na casa dele? Porque ele desceu correndo?

Ah… Foi aí que eu me peguei respondendo por mim! Enumerei tudo o que faria antes de receber o Mestre em casa: essas roupas aqui para guardar, cama para arrumar (ainda, quase na hora de desarrumar de novo!), brinquedos para recolher, janelas para abrir bem, perfuminho de ambientes, um bolo delicioso no forno, quem me ajudaria com o suco?

A expressão impactada deles contrastou com minha expectativa de que brigariam para coar o suco de Jesus, assim como brigaram para coar seus próprios sucos horas antes.

Por quê? Foi o que o Davi me perguntou, verdadeiramente curioso. Por que você ia fazer tudo isso?

Como sempre, eu, reflexamente, comecei a responder. Ah, porque eu ia querer preparar tudo muito bem pra receber a visita de… Filhinho, o que você ia fazer se Jesus viesse aqui em casa?

Pedir pra ele trazer a mãe dele.

Engoli.

Pra gente poder brincar juntos. Se o pai dele viesse também, ia dar pra gente jogar um jogo bem legal, todo mundo junto.

Reengoli. Jesus, tão homem quanto meu marido, provavelmente nem perceberia mesmo a montanhinha de meias do avesso ali no canto. E poderia passar a visita toda sem se dar conta das manchas na toalha. Mas adoraria divertir-se espetando o Pula Pirata. (Tá bom, vai, montando um celeiro de Lego, que é um pouquinho mais legal). Ou apostando corrida com dois menininhos fofos e uma coleção de Hot Wheels.

Davi queria a companhia, a convivência com sua amada Maria (“que eu rezo todo dia de manhã no caminho da escola, né, mãe?”), queria sua companhia, aproveitar o tempo na presença da Sagrada Família. E, de brinde, em sua fala também me dizia que ama brincar com mães e pais em geral…

Acariciei a bochecha dum iluminado filho enquanto o outro pedia pra falar, palhacento:

Será que Jesus ia comer uma banana estragada?

Não, Pi, opinou rindo o irmão, ele ia comer só uma banana feita de amor…

Um pouco mais infantil, mas ainda surpreendente.

Aline, Aline, “tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas, porém uma só coisa é necessária…”**

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*OLESEN, C. “Minha primeira Bíblia: histórias da Bíblia para crianças”. Il: MAZALI, G. São Paulo: Ciranda Cultural, 2006.

**Lc 10, 41

Chamei pra fazer sopa, mas ele fez uma salada.

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A: Pi, vem ajudar a mamãe a fazer sopa?

P: Tá.

A: Qual o nome disso?                                   (abobrinha)

P: É… Francisco.

A: KKKKK… Francisco, meu amor? É abobrinha!

P: Ah.

A: E isso, como chama?                                (mandioqiuinha)

P: É… cenoura.

A: Quase, lindão; é mandioquinha. Ó a cenoura aqui.

P: Ah.

A: E isso, como chama?                                  (chuchu)

P: Pêra!

A: Pêra? KKKKK… Parece uma pêra, né? Pronto, tá tudo na panela.

P: Você viu a camomila que o Davi plantou? Já brotou…

A: Ãhn?

A: Aqui, ó.

P: Ah!! Tá. Agora quero vê a Camila.