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Desarmados

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“Mamãe, brinca comigo?”
Depois que essa pergunta ficou sem resposta pela quarta vez consecutiva, decidi olhar para a caixa que ele balançava ao meu lado. Respondi que brincaria, ao lembrar que anteontem ele já me pedira para jogar Pula Pirata. Ainda continuei digitando por alguns minutos enquanto o ouvia despejar as espadinhas pelo chão da sala e falar sozinho. Fez uma conversa entre o Pirata e o barril (nome artístico: “Balde”). Fez um barril com asas. Fez três espadinhas coloridas serem bebês. De um ano, de dois anos, de três anos.
Sentei ao seu lado questionando se espadas de três anos são mesmo bebês. Sim, eram. Tinha certeza? Tinha. De três anos? (empreguei todas as ênfases paralinguísticas). Respirou fundo enquanto espalmava a mãozinha esquerda: “na minha imazinaçã-ão!”. Ah, bom.
Ele cuidaria do Pirata e eu das espadas. Na minha imaginação esse jogo poderia ser muito sem graça, mas eu estava bem enganada. O Pirata emprestou uma sequência de tosses sequinhas de seu manipulador, e precisou entrar no barril para proteger-se do frio. Pediu então uma colherada de mel, e tossiu mais ainda ao tirar da boquinha a espada vermelha: era mel de pimenta! Recebeu, então, mel de verdade, vindo de uma espada amarela.
“Agora essas espadas é minhas e essas é suas.”
“Tá bom”. Enquanto organizava minhas armas, continuei: “Pi, deixa eu te ensinar um coisa?” Olhou com toda atenção. “Quando tem muitas espadas, a gente fala ‘as espadas são’. Sabe? Não ‘as espadas é’, é ‘as espadas são’. Fala?”
“Essas vermelhas são m… meus”.
“Minhas”.
“Não, minhas!”
Risos. “Isso mesmo, elas são suas”.
“E essa espada é o espeto do Pirata” – prendeu uma delas pelo cabo no orifício maior do barril, nas costas do personagem.
“Tá, a amarela” (sem justificativa, eu quis brincar mais com a linguagem).
“Não, vermelha”, disse sorrindo malandro.
“Olha bem, filho”, retruquei displicente.
Descruzou as pernas agilmente, ajoelhou, ficou de quatro, examinou a cor da espada com as sobrancelhas franzidas. Mantendo a expressão levantou o queixo e olhou para mim, bem nos olhos, sem nada a defender, apenas intrigado: “é vermelha.”
Uma gargalhada travessa escapou do meu plano de investigação e desmontou a apreensão do loirinho. Era vermelha, claro que era. Aproximei-me, rindo, de seu rostinho, lindo. Pronta para dar um cheiro. Ele afastou-se. “Deixa eu cheirar você, vai?” Ruidinho mimoso de consentimento, mas à proximidade da minha face só pôde fazer o que lhe foi mais natural. Estalou-me um beijinho bem doce, enquanto eu sentia seu tão querido perfume de filho.

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Billings

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O Bichinho do Posso Fazer Melhor, que vive entre minhas orelhas misturado aos parafusos, me permitiu hoje viver uma tarde atípica.

O Davi tem que entregar, no final dessa semana, uma lição de casa sobre a represa Billings. Minha primeira ideia quando a lição chegou foi promover um estudo do meio em família. Mas os finais de semana se passaram muito ricos e não conseguimos. A semana é sempre tão entupidinha de rotinas que eu deveria aproveitar a tarde da segunda-feira. Era pegar (a estrada) ou largar.

Decidi, muito sensata, que não me precipitaria a o Riacho Grande com os dois debaixo do sol a pino que precede boas chuvas, sem saber quantos chegariam lá dormindo. Vasculhei a internet e achei coisas até bem interessantes para fazer um bom trabalho. Pronto, tudo resolvido.

Mas amo contrariar a mim mesma, e ao primeiro “aonde a gente vai?” que ouvi dentro do carro, ao pegá-los na escola, comecei a desfiar a história da represa, do engenheiro que lhe emprestou o nome, da cidade… e fui até lá mostrar tudo para eles.

Ficaram onze quilômetros muito interessados nos dois lados da Anchieta, no filtro enorme que avistaram ao longe – a tal da “Sibesp” – nos restaurantes que existem em cima dos barcos, e no perigo que é nadar na prainha, onde as pessoas “se afogam até morrer”.

Desceram do carro com uma semente de maravilhamento tão pronta para brotar, que o Pi, quase gritando, passava o dedinho no muro de chapisco ao lado do qual estacionamos comemorando com o irmão: “é pintado! Olha Davi! Pintado com tinta!”.

Andaram rumo às águas saraivando perguntas, planos gastronômicos aguçados e protestos – como sempre. O olfato percebeu o “cheiro maravilhoso”, que parecia camarão frito. Os olhos contemplaram compenetrados o sem fim da superfície prateada da represa. Os ouvidos foram muito estimulados pela disputa entre os pagodes dos trailers concorrentes. O tato sentiu a areia molhada, pedregosa. (O sentido que não tem nome levou o coração à boca quando o Pi correu em direção a outra mulher que não sua própria mãe e, no mesmo instante em que percebeu o engano, assustou-se com uma pombinha barulhenta que voou a sua frente. Berreiro e choradeira encabulada).

Bem, estava faltando o paladar. Mas eu fiquei sem coragem de experimentar os quitutes disponíveis ao nosso redor e fui enrolando os dois com promessas. Que caíram por terra em seguida, quando o Davi gritou apontando para o carrinho de sorvetes de uma muito simpática jovem senhora.

Variadíssimos sabores, um realzinho cada um. Mesmo sabendo que minhas duas mãos seriam muito úteis livres de um picolé próprio, segui o impulso da gula e peguei um para cada um de nós.

Tudo corria bem, até pelas possibilidades ampliadas na dança dos sabores que sempre se impõe, até que apareceram as abelhas. Inicialmente numa pocinha de pingos de uva que vertiam do sorvete escolhido pelo Pedro. Depois, por toda parte. Em especial rondando as orelhas do Davi. Que começou a sapatear “igual a Laura na área de convivência quando um grilo pulou na saia dela”.

Em gargalhadas nervosas eu tentava limpar os rostos melados, manter os meninos calmos e ir andando para longe das abelhas. Não foi nada fácil. Ao Pedro ainda restavam 50 % das lambidas. Mas não era possível ficar ali com cara de paisagem. Então, antes de conseguirmos levantar nosso acampamento em grupo, orientei o Davi a “ir andando”. E ele saiu correndo. Fechando uma bicicleta sobre a qual dois grandalhões se acumulavam. Foi por um triz.

Já livre de parte do lixo açucarado, de mãos meladas dadas com os dois pequenos, rumo ao carro, surgiam gritinhos fruto do contágio do desespero.  Tanto que o Pi teve a iniciativa de jogar no lixo o último pedaço de picolé.

Camisetas imundas, meladas, suadas, mãozinhas piores. Só resisti ao impulso de jogar nelas a água da Billings que colhemos cientificamente numa garrafinha pet, porque… Bem, as mãos já estavam suficientemente sujas…

Cadeira amarela

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Pensei alto na véspera do dia que mudaria por vinte anos – e, então, para sempre – meu estilo de vida: “essas professoras vão se apaixonar por vocês!”.

O Davi ouviu e veio encolhido para o meu colo: “Aaaai, eu tenho muito medo de casar nessa idade!”. Abracei-o com beijos saindo do meio do riso. Entregá-lo nas mãos de uma nova prô não seria o maior dos desafios. Mas voltar para casa sem meu caçula, sim.

Organizei-me da forma que pude até anoitecer. Não queria afobação, ao menos no primeiro dia de aula. Desenhamos juntos nosso cartaz de estrelas, para premiar quem levantar da cama logo ao ser chamado, quem comer frutinha no café da manhã e quem não enrolar a mãe. Arrumamos os itens das mochilas, pus nome em cada objeto, e confesso que por mim teria escrito “π” em todo o material do loiro… mas a preferência do dono do nome foi pela forma extensa: “Pre-do”.

Coloquei-os na cama aplacando algumas dúvidas e disfarçando minhas mãos trêmulas e minha voz embargada. Não foi fácil, porque, já a meia luz, escolhi uma música muito significativa para cantar. “Vai ser aquela do balão, mamãe?”, certificou-se o Davi, bocejando uma intimidade estranha com o grupo musical da minha infância. “Essa mesma, filho, do Balão Mágico”.

Naquela noite tive tempo de assistir os olhos deles piscando cada vez mais devagar, até as pálpebras grudarem de vez. Enquanto isso, cantava baixinho:

 

“Amigo, companheiro de colégio

Hoje eu canto de alegria

Por, de novo, te encontrar

Nas férias eu brincava todo dia

Mas, no fundo, o que eu queria

Era mesmo estar aqui

Uma pipa no céu todo azul

É tão linda de se ver

E brincar de boneca, pra mim

Fez meu tempo não correr

Mas a escola é a luz

Que ilumina o caminho da gente

E é por isso, amiguinho

Que hoje eu estou tão contente

Toda volta pra escola é assim

Tanta história pra contar

Todo mundo querendo se ver

Todo mundo querendo falar

A escola é a luz

Que ilumina o caminho da gente

E é por isso, amiguinha

Que hoje eu estou tão contente”*

 

Para não fazer papelão e eletrizar os dois bem no meio de sua viagem para o mundo dos sonhos, tentei me lembrar das muitas vezes em que minhas amigas da escola cantaram essa musiquinha esculachando e ironizando uma suposta alegria pelo final das férias escolares…

Fui dormir cheia de gratidão, mas tive um pouco de insônia e um pesadelo daqueles para coroar a madrugada, no qual eu perdia o Pi no meio do oceano. Super simbólico.

Acordei cedo, sem ninguém menor de idade na nossa cama. Antes das sete estava pronta, e para utilizar o tempo antes de acordar meus príncipes, resolvi tentar fazer um conserto com chave de fenda. Por razões não difíceis de supor, abri um buraco na palma da mão e corri para dentro, pedindo consolo e Band-Aid pro marido. Pronto. Assumi minha fragilidade emocional naquela manhã. Eu tinha meus motivos.

Os meninos colaboraram muito para não aumentar ainda mais meu nível de cortisol, e receberam sete estrelinhas cada um. Saímos de casa sem nem um grito. Rezamos solenemente no caminho. Chegamos na escola pontuais. Duas moças lindas pegaram pelas mãos os átrios e ventrículos do meu coração, e, conversando amenidades com eles, subiram as escadas para o futuro.

Sim, tivemos antes disso um momento em que a artéria aorta do ventrículo esquerdo enroscou gravemente na safena da minha perna direita, emitindo “quero você”. A prô então anunciou brinquedos e amigos “lá em cima” e eu, com um fio de esperança, perguntei se as mães também poderiam subir. Resposta negativa. O que é certo é certo, as mães ficam aqui sentadas nessa cadeira amarela esperando os filhos voltarem. “Mas eu quero você”. “Eu também quero você, meu bebê, onde eu estava com a cabeça quando resolvi te meter nesse uniforme e te fazer descer do carro, vamos lá pro chão da nossa sala brincar, você é o Buzz e eu sou o Woody, vc pode ficar com poder de fogo hoje”. “Mas o Davi já subiu, vai lá encontrar com ele”.

Aprumou-se todo o meu pequeninho, dentro da camiseta regata do uniforme (que foi a única que ele aceitou vestir, apesar do friozinho) e declarou, olhando para a professora: “Eu quero ir na fase do Davi e depois na minha fase, tá bom?”, como se estivesse falando com alguém de confiança. E estava. Era a sua “pô”, a pessoa que vai ser sua maior referência extra-família nos próximos onze meses.

Fiquei ali sentada, assistindo ao mesmo filme que passou em janeiro do ano passado.** Sem a menor concentração.

Duas horas depois, a prô veio devolver uma nova amiga do Pi para seu casal de pais sorridentes e me perguntou um pouco reticente se eu precisava mesmo levá-lo embora, porque ele estava tãaao bem… Um pouco reticente eu tentei investigar as próximas atividades, a umidade relativa do ar e a distância em centímetros entre meus dois filhos lá dentro. Então, nada reticente, pulei da cadeira amarela e corri pra a academia de ginástica.

Voltei depois de uma hora, um pouquinho descabelada, e sentei de novo na cadeira amarela, pois aí era o meu lugar. Tic Tac.

Meia hora depois, a coordenadora sentou em sua própria cadeira amarela, ao meu lado, e me sugeriu que voltasse ao meio dia para buscar os dois. Estavam muito bem. Minha boca entortou. Minhas sobrancelhas também. Meu raciocínio também. “Você quer dar uma olhadinha neles?” “Demorou, bora subir lá, vistoriar todas as salas de aula, examinar pediculose em todos os couros cabeludos de todas as crianças de todas as turmas, aproveita e vai mandando tirarem os sapatos que eu vou procurar frieira”. ”Ah… não sei se é bom eles me verem…” Mas eles não precisavam me ver. E eu fui.

E então, se já cheguei no alto da escada semi-derretida, terminei de derreter na porta da sala: bati os olhos naquela cabeleira loira brilhando sob a lâmpada fluorescente da bibliotequinha. Serenamente, em silêncio, de costas para mim, ele virava as páginas de um livrão ilustrado, sentado numa mini-cadeira e tendo ao lado um mini-amigo. Eu ficaria olhando aquela paisagem por mais algumas horas, levassem para lá uma cadeira amarela! Mas sabia que meus soluços infeririam na cena, então tratei de pedir logo para ver o Davi. Foi quando desmoronei. Atrás de mim localizava-se a brinquedoteca, dentro da brinquedoteca localizava-se um fogãozinho todo equipado, e diante do fogãozinho localizava-se um menino mexelento, interpretando sozinho, muito animado, alguma saborosíssima receita gourmet.  Era aquele o primeiro-pedaço-de-mim-que-saiu-andando-por-esse-mundo-afora-com-o-cabelo-todo-arrepiadão-pra-cima-uns-anos-atrás. Dei ré soluçando, diante dos rostos enigmáticos de umas quatro professoras. A coordenadora segurou no meu ombro e, bastante sem graça, eu disse: “se os filhos não choram, a mãe chora…”. Sim, eu voltaria ao meio dia.

Saí fugida, sem qualquer planejamento. Àquela altura, eu tinha vinte e cinco minutos para almoçar. Marido ocupado, mãe ocupada, pai ocupado. Embora, sem sombra de dúvida, merecêssemos todos nós (muito especialmente eu) o Ráscal, fui sozinha mesmo para o Burger King.

Voltei em tempo. Esperei, com meu coração parado na mão, que descessem pela rampa florida e iluminada as quatro cavidades cardíacas que o fariam voltar a bater. O Davi rapidamente soltou um protocolar “oi mamãe” e me deixou beijá-lo. Mas o Pi, imóvel ao lado das pernas da prô, me deu uma bronca: “não era pra você ficar aqui! Era pra você ficar na cadera malela!”. Beijei mesmo assim. Limpou as bochechas com a manguinha do blusão. Engoli seco e constatei: a mamãe não conseguiu fazê-lo vestir o agasalho. Mas a “pô” conseguiu. Pô!

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*“Amigo e Companheiro” (“A turma do Balão Mágico”, 198…), disponível em http://www.youtube.com/watch?v=u4cvpWEBYqg

** https://cotidiamo.wordpress.com/2012/01/19/pendurada-num-cipo/

Ao sabor do futebol

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Tanto me exigiu e me pediu mil coisas, que com a fúria da provocação eu disse sim ao futebol. Levantei do sofá tonta com o contraste da moleza de até então, e disse palavras irônicas e impacientes.

Procurei a bola no lugar errado, bati uma porta barulhenta e vi meu filho de olhos arregalados e sorriso excitado assistir meus movimentos agressivos.

Chutei. Com toda a força da minha perna direita, lábios apertados. Uma bomba categórica, como nos velhos tempos. Os três primeiros lances do jogo foram gols meus, estourados no muro de chapisco.

O anjo da guarda, com a faixa de capitão, protegeu o nariz do Davi e a minha consciência de jogadas perigosas.

“Você tá gostando?”; “Nossa, mamãe, você joga muito bem!”; “Puxa, você conhece muito as regras do futebol”, ele me dizia elogios, voz querida e sedutora, gratidão e remorso misturados. O jogo terminou doze a um pra mim. Antes de perder mais feio ele interrompeu a partida, divulgando os resultados, com uma positividade inventada ali mesmo.

Ouvindo-o narrar o jogo, com um estilo tão menino e tão universal, deixei ecoar em minha memória o som forte das trombadas da bola murcha na parede. Estava ali com toda a força dos meus músculos revoltados (até pelo arrependimento de não ter dito um sim livre e natural). Mas o que me fez jogar tão bem não foram os meus tênis rosa choque ou meu merecido condicionamento físico. O que contribuiu na qualidade do meu desempenho foi a memória muscular do espaço, a memória auditiva do som do gol, a memória sensorial do sol no rosto e, principalmente, a memória emocional da competitividade que menininhos vaidosos e competitivos provocam, desde sempre, em meu ser.

Transpirando e pirando, corri, pulei, mirei, chutei e – o mais difícil – segurei o sorriso que insistia em surgir no cantinho dos meus lábios a cada gol sortudo, a cada bomba eficaz e a cada vez que via o Davi admirado.

“Quando o menino joga futebol e corre muito, sai água da cabeça”, me disse hoje o Pedro, explicando, como ninguém, o suor. Nesta partida relâmpago, não eliminei apenas água salgada, mas também culpa amarga, críticas ácidas, humor azedo e muitas, muitas doces memórias.

Bonança

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Dei no Davi uma briga desproporcional.

As desculpas vieram de onde não deviam e, agachada diante dele, procurei desenrolar-me daquela passional injustiça.

Pingos nos ii, perguntei: “porque você não me olha nos olhos?”. Atendeu de baixo para cima, queixinho no peito. Vendo meu sorriso, empinou um pouco mais o nariz.

“O que você tá vendo bem no meio do meu olho?”.

Prestou bem atenção e quadradinhos preciosos de marfim cravados na gengivinha doce vieram à luz, num sorriso brilhante: “Eu!”.

Sentenciei, escutando surpresa cada palavra inspirada que eu mesma dizia: “Aparece pelo olho o que a pessoa tem dentro do coração”.

Aproximou-se num impulso de aconchego. Caímos juntos no chão. Doeu. Rimos abraçados, gargalhada retroalimentada pelo alívio da reconciliação. E pelo desajeitado do tombo também.