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Irreversível

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O sim que eu disse há dez anos
Não livre de enganos
Mudou os meus planos

O sim que eu falei encantada
Muito apaixonada
Matou a charada

De muitas respostas possíveis
Meus irreversíveis
Olhos tão sensíveis

Cederam à grande evidência:
Naquela aparência
A Sua presença

Quando criou meu coração
Meu Deus, devoção,
Colocou vocação

E disse em silêncio suspenso
“Vai lá minha filha
Ter sua família”

A vida não é brincadeira
É uma longa ladeira
É luta verdadeira

O sim de dez anos atrás
Depois de muitos ais
Hoje vale até mais

Estamos de tudo cientes,
E tantos presentes
Tornaram urgente

O agradecimento acurado
Por ter ao meu lado
O meu namorado!

Feliz dia dos namorados, Neguinho!

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Doses homeopáticas

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Sei que com esse post corro o risco de ter meu blog fechado pela vigilância sanitária, mas vamos ao assunto.
Temos uma coleção familiar de medicamentos homeopáticos. Uma farmacinha itinerante, acionada quando alguém cai de cama no fim do dia (sem ser pelo sono que atinge os Gerbelli e as galinhas logo ao cair da noite); quando alguém nem sai da cama ao raiar do sol; quando alguém se acidenta (netos e avôs são bons nisso); quando a farmácia de manipulação está fechada e depois de muitas tentativas conseguimos contato com o médico.
Em gavetas reservadas, ou num cantinho do armário de copos, ou em caixas de sapato infantis etiquetadas por inicial, ou em nécessaires fofas cheias de penduricalhos charmosos. Cada um da família tem seu estilo. Uma sabe de cabeça se tem ou não o remédio naquela potência, porque são quatro bocas em casa para medicar. Outro não sabe de cabeça, mas consulta em instantes sua planilha de Excel super atualizada, e descobre até em que endereço está aquele determinado vidrinho.
Seria muito curioso investigar no repertório homeopático os sintomas da minha tia na data de manipulação daqueles glóbulos que tanto me ajudaram mês passado. Tenho um primo que corre para a internet ao chegar em casa da consulta médica, e confere tintim por tintim a indicação do remédio de fundo cuja receita acaba de receber em mãos. E rola de rir pensando: “não sabia que estava tão grave”.
Uma vez, contorcida de cólica menstrual, bati os olhos no rótulo do vidrinho que tanto me ajudava e li nele o nome do meu avô. Tudo bem, existe uma explicação plausível, já que o remédio cobre muito bem sintomas repentinos, mas meu senso de humor não se conformava em imaginar o Pedrão naqueles dias…
Os rótulos contêm uma série de informações personalizadas. E podem-se imaginar as circunstâncias em que os pedidos são feitos percebendo os errinhos que aparecem ali: A “Dra. Silvia” não existe, Dr. Sylvio é homem. Não temos “Riberto” na família. E não conhecemos médico algum chamado “Silvio Roberto”…
De vez em nunca arrumo minha remedioteca. Confesso que fico com os olhinhos paralizados nos rótulos dos remedinhos do Pi, porque assim, em letras impressas, ler “Pedro Gerbelli” dá muita saudade…
Hoje, fazendo uma faxina, encontrei remédios muito vencidos. E percebi que a parte deles eu tenho um apego afetivo. Os frasquinhos encomendados nos últimos dias de gestação e utilizados nos primeiros dias de puerpério… Aqueles com anotações a caneta no rótulo, para não nos confundirmos quando os doentes eram múltiplos… Claro que a doença não dá saudade. Mas é legal demais perceber – com o apoio de objetos paupáveis – que a saúde voltou. E que conseguimos passar pelas muitas crises da história. Em doses homeopáticas, claro.

Dinossauros católicos

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Há algumas semanas o que anima o Davi para ir à missa é a provocação: “mas e se o Gabriel estiver lá?”. Decide os brinquedos que vai levar pensando no amigo da escola, escaneia a assembléia em busca do coleguinha.

Hoje, achamos, eu e ele, nossos lugares num banco já cheio. Minutos após nos sentarmos, quando eu terminava de ler uma história da Bíblia para Crianças, bem ao pé do ouvido, com ele no meu colo, vi um sorriso sincero abrir-se: “eu vi o Gabriel”.

O Gabriel e sua família estavam exatamente na linha do nosso banco, do outro lado da igreja. Convidei-o com um gesto para vier até nós, e ele veio com seus cards de dinossauro. “Sabe meu dente que tava mole, Davi? Ó!”. Mostrou a janelinha na boca. A Fada do Dente presenteou-o com os dinos.

Passaram a hora revezando entre oração e bate papo, anquilossauros e a parábola do bom pastor, o mapa da Galiléia e o estegossauro. Deram-se as mãos no Pai Nosso, me disseram os nomes de seus padrinhos ao assistir o batizado, entraram num consenso sobre me acompanhar ou não na hora da comunhão.

O Gabriel me despistava com “mas a gente falando baixinho” e o Davi olhava para mim com um sorriso lindo – entre cúmplice, agradecido e bagunceirinho.

Interrompi uma das conversas empolgadas com “agora é hora de falar obrigado pra Jesus pelos nossos amigos”. “Mas na cabeça, tá, mãe?”, destacou meu filho encabulado.

Os fiéis ao redor de nós estavam certamente mais encantados com a vida viva e as gracinhas dos dois amigos, do que contrariados com o barulhê. Comovi-me ao perceber que a comunidade abraça a cada um, e que, assim como meus amigos sustentam minha vida, meu filhinho já tem sua vida sustentada pelos seus.

Depois da celebração, despedimo-nos da família do Gabriel com gostinho de quero mais. Entramos no nosso prédio, Davi muito mais saltitante que o normal. Me disse que adorou encontrar o amigo. E eu me lembrei: “Sabe o que Jesus falou uma vez, filho?”

“O que?”. “O que, mãe?”, parou de saltar pelo quadriculado do piso do hall, impaciente com minha demora em responder.

Engoli o choro e finalmente respondi: “Quando dois ou três estiverem reunidos em meu nome” – novo fôlego embargado – “aí eu estarei”.

“Então ele estava!”.

Estava sim, filho. E permanecerá.

Tua beleza

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“Sabe, Aline, já passei por muita coisa, mas hoje reconheço que sou muito feliz!” A bisavó dos meus filhos me disse isso numa tarde fria de quinta-feira, concedendo que sua telinha amiga transmitisse um pouco de desenho animado.

Elencou a “gente boa” da família, a cada geração alargando o sorriso, até chegar aos nomes dos dois pitocos debruçados sobre o colchonete xadrez, segurando o queixo com as mãozinhas engorduradas de bombom.

O Pedro foi parar deitado ali vítima de mais uma imitação ao irmão. Antes disso, ele figurava outra cena poética ao lado da bisa: ela, sentada em sua velha poltrona, costas aquecidas por um xale de manufatura própria, preenchia fartamente o espaço disponível. Ele, loirinho agasalhado, pousou no braço da poltrona e, ao sentir pousar ao seu redor o braço da avó, acocorou-se ao lado dela, comportado e confortável.

Enquanto isso, uma bola de bazar meio murcha era bombardeada contra as muitas portas fechadas do longo corredor. Vinte a zero pro Davi – não que eu não saiba fazer gols, é que as regras do esporte não me favorecem: não vale gol sem goleiro (ainda que este tenha acabado de ser lindamente driblado); bateu na trave é fora (mesmo que a bola entre, não vale). O juiz – claro – é ele.

No meio da partida tive um generoso ataque de espirros e precisei sair para assoar o nariz. Quando voltei, meu adversário já havia sido seduzido pelo Doug Funny. Aproveitei a calma do momento para olhar ao meu redor. Estiquei a passadeira que fora amontoada pelos ágeis pezinhos do Davi, pensei no perigo que ela representa no cotidiano da minha avó e em como é, ao mesmo tempo, difícil e importante respeitar as preferências da(o)s m(p)atriarcas. Li com calma a Oração do Amanhecer, linda, profunda, tão verdadeira e tão fiel àquela parede.

Examinando o belo retrato de setenta anos, vi, sem querer, a razão da minha alergia respiratória: no interior do vidro convexo, claríssimos desenhos em forma de fogos de artifício formados por fungos, numa perfeição geométrica encantadora. Figuras muito compatíveis com as explosões de chutes e gritos produzidas, até havia poucos minutos, naquele ginásio improvisado.

O que fizemos naquela casa de vó foi aproveitar oportunidades: jogamos, os quatro, algumas partidas de jogo da memória. Transitamos, os três mais novos, de meias pelo decurso da tarde. Recebemos, uns dos outros, a atenção que merecemos: os dois pequenos em privilégios e mimos, eu, em conselhos e histórias, ela… em companhia e sopro de vida. Nos acolhemos e aceitamos enquanto família, nos permitimos o convívio de nossos exclusivos seres.

Na manhã seguinte, ao sair para a ginástica, a vovó não gostou muito do jeito que estava o cabelo. Mas tirou disso uma conclusão diferente da de sempre: “não faz mal, mesmo assim meus bisnetos gostam de mim”.

Justíssimo. Dia após dia ele lê na parede do corredor: “Reveste-me de Tua beleza, Senhor, e que no decurso deste dia, eu Te revele a todos”. Que bom que você viu, Honória, refletida no espelho do elevador, a beleza dEle!