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Ilumina

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Foi a luz menina do sol das sete da manhã que me trouxe a visão clara das cenas.
O quintal da escola. A tartaruga. O mamão que a tartaruga comia. O grande granito no qual deitávamos e raspávamos as mãos para ficarem lisinhas. O tio Hipólito. Hipopótamo. As risadas. O cheiro de café.
Meus quatro anos. Meu silêncio. A mesma luz do sol gentil atravessando os galhos da pitangueira. Areia entre os dedos dos pés.
Chegou tudo de presente, como se algo que nunca tivesse existido fosse a mim gentilmente devolvido. Sensorial: reaconteceu na córnea e na garganta.

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Primeira vez

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Em pé ao lado da mesa da professora primária, a menina aguardava a correção do exercício. Quieta, observava: a caneta apoiada nas mãos senhoras, o cabelo bem ajeitado, o batom bordô sóbrio ultrapassando levemente um ponto do contorno labial.
As colegas, lição terminada, iniciavam a merenda. Seu estômago, envolvido pela sainha de pregas, já devia estar de prontidão.
Uma amiga aproximou-se e, como de hábito, ofereceu à professora uma fruta esverdeada. Os olhos musgo da menina, salpicados de castanho, esperaram. A mestra degustou e, em seguida, ofereceu-lhe. Ela aceitou.
Que lanche levara ela, aquele dia? Não há memória. A memória acusa, porém, ainda, sempre que acessada, com requintes de detalhe, o sabor de pera firme misturado ao de batom.
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Para tia Marli. Com amor.

O TEMA do brinde

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O TEMA do brinde

“Fala pouco, mas fala bem”, foi o que disseram sobre mim durante o jantar, rindo. E revivi uma sensação antiga, do tempo em que eu era quietinha, certinha, boazinha. A tímida CDF, garantida pelos bons modos.
Esta noite, me vi organizando os pedidos e os pratos. Mas todos sabemos que grandes fatos da vida não são exatamente organizados.
Hoje, eu sabia precisamente onde estava estacionado o meu carro – embora nunca encontre sequer meu celular na bagunça do escritório de casa.
Esta sou eu hoje, tão igual e tão diferente. Eles também, iguais e diferentes.
Nesta noite de reencontro, medi, brincando, o punho da doce bailarina C., cujo diâmetro está mantido desde a quarta série e equivale ao diâmetro do punho do meu caçula de quatro anos.
Vi longas unhas de oncinha, outrora roídas. Vi nos cabelos loiros e lisos de F. as molinhas douradas de ontem, pelas quais a perturbava na época o amigo R., hoje pai experiente de três filhos.
Vi nos olhinhos miúdos e bonachões do amigo G. uma criança escondida atrás da barba de um homem feito: Robin Williams.
Vi na alegria e na sociabilidade fácil uma M. F. agregadora, que venceu brilhantemente o bullying, que naquele tempo não tinha nem nome.
Supuseram que eu não pediria chopp – e não pedi. Taparam meus ouvidos ao verem o rubor que me causaram suas palavras irreverentes.
Arriscaram-se nas provocações, brincando que em algum momento esta amizade precisaria de motivos para acabar.
O que penso é que “esta” amizade não é a amizade da infância. É uma outra amizade, que se soma àquela, através da qual unem-se pessoas muito especiais, ao redor de algo que carregam em comum. Nesta mesa há muitas histórias de perdas profundas e doloridas. Há também histórias de ganhos, que são compartilhados e passam a ser celebrados juntos.
Dissemos esta noite que tudo tem um motivo. As crianças que fomos não podiam imaginar os caminhos que percorreriam até chegar aos 35. As crianças que fomos não temeriam sonhar com a oportunidade de reencontrar-se para comemorar o que primeiro tiveram em comum, antes de viajar pelas estradas misteriosas do futuro.
Brindando o hoje, esta noite, brindamos o ontem que nos apresentou e brindamos cada um dos amanhãs que nos trouxeram até aqui – e que não se esgotam.

Billings

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O Bichinho do Posso Fazer Melhor, que vive entre minhas orelhas misturado aos parafusos, me permitiu hoje viver uma tarde atípica.

O Davi tem que entregar, no final dessa semana, uma lição de casa sobre a represa Billings. Minha primeira ideia quando a lição chegou foi promover um estudo do meio em família. Mas os finais de semana se passaram muito ricos e não conseguimos. A semana é sempre tão entupidinha de rotinas que eu deveria aproveitar a tarde da segunda-feira. Era pegar (a estrada) ou largar.

Decidi, muito sensata, que não me precipitaria a o Riacho Grande com os dois debaixo do sol a pino que precede boas chuvas, sem saber quantos chegariam lá dormindo. Vasculhei a internet e achei coisas até bem interessantes para fazer um bom trabalho. Pronto, tudo resolvido.

Mas amo contrariar a mim mesma, e ao primeiro “aonde a gente vai?” que ouvi dentro do carro, ao pegá-los na escola, comecei a desfiar a história da represa, do engenheiro que lhe emprestou o nome, da cidade… e fui até lá mostrar tudo para eles.

Ficaram onze quilômetros muito interessados nos dois lados da Anchieta, no filtro enorme que avistaram ao longe – a tal da “Sibesp” – nos restaurantes que existem em cima dos barcos, e no perigo que é nadar na prainha, onde as pessoas “se afogam até morrer”.

Desceram do carro com uma semente de maravilhamento tão pronta para brotar, que o Pi, quase gritando, passava o dedinho no muro de chapisco ao lado do qual estacionamos comemorando com o irmão: “é pintado! Olha Davi! Pintado com tinta!”.

Andaram rumo às águas saraivando perguntas, planos gastronômicos aguçados e protestos – como sempre. O olfato percebeu o “cheiro maravilhoso”, que parecia camarão frito. Os olhos contemplaram compenetrados o sem fim da superfície prateada da represa. Os ouvidos foram muito estimulados pela disputa entre os pagodes dos trailers concorrentes. O tato sentiu a areia molhada, pedregosa. (O sentido que não tem nome levou o coração à boca quando o Pi correu em direção a outra mulher que não sua própria mãe e, no mesmo instante em que percebeu o engano, assustou-se com uma pombinha barulhenta que voou a sua frente. Berreiro e choradeira encabulada).

Bem, estava faltando o paladar. Mas eu fiquei sem coragem de experimentar os quitutes disponíveis ao nosso redor e fui enrolando os dois com promessas. Que caíram por terra em seguida, quando o Davi gritou apontando para o carrinho de sorvetes de uma muito simpática jovem senhora.

Variadíssimos sabores, um realzinho cada um. Mesmo sabendo que minhas duas mãos seriam muito úteis livres de um picolé próprio, segui o impulso da gula e peguei um para cada um de nós.

Tudo corria bem, até pelas possibilidades ampliadas na dança dos sabores que sempre se impõe, até que apareceram as abelhas. Inicialmente numa pocinha de pingos de uva que vertiam do sorvete escolhido pelo Pedro. Depois, por toda parte. Em especial rondando as orelhas do Davi. Que começou a sapatear “igual a Laura na área de convivência quando um grilo pulou na saia dela”.

Em gargalhadas nervosas eu tentava limpar os rostos melados, manter os meninos calmos e ir andando para longe das abelhas. Não foi nada fácil. Ao Pedro ainda restavam 50 % das lambidas. Mas não era possível ficar ali com cara de paisagem. Então, antes de conseguirmos levantar nosso acampamento em grupo, orientei o Davi a “ir andando”. E ele saiu correndo. Fechando uma bicicleta sobre a qual dois grandalhões se acumulavam. Foi por um triz.

Já livre de parte do lixo açucarado, de mãos meladas dadas com os dois pequenos, rumo ao carro, surgiam gritinhos fruto do contágio do desespero.  Tanto que o Pi teve a iniciativa de jogar no lixo o último pedaço de picolé.

Camisetas imundas, meladas, suadas, mãozinhas piores. Só resisti ao impulso de jogar nelas a água da Billings que colhemos cientificamente numa garrafinha pet, porque… Bem, as mãos já estavam suficientemente sujas…

Suco de cajá

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Na escola foi surpresa:

Suco novo ali na mesa

Amarelo ou marrom?

Diferente, mas é bom!

 

Um menino tomou tudo,

Tinha paladar sortudo!

O outro só provou,

Do azedinho não gostou

 

A mamãe olhou na agenda

E perguntou para os filhotes

“Mamãezinha, isso é lenda

Fruta nova assim não pode”

 

Então discutiram muito

Sobre o sabor do suco

Caju ou maracujá?

Ninguém sabia do cajá

 

Mas mamãe foi curiosa

E montou a sua equipe

Para investigar as frutas

(Só faltou um piquenique)

 

Olhamos no dicionário

Fotos no computador

E montamos um trabalho

Do qual todo mundo gostou

 

Venham cá,  já!

Vai ter suco de cajá!

Quem quer experimentar?

 

Elaborado por Davi e Pedro Belini, no dia 05/02/2013 – quando conheceram o suco de cajá – e pela mamãe Aline.

Feito com amor

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Perguntei pra mulherada na academia como é que se reparte um bolo em dois, pra rechear. A história do fio de linha é linda, mas nem sempre tem final feliz.

Chegando em casa, tentei conduzir a fome de um culinarista mirim e duas receitas diferentes no mesmo forno – e o almoço ficou pra janta…

Mas, entre uvas desgranadas e purê de mandioquinha, tive a grande ideia de dividir a massa do bolo em duas formas iguais, obtendo, vinte e cinco minutos depois, duas finíssimas solas de sapato de relevo acidentado sabor chocolate. Brincadeira, pegaram só um pouquinho na assadeira e nem quebraram muito na hora de desenformar.

Muitas horas se passaram sem que eu pudesse dar prosseguimento à tarefa. Caiu a noite. Mas eu sabia que preparar as partes moles seria mais condizente com meu talento de formiga profissional. Recheio e cobertura renderam menos do que eu esperava, mas que doce lar não tem uma lata sobressalente de leite condensado?

Suspirando de orgulho misturei as cerejinhas picadas ao brigadeiro de cacau. “Tá bom que não reduzi o açúcar, mas acrescentei levedo de cerveja pra enriquecer a vitamina”. “Esse caldinho da cereja não tem nada de saudável, mas completei a medida do trigo com integral, vai”.

Montar o edifício hipercalórico foi realmente desafiador, porque os dois maluquinhos (que até então tentavam desvendar na sala ao lado as fronteiras da dor e do prazer em suas lutas corporais) resolveram brigar de espadas entre os ingredientes tentadores espalhados pela cozinha.

Dei um pote degustação para cada um e exigi que ficassem em seus lugares, enquanto eu terminava.

“Porque esse bolo tá assim?” perguntou a boquinha lambuzada de um rostinho lambuzado emoldurado por longos cabelos loiros lambuzados.

“Assim… torto? Porque é o primeiro bolo de aniversário de verdade que a mamãe faz”.

“Eu quero comer”.

“Você já está experimentando as partes do bolo desmontadas, esse montado é pro Davi levar na escola amanhã; ninguém vai comer hoje, só amanhã. Davi, se alguém perguntar quem fez esse bolo, o que você vai falar?”.

“Que foi você… Não é?”

“É sim, filho. E você vai falar que eu fiz com quê?”

“Com cereja!”

“Não, querido, com amor.”

“Mas ó a cereja aqui!”

Abandonei a conversa para ajeitar a obra na geladeira antes que terminasse de desmoronar. Ainda não tenho a menor ideia de como vou fazer para transportá-la para a escola amanhã sem nenhum desastre, mas ao menos esta noite minha geladeira poderia ser fotografada para encarte de supermercado.

E eu vou dormir me sentindo bem melhor que a Sarah Jessica Parker naquele filme* em que ela pegou piolho da filha! Até porque não tenho filha. E piolho nenhum teria coragem de emigrar da cabeleira do Pi, lotadinha de brigadeiro daquele jeito…

 

 

* “Não sei como ela consegue” (2011). (A mãe executiva promete à filha que fará com suas próprias mãos uma sobremesa para a festa da escola; atrasa-se numa viagem de negócios, chega tarde da noite e compra numa loja de conveniência uma torta pronta, um pirex e açúcar de confeiteiro; tenta forjar um doce caseiro, mas não engana a ninguém.)

Pendurada num cipó

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Desde a madrugada senti palpitações. Talvez porque acordaria cedo com hora marcada depois de muito tempo de acasos. Talvez por tantos outros quês.

A respiração curta, muitos suspiros, nuvens no cérebro, uma calma ensaiada. Vivi as primeiras horas da manhã na expectativa. A questão não era o Davi em seu primeiro dia de aula. A questão eram os meus certificados: escolhi bem a escola? Preparei bem a criança? Entendi bem qual deve ser minha postura na adaptação? Fiz bem em matriculá-lo neste momento? E a derradeira: sou uma boa mãe?

Estudante uniformizado pronto para foto. Tentou um sorriso, mas espelhou minha testa crispada. Tentou sem sucesso alinhar as sobrancelhas paralelas.

As primeiras lágrimas forraram meus olhos quando vi de relance o horário no relógio do carro. 9:37h. foi a hora de seu nascimento. Isso dava algum número exato de dias, que alguém poderia calcular. Alguém – não eu tentando me lembrar o que deveria fazer diante do farol verde.

E um ar trêmulo de orgulho entrou na antessala de meus pulmões. Todos esses anos e meu bichinho criado artesanalmente. Orgânico. Sem aditivos. Taí.  Consegui, aos trancos e tropeços. Feito.

Chegando à escola pus-me a ler para o Davi a faixa de boas vindas aos alunos. Em voz alta. E trôpega. Outra vez aquele vazamento sobre a córnea. Seria uma telha palpebral quebrada?

Mas deu tudo muito certo. Fiquei ali sentada fingindo que lia enquanto meu independente filho subiu de mochila nas costas e mãos dadas com a professora para arrumar a escrivaninha de sua república no interior do estado. Não, não! Isso será só daqui a uns 14 anos. Hoje ele foi a cem metros de mim brincar de Corre Cotia. Mas uma parte minha queria que fosse de verdade na casa da tia. Ou no cipó da casa da avó. E só.

Observei, no trânsito dos bastidores de uma escola séria, que há problemas muito mais decisivos do que minha curiosidade quanto ao tipo sanguíneo da professora. E que não tenho com que me preocupar. Ele está se divertindo, interessado no mundo novo cujo portal acabou de cruzar.

Quando reaparece, meia hora depois do combinado – e reconheço tão nitidamente mais uma semelhança com o pai! –, arregalo os olhos de orgulho e saudade. Aquele sorrisinho ao lado do qual estalo um beijo é uma resposta a muitas perguntas.

Dirijo para casa ouvindo a voz doce dar algumas notícias interessantes e cuidando para não iniciar nenhum interrogatório. Fez uma amiga. Tem duas professoras. Não sabe nenhum nome. Quer voltar para a escola. Amanhã não. Hoje.

Mando uma mensagem de texto aliviada, alegre e agradecida para o marido. Ele responde dizendo que tem orgulho de todos nós, até de mim. Assino – a lápis, como sempre – alguns certificados e sinto a elevação, a queda e o looping de uma emoção fantástica, uma sensação de missão cumprida, de gratidão. E uma exaustão enorme, que momentos depois me faz sonhar capotada entre Pedro, Davi, Cebolinha e Woody.