Arquivo da tag: esquecimento

(Linge)rie da desgraça alheia

Padrão

Depois da aula de natação para bebês, o merecido banho duplo da baleia e do girino da sereia e do golfinho. Cabelos cheirosos, molhados, penteados, roupas leves, frescas… peraí… frescas demais… Cadê minha calcinha? Não adianta procurar, eu não peguei. Vim vestida com o maiô embaixo da roupa – um vestido azul turquesa. Curto. Ahw… Justo hoje?!

Raciocínio rápido: vou usar uma cueca do Davi. Não vai caber. Vou pôr uma fralda do Pedro. Como assim? Vou voltar de roupão, que nem quando tinha seis anos e ia a pé pra casa, com touca e óculos de natação nos olhos, também. Mas que roupão, se eu não tenho? Vou ter que pedir uma calcinha emprestada. Mas quem vai ter uma calcinha pra me emprestar? Já sei, vou na casa da minha tia avó que é aqui perto e pronto. Tá, mas como vou até lá? Sem calcinha é que eu não saio daqui. P-o-r-q-u-é-é-é não fiz como nos outros 364 dias do ano e vim de calça ou bermuda? Tá, vamos lidar com a realidade. Calma Pi, já vamos descer pra eu te dar almoço. Quero dizer, acho que hoje vai ficar difícil prolongar nossa estadia nessa academia. Ah, como quero a minha casa!! Ok. Esquecimentos acontecem. Já esqueci touca, sunga, fralda, lanche. Calcinha. Vou dar um jeito. O maiô já tá quase seco, né?  Não, não, tá bem molhado. Ah, mas eu seco com a toalha. Isso, primeiro eu torço. Bendito o dia em que a minha imensa pança gestante me impedia de caber num maiô convencional e eu comprei esse de aqualouco. Vou assim mesmo. Urgh, vestir maiô molhado, eca! Não grita, Pi, a mamãe vai precisar pôr o maiô de novo hoje. Só hoje. Eu sei que você não se conforma, mas não tem jeito. Tá, o maiô fica tipo uma bermuda e enrolo o resto na cintura, senão vai molhar demais. E ponho essa blusinha aqui. Caramba, isso tá ridículo. Será que é melhor ir enrolada na toalha? Não, eu não estou com vergonha, sou segura de mim e estou tomando a melhor decisão dentro das minhas possibilidades. Peep toe de saltinho é que não vai dar. Volta pra sacola, bora calçar o chinelão.

Sorrio e despeço-me no vestiário, o pobre filho da louca carrega sua marmita com a vã esperança de sentar-se na recepção da academia e fartar-se com sua refeição morninha. Não vai rolar, Pi, vamos sumir daqui o mais rápido possível, só não vou correr, porque não combina com a minha cara de paisagem.

Sentada sobre toalhas, dirijo amarrando um contrato minucioso com Nossa Senhora da Boa Viagem e sigo divagando. Quando percebo, já estou imaginando que explicação daria ao Digo, que seria chamado pelo policial da blitz que teria me parado na Anchieta. Ufa, garagem de casa. Ahhh, ainda tem o elevador e suas câmeras! E gente na garagem!

Chego em casa, o Davi corre ao meu encontro: “de maiô, mamãe?”, e eu: “Shhh.” E sussurrando, continua: “mas porque você tá de maiô?”, e eu: “Shhh.”  Deixo o Pi no berço e reapareço: “Mamãe, porque cê ta de maiô aqui em casa?” “Porque eu esqueci de levar  calcinha, filho”. “Mas porque você esqueceu de levar a calcinha?”.

Vinte horas depois, pronta para um novo e mais normal dia, já decentemente trajada, calço minhas sapatilhas em frente ao espelho do quarto com meu fiel escudeiro de bruços na cama. “Lembrou de pôr calcinha?” “Lembrei, filho.” “ E isso, é um sutiã ou uma regata?” Olho para o espelho e para ele: “Uma regata, né, um sutiã desse tamanho?!” “Ah. Pensei que fosse um sutiã para pessoas maiores, tipo o papai”.

Anúncios