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Febre

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 Na última tarde do ano, convivemos com um Davi corado, suado, lindo, interessado nos presépios, Papais Noeis e capivaras do condomínio onde passamos os feriados, e emotivo além da conta. Está com febre. Mas não parece estar doente.

Passo bons minutos da tarde lendo com ele nosso livrinho de fonologia. Entre “assar” e “achar”, “ganso” e “gancho”, damos boas gargalhadas de alegria e concluímos que ficamos “cheios” de orgulho pelas suas aquisições.

Horas mais tarde, depois da soneca, 38º C instalados, me vê carregando a sacola laranja na qual viajaram os tênis de festa. “Essa sacola é do uniforme da minha escola nova, que eu já vou amanhã, porque amanhã é o ano que vem”. Ah, a febre começa a explicar-se.

Passa as últimas horas do ano despenteado de suor, roupinha branca amassada sob um cobertor de soft, deitadinho no sofá da varanda. Sorri às vezes, participa do que pode, até que come. Mas o que quer mesmo é recostar-se num adulto quente e querido.

Dorme no andar de baixo do meu colo. No andar de cima está o irmão. Dois rostos lindos e angelicais, olhos brilhantes bambos ao som da minha voz cantante: “Meu amor, essa é a última oração…Pra salvar seu coração/Coração não é tão simples…nele cabe até o meu amor”.

Rosna ao ser pego no colo pelo pai, resmunga ao ser colocado na cama, choraminga bravo ao vestir o pijama. Não quer dormir ainda, não sob o temor dos fogos de logo mais. Ficamos com ele. Logo os gemidinhos de contrariedade dão lugar ao estalido da boca chupando os dedos e ao ressonar ruidoso de exaustão. Não acordam nem com os rojões do vizinho às doze badaladas.

Amanhece o primeiro dia do novo ano. A companhia dos pais prolonga o soninho. Manhã já iluminada, vejo seu rostinho descansado sorrir para mim e escuto sua doce voz anunciar: “Bom dia mamãe. Feliz ano novo. Não tô mais com febre. E olha, eu já sei falar “shhh”.

Febre explicada. Essa foi das boas. Que as outras que vierem em 2012 sejam assim tão bem intencionadas.

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