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Primeiros pensamentos na manhã de ontem

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Nossa, o Davi está acordando pela terceira vez na madrugada? Mas a voz dele tá tão perto dessa vez… Ah, ele ta aqui no meu quarto! Será que já ta na hora de acordar? Que bom que amanhã é sábado. Peraí, mas a Nina não chegou… E ela veio ontem! Será que hoje é quinta? Não, ontem foi sexta. E hoje é sábado… Ai, é sábado e eu já acordei, droga!

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Cenas de solidariedade por ocasião da Páscoa*

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A imagem do escuro/claro foi a tônica com o Davi nesta Páscoa. Ele entendeu muito bem que às três horas da tarde na sexta-feira santa, quando Jesus morreu, ficou tudo escuro e “chuva, e céu preto e monstros e fantasmas”; a manhã da ressurreição, por outro lado, foi cheia de luz “e as pessoas ficaram felizes porque têm Jesus no coração”.

Tendo introduzido o tema da luz e das sombras, posso contar que durante esta quaresma o lustre de nossa sala queimou, e fomos ao supermercado, eu e os meninos, comprar uma lâmpada para reposição. Depois de passar três vezes pelo mesmo corredor respondendo a infinitas perguntas sobre pneus, lanternas e porque crianças não podem ganhar brinquedos para cachorros, resolvi perguntar para uma moça se ela sabia onde ficavam as lâmpadas.

Enquanto ela me respondia “bem ali”, apontando para algum ponto exatamente debaixo do meu nariz, percebi que ela vestia uma camiseta do uniforme da escola onde estudei durante oito anos. Perguntei o nome dela e me vi abraçando-a, enquanto exclamava “a minha professora de Educação Física!”.

Apresentei meus filhos a ela, e ela a meus filhos. O Pi pouco mudou, continuou sentado no carrinho com sua carinha branca. O Davi começou a piar enquanto eu pedia que ele dissesse “oi”, e a rosnar quando a moça começou a explicar os atrativos da escola para crianças de seu tamanho. Levemente frustrada, me despedi.

Reencontramos-nos minutos depois, na fila do caixa, quando a professora estacionou seu carrinho atrás de nós. Uma senhora pagava sete ou oito contas em nossa frente, o Davi começou a comentar sobre os ovos de Páscoa que forravam a loja, a apontar para seus eleitos, a pedir um deles – o azul – e a fazer uma cena inesquecível de birra. Eu mantive a calma, na verdade estava mais preocupada com a contrariedade por passar por isso às vistas de uma professora que há anos eu não via, do que em driblar os maus modos do menino. 

Quando o constrangimento pela gritaria do Davi, já deitado no chão, após ter usado todos os seus argumentos sensatos (como me dizer “mamãe, estica seu braço e pega o ovo pra mim, você precisa ter coragem!”), transbordou de mim e chegou à minha mestra, ela comentou algo sobre a demora da fila e levou seu carrinho de compras para outro caixa, bem longe dali. Semi-ufa.

Mas a birra continuou e contagiou o irmão. Os dois chorando-gritando, eu começando a considerar impossível passar todos os itens do carrinho pelo caixa, ensacolá-los  com o Pi no colo, pagar e chegar até o carro sem danos à  integridade física de ao menos um de nós. Perguntei à senhora de nossa frente se ainda tinha muitas contas para pagar e ela respondeu, educada, que “não, só mais essas três”. Devo ter feito uma cara de pavor, embora tenha procurado manter minha expressão neutra.

Instantes depois, vi que a senhora mexia os lábios olhando para mim. (Exato, poderia ter dito que ouvi a senhora falando comigo, mas de início não ouvi absolutamente nada além do berreiro de minha prole). Cheguei mais perto e detectei que ela havia interrompido seu pagamento e se oferecia para me ajudar. Começou a pôr meus itens na esteira antes que eu pudesse aceitar. Enquanto isso começou a contar para o Davi que “todos aqueles ovos de Páscoa na verdade estão vazios, porque o coelhinho ainda está fazendo o chocolate, que está mole e só fica pronto na Páscoa”.

Nunca me senti tão bem em relação a uma história engrupidora de menores; os dois pararam de chorar, eu primeiro endossei tudo o que minha consciência permitiu (a outra parcela transformei em “é mesmo?”s), enquanto ela empacotava nossas coisas.  Terminei de pagar e encher o carrinho me desfazendo em gratidão, ela distribuiu “de nada”s sinceros e ainda completou dizendo que “não somos nada sozinhos” e que “nessa vida é um por todos”. Fez todo o sentido e eu tive uma certeza muito encaixada de que também agirei assim quando as crianças choronas da fila não forem as minhas.

Saí de lá sorrindo e serena, tocada com a humanidade que tinha acabado de me encontrar. 

Voltando à luz e às trevas: muito embora tivessem dormido apenas oito horas e durante este período acordado, ao todo, cinco vezes, os meninos despertaram ao primeiro raio de sol nesta manhã de Páscoa. Amamentei o Pedro enquanto fazia planos ousados de levá-los comigo à missa das sete.

Desejamo-nos Feliz Páscoa, encontramos os ovos e cenouras de chocolate que o coelhinho deixou em nossa sacada ao lado da cenoura que deixamos para ele. Engolimos alguns bombons (o Pedro também experimentou os restos da cenoura suja de terra, provavelmente a única coisa saudável que comeria neste dia), nos vestimos, nos despedimos do papai e de seu tornozelo torcido e levamos os brinquedos que vieram nos ovos de Páscoa para a missa.

Nos primeiros minutos dentro do carro o Davi me lembrou de que ainda não tinha feito xixi. Aturdida, conferi com ele se daria para aguentar até a Igreja. Ele consentiu e eu confiei. Chegamos ainda antes da homilia – eu, um coelhinho de pelúcia, as únicas crianças menores de sete anos de toda a Igreja e uma mala maior que uma delas.

Logo no penúltimo banco estava o vovô, que recebeu o Pedro resmunguento de “mamãínn” enquanto eu levava seu irmão mais velho ao toilette. A tia-avó organista nos acompanhou – e segurou o coelho – enquanto o Davi se aliviava reclamando do cheiro de banheiro. 

De volta à Igreja, ele educadamente desejou “Feliz Páscoa” baixinho a todos os conhecidos que encontrou e estabelecemo-nos no banco em que vovô e Pi nos aguardavam. Uma senhorinha fez questão absoluta de ceder seu lugar a nós e manter-se em pé até o final da missa. Mais tarde justificou-se, incluindo nas explicações sua “diverticulite nos intestinos”.

 Não entrarei em detalhes quanto à bagunça e aos ruídos que os meninos originaram durante os minutos de celebração que se seguiram, nem ao menos descreverei os malabarismos que me vi fazendo durante a consagração, em pé no corredor central com um filho no colo (querendo jogar para o alto a bola que segurava) e o outro filho no banco (chorando porque não estava grudado em mim).

Bastará dizer o quão encabulada fiquei após os cristãos idosos que nos rodeavam terem abaixado em média três vezes cada um para recolher os folhetos/peças de brinquedo/sapatos que os meninos compulsivamente deixavam cair.

Achei por bem sair da Igreja com as cuias (a mala ficou com o vovô) e deixar que os pequenos brincassem num cantinho do átrio com as mil pecinhas que haviam levado. Foi aí que uma nova cena marcante de solidariedade teve lugar.

Um senhorzinho, que se apresentou como alfaiate do padre, abaixou ao meu lado e me disse que agora eu não sei, mas um dia saberei; ele tem um bisnetinho que entra em casa correndo e perguntando se “o f*%$ da p&#@ do bisavô dele já foi para a alfaiataria”. (Por uma fração de segundos fiquei em dúvida se o senhor estava reclamando da ingratidão dos seus descendentes, mas logo percebi que não).

Mostrou-me sua carteira com a imagem da Sagrada Face, disse que as crianças são a melhor coisa do mundo, reforçou que um dia, quando eu tiver meus netos, eu saberei, e terminou desejando Feliz Páscoa e dizendo – já teria sido muito bom se ele não tivesse terminado assim, mas devo enfatizar que ele disse  – que viu a forma carinhosa como eu entrei com os meninos na Igreja.

Nesse instante, o embaraço, o cansaço e a ponta de arrependimento por ter levado meus filhos à missa das sete deram lugar à gratidão, à consciência de comunidade e à clareza (com todo peso da palavra após estas linhas) do que é a Páscoa.

 

*Escrito na manhã de Páscoa de 2011.

Sim. Please.

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Volta da escola

Encontram-se irmãos

Adia soneca

Lutam de espadas

Repedem desculpas

Destroem as armas

Chora de sono

Vai para o quarto

Nega dormir

Dorme com anjos

Mãe companhia

Exercício da fono

Unhas pintadas

Algumas risadas

Compartilhivros

TV e PC

Porta abre

Pezinhos no chão

Sofá recheado

Retorna o irmão

Suco e banana

Agora o bolinho

Cheiro de filho

Quero mais

Peraí

Eco contratado

Bora pro fogão que tem duas bocas crescidas pedindo mais pão

Noite da pesada

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20:04h.

O bebê X*. adormece.

21:10h.

Seu irmão Y*. pega no sono.

A mãe, Z*., embora já tivesse dado suas cochiladas durante o ritual de sono do mais velho, volta à ativa após colocá-lo na cama e esquenta algo para jantar.

21:30h.

O marido, W*., chega do trabalho. Não vai jantar, já comeu alguma coisa, não se lembra mais o que foi.  Vai para o banho.

Z. come o que havia previsto e ataca mais uns doces enquanto ajeita a cozinha.

O casal tenta assistir algo na TV. Quase nada agrada. Definitivamente, não há nada que agrade simultaneamente aos dois.

22:28h.

Z. vai para a cama e adormece em aproximadamente dois minutos e meio.

W. fica no sofá.

23:05h.

X. chora.

Z., pula da cama, dissolvendo um sonho que já estava em curso, amamenta-o.

Y. se mexe na cama, geme, range os dentes. Não acorda oficialmente.

23:20h.

X. fica facilmente no berço após a mamada, Z. volta para a cama.

W. vai para a cama. Quarenta segundos depois, quando Z. adormece, W. ainda está rolando. Não há informações precisas sobre o horário em que adormece.

00:00h.

Y. chama a mãe.

Z. custa a acreditar, mas levanta antes que X. acorde.

Y. quer água, Z. o lembra de que o copo d’água (com tampa e válvula anti-vazamento) está ao seu lado na cama, entrega a ele. Ele toma quase todo e fica quieto.  Milagrosamente X. não acorda.

Z. volta para cama.

W. ronca.

00:29h.

X. chora, está sentado berço.

Z. levanta cambaleante, vai até ele, deita-o, acaricia-o e emite “shhhhh”  até que o choro cesse, fica balançando seu bumbum até que ele pegue no sono. Milagrosamente ele dorme sem mamar.

Y. se mexe na cama, geme, range os dentes. Não acorda oficialmente.

00:40h.

Z. volta para a cama, começa a perceber-se irritada, suspira e rola na cama, adormece em cinco minutos.

W. ronca.

1:17h.

Y. chama a mãe.

Z. levanta num pulo, vai até ele impaciente. Ele tem sede. Z. sussurra rispidamente que pegue seu copo d’água e beba, salienta que para isso ele não precisa dela. Sai do quarto.

Milagrosamente X. não acorda.

Z. deita-se. Decide levantar para ir ao banheiro. Não acende nenhuma luz, não aciona a descarga.

W. muda de posição, suspira.

3:30h.

X. chora, Z. levanta e vai atendê-lo. Encontra-o sentado no berço, pega-o, amamenta-o.

X. demora a relaxar, mama dos dois lados, parece satisfeito.

Z. coloca-o no berço. Ele estica o corpo, choraminga. Ela faz “shhhh”, tenta balançar o bumbum dele, ele levanta, chora mais, ela tenta deitá-lo, ele resiste, ela suspira, ele chora forte.

Y., chupa os dedos, se mexe, está de atravessado na cama, começa a gemer e a resmungar.

Z. percebe que está perdendo o controle sobre si mesma, levanta as grades do berço e vai para o quarto do casal dizendo ao marido num fôlego só frases confusas , sobrepostas e provavelmente exageradas sobre os fatos já acontecidos (e. i.: diz que já se levantou sete vezes esta noite, na realidade foram apenas cinco). Pretendia sussurrá-las, mas precisa falar em intensidade incomum para a madrugada – o choro de X. está muito alto.

W. eleva o tronco e mantém-se em posição intermediária,  possivelmente tentando entender se deve levantar-se ou manter-se deitado.

Z. vai para seu lugar na cama pisando duro, enquanto o marido levanta, tromba no armário, dá ré, previne-se com o braço estendido à frente, tromba na porta, entra no quarto dos meninos e pega X. no colo – sem abaixar a grade do berço.

X. chora a plenos pulmões, grita.

W. leva-o para o trocador e começa a trocar sua fralda no escuro.

W. não consegue prosseguir na tarefa porque não enxerga e acende a luz do quarto.

X. chora o mais que pode.

Y. encolhe-se na cama, chupa os dedos com força, tenta tapar os olhos com a mãozinha.

Z. pula da cama, corre até o quarto dos filhos, coloca a luz noturna na tomada, soca o interruptor apagando a luz do quarto. Diz ao marido para não acender aquela luz.

W. diz que não estava conseguindo enxergar.

Os esposos disputam irritados os últimos passos da troca de fraldas, W. diz a Z. que vá deitar-se, Z. diz a W. que não deveria tê-lo chamado.

Z. vai até a cama de Y., pergunta se precisa de algo. Ele sinaliza que não, procurando manter-se imóvel. Ela acaricia-o, beija-o.

W. vai para a sala com X. resfolegando no colo. Z. aproxima-se, diz ao marido pela segunda vez que não deveria ter acendido a luz do quarto. Tenta pega X. no colo – W. reluta mas acaba permitindo. O bebê silencia.

W. volta para a cama.

Z. leva X. para o quarto, senta-se na cadeira de balanço com o bebê no colo, balança até que ele durma.

Abaixa a grade do berço com uma mão só e todo cuidado para não fazer barulho. Coloca X. no berço, ele fica.

Y. parece dormir tranquilamente. 

4:52h.

Z. volta para sua cama. Não consegue fechar os olhos pensando na proximidade do amanhecer. Pega no sono em alguns minutos.

W. ronca.

6:15h.

O despertador de W. toca, ele o desliga.

6:27h.

W. levanta, entra no banheiro e fecha a porta.

6:28h.

X. chora.

Z. levanta, vai até o quarto dos filhos, encontra Y. também acordado.

Após uma noite restauradora a família está pronta para mais um dia.

 

*as iniciais foram trocadas para preservar as identidades dos envolvidos. X. tem 13 meses, Y. tem 3 anos e 4 meses, W. tem 34 anos e Z. prefere não revelar a idade.

Escrito em dezembro de 2010.

Gargalhada

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Nesta manhã tive o maior ataque de riso do mês – e olha que já estamos no dia 29. Posso aproveitar e elencar os outros quatro finalistas:

1)      Minha mãe telefonar para o CEATOX após perceber que o Pi lambeu o arco da bolinha de sabão;

2)      O Davi me perguntar se a Lucia (das aparições de Fátima) já se transformou em Nossa Senhora;

3)     http://tts.imtranslator.net/GbF4

4)      Vendo o irmão receber um tubo vazio de papel toalha, o Pi correr para a cozinha e imediatamente retirar um tubo igual do vão sobre a máquina de lavar louças, que estava ali Deus sabe desde quando.

Sinto uma pressão constante, como se a própria atmosfera exigisse de mim mais do que posso dar. O Pedro quer brincar de bola no meu colo durante o café da manhã – não serve brincar de outra coisa no cadeirão, não serve brincar de bola no cadeirão, não serve brincar de bola em outro lugar.

O Davi pede para eu preparar todas as opções alimentícias disponíveis na mesa, mas após o primeiro gole ou bocado, as relega a “nunca mais” e continua deitado na cadeira, com os pés no meu colo – sim, mesmo que o Pedro já esteja ali e comece a gritar – pedindo outra coisa para comer.

A empregada decide iniciar todas as conversas compridas quando estou atrasada (ops! percebo que acabo de cometer uma injustiça: a qualquer minuto que ela emita palavra dirigida a mim eu estarei atrasada. E a qualquer minuto que ela mantenha um silêncio sepulcral também).

O meu marido me pede para procurar o papel da dieta na segunda gaveta – só para abrir a segunda gaveta a gente tem que se paramentar, benzer e afastar as crianças. O meu marido me pergunta se eu quero pão com manteiga ou requeijão. O meu marido me pergunta se eu quero mais suco. (Sacaram? A essa altura a mais simples das perguntas torna-se impossível de responder). 

Foi então que, nesta manhã, entrei no banheiro para fugir de tudo escovar os dentes. (Confesso que antes aproveitei para usar o vaso sanitário. E para dar uma lidinha na coluna da Ingrid Guimarães. ) Naquele momento, com a boca cheia de espuma, escutei a maçaneta da porta sendo acionada. Sem querer minhas pálpebras contraíram levemente, temendo o final do momento de sossego. Qual não foi minha surpresa quando um ruidinho fino e inusitado, seguido pela bufada do Rodrigo, anunciou que a maçaneta passaria a negar-se a trabalhar nas condições progressivamente mais precárias em que se encontrava desde nosso primeiro dia habitando esta residência. Ou seja: a porta emperrou. Eu estava trancada no banheiro!

Antes mesmo de ter certeza do veredicto, comecei a rir descompassadamente e a babar a pasta de dentes. Conforme tive a confirmação das suspeitas, precisei usar a toalha de banho para enxugar as lágrimas de riso dos meus olhos apertados e remelentos. 

Mas que sorte era essa? O que mais eu poderia querer?

Depilação nas áreas necessárias, esfoliação nas pernas, nos pés, nos cotovelos, até no nariz se eu quisesse, touca com o bendito condicionador que eu nunca usei, banho de banheira com sais até ficar mole, desenhar no vidro embaçado do box e depois no espelho, direito a hidratante, direito a desodorante – em ambas as axilas! Cheirar todos os perfumes e passar o predileto, arrumar todos os batons em degradé e escolher o que combina com a cor das unhas.  Secar o cabelo. Tudo isso com o bônus de uma revista recém-desplastificada trancada no mesmo ambiente que eu! E, além do mais, com o fenomenal brinde dado pelo acaso de ter estado sozinha no banheiro durante o ocorrido e de ter que permanecer assim, afastada das fraldas sujas, das bolachas, das meias sem par, dos desenhos da TV e dos gritos.

A gargalhada durou muito, entrecortou minha comunicação com o mundo exterior. O inesperado acontecera! Eu, livre presa por algumas horas.

Foi apenas quando percebi a aflição/frustração/culpa/atraso do Rodrigo para ir para o trabalho que resolvi parar de rir e estudar aquela maçaneta. E, pelo lado de dentro, foi possível, com um pouco de delicadeza, abrir a porta.

Ele entrou no banheiro correndo, e eu saí para a vida real. Instantes mais tarde, quando fiz menção de entrar para pentear os cabelos, me percebi, agora sim, presa: trancada para fora. Levei uma bronca: “Davi, não falei que não era pra mexer aqui?!”. Defendi o pequeno, mea culpa. Vi-me abrindo a caixa de ferramentas: chave inglesa, alicate, chaves de fendas de todos os tamanhos. Desmontamos a fechadura e ao longo de todo o dia a fralda que amarramos na porta me lembrou do episódio, da relatividade “cárcere X liberdade” e de quão animadores foram aqueles minutos de expectativa e bom humor.

Não precisamos de um banheiro apenas para as emergências gastrointestinais. Para as psíquicas também. E, de preferência, um banheiro com um pouco de privacidade. “Priva o quê, mãe?” “Privacidade”. “Priva-cidade? Priva-rua! Priva-teto! Priva-lâmpada! Priva-chão! Priva-cama! Hahaahhaha!!!” 

 

Escrito em junho de 2011.