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Horas e horas

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– Mamãe, o que precisa para ser o melhor jogador de futebol do mundo?
– Treino… Sorte… Talento.
– Só?
– Olha, filho… Uma vez eu li que quando a pessoa se dedica por dez mil horas a uma coisa, ela fica excelente nisso.
– Dez-mil-ho-ras?!
– É…
– Ah… eu já tenho, né? Eu jogo futebol todo dia…
Exclamei e ficamos fazendo contas.
– Sabe, filho, tem uma coisa super importante também, que a mamãe não falou. Pra ser um ótimo jogador tem que ter humildade, sabe o que é isso?
– Mais ou menos.
– É quando a gente sabe o que falta. É quando a gente vai aprendendo mais e mais sobre uma coisa e percebe que tem muito mais ainda para aprender. A pessoa humilde vê o que ela já consegue fazer e fica feliz, mas sabe que pode melhorar em muitas coisas.


(No dia seguinte, o irmão caçula observa, na ilustração de um livro, o personagem constrangido na aula de hidroginástica.
Irmão: – Porque ele tá com essa cara?
Mãe: – Porque só tem senhoras…
E ele, munido do diálogo da véspera, intervém:
– Você diz só?! Cem horas é muito tempo!)

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#espntemliladia1

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E
Se
Puderem
Notar,
tem Lila aqui em casa querendo
assistir comédias românticas,
esquecer a voz dos mil homens que falam de Copa noite e dia,
jogar jogos em família
(não apenas futebol de botão ou futebol de peteleco ou FIFA 14 no Playsatation),
mudar a decoração verde e amarela,
sumir com as figurinhas repetidas espalhadas em cada cantinho,
dar um tempo na pipoca e na gastronomia junky.
Peço uns quatro aninhos para desanuviar.
Dois mil e dezoito beijos pra quem compatilhou conosco um mês de tardes gostosas, emoções danadas, sobrenomes gregos engraçados e um pouco de distração das coisas duras da vida.

Ao sabor do futebol

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Tanto me exigiu e me pediu mil coisas, que com a fúria da provocação eu disse sim ao futebol. Levantei do sofá tonta com o contraste da moleza de até então, e disse palavras irônicas e impacientes.

Procurei a bola no lugar errado, bati uma porta barulhenta e vi meu filho de olhos arregalados e sorriso excitado assistir meus movimentos agressivos.

Chutei. Com toda a força da minha perna direita, lábios apertados. Uma bomba categórica, como nos velhos tempos. Os três primeiros lances do jogo foram gols meus, estourados no muro de chapisco.

O anjo da guarda, com a faixa de capitão, protegeu o nariz do Davi e a minha consciência de jogadas perigosas.

“Você tá gostando?”; “Nossa, mamãe, você joga muito bem!”; “Puxa, você conhece muito as regras do futebol”, ele me dizia elogios, voz querida e sedutora, gratidão e remorso misturados. O jogo terminou doze a um pra mim. Antes de perder mais feio ele interrompeu a partida, divulgando os resultados, com uma positividade inventada ali mesmo.

Ouvindo-o narrar o jogo, com um estilo tão menino e tão universal, deixei ecoar em minha memória o som forte das trombadas da bola murcha na parede. Estava ali com toda a força dos meus músculos revoltados (até pelo arrependimento de não ter dito um sim livre e natural). Mas o que me fez jogar tão bem não foram os meus tênis rosa choque ou meu merecido condicionamento físico. O que contribuiu na qualidade do meu desempenho foi a memória muscular do espaço, a memória auditiva do som do gol, a memória sensorial do sol no rosto e, principalmente, a memória emocional da competitividade que menininhos vaidosos e competitivos provocam, desde sempre, em meu ser.

Transpirando e pirando, corri, pulei, mirei, chutei e – o mais difícil – segurei o sorriso que insistia em surgir no cantinho dos meus lábios a cada gol sortudo, a cada bomba eficaz e a cada vez que via o Davi admirado.

“Quando o menino joga futebol e corre muito, sai água da cabeça”, me disse hoje o Pedro, explicando, como ninguém, o suor. Nesta partida relâmpago, não eliminei apenas água salgada, mas também culpa amarga, críticas ácidas, humor azedo e muitas, muitas doces memórias.