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Matinal

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Passinhos descalços para perto.
P: “Mamãe?”
Continuei de olhos fechados, imóvel, encolhida na minicama. (Havia ido parar ali para terminar minha noite de sono, já que um corpinho mexelento e de pés gelados tinha ocupado boa parte da minha cama cedo demais.)
“Ela tá dormindo, Davi.”
“Então fala mais alto.”
“Mamãae?”
Permaneci parada.
“Mamãaae?”
A voz dele ainda estava bem baixa, dava para disfarçar.
“Ela não acorda, disse sussurrado, dividindo o achado com o irmão. Chama você.”
“Mamãe?” – outra cor de voz invocou.
Inspirei sonoro, foi minha forma de segurar o sorriso que a boca queria fazer.
“Mamãe, bom dia” – já se preparava para iniciar a lista de pedidos de autorização (a gente pode ver televisão? A gente pode jogar no computador?), mas parou diante da minha imobilidade.
Passos duros para longe. Estava atenta ao divertido movimento dos dois, decidindo se e como me acordar para começarem a parte do dia que requer a autorização parental. Acho que cochilei. Até que os ouvi brincando e discutindo as diferenças dos amigos da escola.
“Vai chamar a mamãe e pega meu copo d’água”, ouvi com estranheza a ordem dominadora de um igual ao igual menor. A autoridade de irmão mais velho também já fora inquestionável no meu tempo de criança. Não dura para sempre.
Passinhos para perto.
“É… mamãe?”
Não respondi.
“A gente pode jogar no computador?”
Sem resposta, respirou fundo. Devia estar esticado na pontinha dos pés, espiando minha expressão do rosto, mas segurei os músculos e a curiosidade parados.
Massageou meu ombro coberto por seu lençolzinho infantil. Não reagi, massageou com mais vigor, mãozinhas delicadas.
“Primeiro tem que ir no banheiro, é?”, inferiu, experiente, e foi passar a informação.
“Primeiro tem que ir no banheiro.”
“Cadê a minha água?”
“Ah, esqueci.”
“Então pega, né?!”, não perdoou o subchefe. Voltaram os dois para o quarto.
“Chama ela, Pi.”
“Mamãe?”, tentou novamente, tímido.
Senti o silêncio ao meu lado, respirando pensativo. Imaginei a cena: cabelos despenteados, rostinhos remelentos, trocando olhares.
“Ela não escuta”.
“Mais alto, então!”, sussurro ordenante.
“Mas aí ela vai acordar!”
“A gente quer que ela acorde”.
Foi difícil segurar o riso. Lembrei de uma noite dessas, em que o pequeno gargalhou dormindo entre mim e o pai, num final de madrugada. Gargalhei eu, de olhos fechados.
“Tá rindo!”, surpreendeu-se divertido. “Tá dormindo rindo!”
O maior deve ter vindo espiar, mais de perto. Intrigados, continuaram falando, vozinhas matinais, e eu ria sempre que preciso fosse.
Ao perceber meu bom humor, relaxaram, um subindo em mim e o outro abrindo meu olho direito com os dedinhos frios.
Fim do teatro. Fim do descanso.

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Antevéspera

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Não tenho soluços com muita frequência. Mas hoje exagerei no sorvete, já passava da hora de dormirem. E fui levá-los para a cama dando tranquinhos.
Escolhemos livrinhos natalinos – tão importante é a véspera do Natal, que arrasta seu valor para a antevéspera. Queria silêncio e atenção para ler uma crônica nova, daquelas que me emocionam. Mas eu mesma não me deixava começar, com o burp subindo descompassado.
Já ficando irritada, tampei nariz e boca, bochechas infladas, numa tentativa de acalmar meu diafragma desregulado. Riram de mim. Ri deles, corados de dezembro, penteados e sonolentos.
Resolvi começar mesmo assim e entre sílabas e saltitos li para meus meninos lindos, intrigados com meus pulos e com a história do Papai Noel que foi tomar cerveja na cozinha. O pequeno, a cada engraçada interrupção do meu fluxo de voz, chegava mais perto seus olhos atentos e arregalados. O grande, a cada gargalhada conjunta, deixava exalar sapequice e um riso maduro que ano passado não estava ali.
Olhamo-nos e rimo-nos, divertimo-nos; tive um bom álibi para disfarçar os nós que surgiam em minha garganta turbulenta – quer pelas palavras de Veríssimo, quer pela cena querida: pijaminhas de trás para a frente e rostinhos contentes só esperando disparar a próxima gargalhada.
Já em vinte e três de dezembro aconteceu a nossa noite feliz.

Bonança

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Dei no Davi uma briga desproporcional.

As desculpas vieram de onde não deviam e, agachada diante dele, procurei desenrolar-me daquela passional injustiça.

Pingos nos ii, perguntei: “porque você não me olha nos olhos?”. Atendeu de baixo para cima, queixinho no peito. Vendo meu sorriso, empinou um pouco mais o nariz.

“O que você tá vendo bem no meio do meu olho?”.

Prestou bem atenção e quadradinhos preciosos de marfim cravados na gengivinha doce vieram à luz, num sorriso brilhante: “Eu!”.

Sentenciei, escutando surpresa cada palavra inspirada que eu mesma dizia: “Aparece pelo olho o que a pessoa tem dentro do coração”.

Aproximou-se num impulso de aconchego. Caímos juntos no chão. Doeu. Rimos abraçados, gargalhada retroalimentada pelo alívio da reconciliação. E pelo desajeitado do tombo também.