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Gratidão

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Correndo moleque até o portão da casa dos avós, veio receber os amigos. Menor degrau da escadinha, trepou, pulou, pedalou e rolou de rir tanto quanto os visitas.
Prendendo o pula-pula entre meus joelhos, deixei segurar minhas mãos com suas mãozinhas quentes, e vi os pezinhos encobertos pela barra exagerada da calça escalarem até o topo. Pulou animada e deliciosamente, fios grossos de cabelo dançando com ele. Sorrindo rasgado, olhando em meus olhos. Gritava gritinhos finos e, covinhas a postos, sorria mais um pouco direto para dentro da minha alma.
Chegada a hora do lanche, sentou-se sobre almofada e cadeira, quase alcançando a mesa com o queixo. Pedia insistentemente aos avós que o aproximassem, e muitos movimentos depois entenderam que ele queria chegar mais perto do amiguinho loiro – e não da refeição. Satisfeito com a aproximação, segurou a branca mão do menino da cadeira ao lado. “Ele é seu amigo?”, respondeu que sim. Foi quanto contei: “a mãe dele e a sua mãe são amigas igual a vocês”. Boquinha abriu intrigada. “Quem é a mãe dele?”, provoquei. E vi elevar-se centímetro em minha direção um dedinho de unha desenhada.
Na despedida pedi um abraço, e no quentinho macio do seu peito senti matar um pedaço da saudade que tenho de ter amiga pequena pra tomar lanche de mãos dadas. De pular no pula-pula flutuando num olhar confiado. Misturei-me no abraço dele e ele não teve pressa. Tanta ternura, atravessando gerações. Bateu mãozinha em minhas costas, me deixando suspirar seu colo. Até me preencher de gratidão.

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Cadeira amarela

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Pensei alto na véspera do dia que mudaria por vinte anos – e, então, para sempre – meu estilo de vida: “essas professoras vão se apaixonar por vocês!”.

O Davi ouviu e veio encolhido para o meu colo: “Aaaai, eu tenho muito medo de casar nessa idade!”. Abracei-o com beijos saindo do meio do riso. Entregá-lo nas mãos de uma nova prô não seria o maior dos desafios. Mas voltar para casa sem meu caçula, sim.

Organizei-me da forma que pude até anoitecer. Não queria afobação, ao menos no primeiro dia de aula. Desenhamos juntos nosso cartaz de estrelas, para premiar quem levantar da cama logo ao ser chamado, quem comer frutinha no café da manhã e quem não enrolar a mãe. Arrumamos os itens das mochilas, pus nome em cada objeto, e confesso que por mim teria escrito “π” em todo o material do loiro… mas a preferência do dono do nome foi pela forma extensa: “Pre-do”.

Coloquei-os na cama aplacando algumas dúvidas e disfarçando minhas mãos trêmulas e minha voz embargada. Não foi fácil, porque, já a meia luz, escolhi uma música muito significativa para cantar. “Vai ser aquela do balão, mamãe?”, certificou-se o Davi, bocejando uma intimidade estranha com o grupo musical da minha infância. “Essa mesma, filho, do Balão Mágico”.

Naquela noite tive tempo de assistir os olhos deles piscando cada vez mais devagar, até as pálpebras grudarem de vez. Enquanto isso, cantava baixinho:

 

“Amigo, companheiro de colégio

Hoje eu canto de alegria

Por, de novo, te encontrar

Nas férias eu brincava todo dia

Mas, no fundo, o que eu queria

Era mesmo estar aqui

Uma pipa no céu todo azul

É tão linda de se ver

E brincar de boneca, pra mim

Fez meu tempo não correr

Mas a escola é a luz

Que ilumina o caminho da gente

E é por isso, amiguinho

Que hoje eu estou tão contente

Toda volta pra escola é assim

Tanta história pra contar

Todo mundo querendo se ver

Todo mundo querendo falar

A escola é a luz

Que ilumina o caminho da gente

E é por isso, amiguinha

Que hoje eu estou tão contente”*

 

Para não fazer papelão e eletrizar os dois bem no meio de sua viagem para o mundo dos sonhos, tentei me lembrar das muitas vezes em que minhas amigas da escola cantaram essa musiquinha esculachando e ironizando uma suposta alegria pelo final das férias escolares…

Fui dormir cheia de gratidão, mas tive um pouco de insônia e um pesadelo daqueles para coroar a madrugada, no qual eu perdia o Pi no meio do oceano. Super simbólico.

Acordei cedo, sem ninguém menor de idade na nossa cama. Antes das sete estava pronta, e para utilizar o tempo antes de acordar meus príncipes, resolvi tentar fazer um conserto com chave de fenda. Por razões não difíceis de supor, abri um buraco na palma da mão e corri para dentro, pedindo consolo e Band-Aid pro marido. Pronto. Assumi minha fragilidade emocional naquela manhã. Eu tinha meus motivos.

Os meninos colaboraram muito para não aumentar ainda mais meu nível de cortisol, e receberam sete estrelinhas cada um. Saímos de casa sem nem um grito. Rezamos solenemente no caminho. Chegamos na escola pontuais. Duas moças lindas pegaram pelas mãos os átrios e ventrículos do meu coração, e, conversando amenidades com eles, subiram as escadas para o futuro.

Sim, tivemos antes disso um momento em que a artéria aorta do ventrículo esquerdo enroscou gravemente na safena da minha perna direita, emitindo “quero você”. A prô então anunciou brinquedos e amigos “lá em cima” e eu, com um fio de esperança, perguntei se as mães também poderiam subir. Resposta negativa. O que é certo é certo, as mães ficam aqui sentadas nessa cadeira amarela esperando os filhos voltarem. “Mas eu quero você”. “Eu também quero você, meu bebê, onde eu estava com a cabeça quando resolvi te meter nesse uniforme e te fazer descer do carro, vamos lá pro chão da nossa sala brincar, você é o Buzz e eu sou o Woody, vc pode ficar com poder de fogo hoje”. “Mas o Davi já subiu, vai lá encontrar com ele”.

Aprumou-se todo o meu pequeninho, dentro da camiseta regata do uniforme (que foi a única que ele aceitou vestir, apesar do friozinho) e declarou, olhando para a professora: “Eu quero ir na fase do Davi e depois na minha fase, tá bom?”, como se estivesse falando com alguém de confiança. E estava. Era a sua “pô”, a pessoa que vai ser sua maior referência extra-família nos próximos onze meses.

Fiquei ali sentada, assistindo ao mesmo filme que passou em janeiro do ano passado.** Sem a menor concentração.

Duas horas depois, a prô veio devolver uma nova amiga do Pi para seu casal de pais sorridentes e me perguntou um pouco reticente se eu precisava mesmo levá-lo embora, porque ele estava tãaao bem… Um pouco reticente eu tentei investigar as próximas atividades, a umidade relativa do ar e a distância em centímetros entre meus dois filhos lá dentro. Então, nada reticente, pulei da cadeira amarela e corri pra a academia de ginástica.

Voltei depois de uma hora, um pouquinho descabelada, e sentei de novo na cadeira amarela, pois aí era o meu lugar. Tic Tac.

Meia hora depois, a coordenadora sentou em sua própria cadeira amarela, ao meu lado, e me sugeriu que voltasse ao meio dia para buscar os dois. Estavam muito bem. Minha boca entortou. Minhas sobrancelhas também. Meu raciocínio também. “Você quer dar uma olhadinha neles?” “Demorou, bora subir lá, vistoriar todas as salas de aula, examinar pediculose em todos os couros cabeludos de todas as crianças de todas as turmas, aproveita e vai mandando tirarem os sapatos que eu vou procurar frieira”. ”Ah… não sei se é bom eles me verem…” Mas eles não precisavam me ver. E eu fui.

E então, se já cheguei no alto da escada semi-derretida, terminei de derreter na porta da sala: bati os olhos naquela cabeleira loira brilhando sob a lâmpada fluorescente da bibliotequinha. Serenamente, em silêncio, de costas para mim, ele virava as páginas de um livrão ilustrado, sentado numa mini-cadeira e tendo ao lado um mini-amigo. Eu ficaria olhando aquela paisagem por mais algumas horas, levassem para lá uma cadeira amarela! Mas sabia que meus soluços infeririam na cena, então tratei de pedir logo para ver o Davi. Foi quando desmoronei. Atrás de mim localizava-se a brinquedoteca, dentro da brinquedoteca localizava-se um fogãozinho todo equipado, e diante do fogãozinho localizava-se um menino mexelento, interpretando sozinho, muito animado, alguma saborosíssima receita gourmet.  Era aquele o primeiro-pedaço-de-mim-que-saiu-andando-por-esse-mundo-afora-com-o-cabelo-todo-arrepiadão-pra-cima-uns-anos-atrás. Dei ré soluçando, diante dos rostos enigmáticos de umas quatro professoras. A coordenadora segurou no meu ombro e, bastante sem graça, eu disse: “se os filhos não choram, a mãe chora…”. Sim, eu voltaria ao meio dia.

Saí fugida, sem qualquer planejamento. Àquela altura, eu tinha vinte e cinco minutos para almoçar. Marido ocupado, mãe ocupada, pai ocupado. Embora, sem sombra de dúvida, merecêssemos todos nós (muito especialmente eu) o Ráscal, fui sozinha mesmo para o Burger King.

Voltei em tempo. Esperei, com meu coração parado na mão, que descessem pela rampa florida e iluminada as quatro cavidades cardíacas que o fariam voltar a bater. O Davi rapidamente soltou um protocolar “oi mamãe” e me deixou beijá-lo. Mas o Pi, imóvel ao lado das pernas da prô, me deu uma bronca: “não era pra você ficar aqui! Era pra você ficar na cadera malela!”. Beijei mesmo assim. Limpou as bochechas com a manguinha do blusão. Engoli seco e constatei: a mamãe não conseguiu fazê-lo vestir o agasalho. Mas a “pô” conseguiu. Pô!

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*“Amigo e Companheiro” (“A turma do Balão Mágico”, 198…), disponível em http://www.youtube.com/watch?v=u4cvpWEBYqg

** https://cotidiamo.wordpress.com/2012/01/19/pendurada-num-cipo/

Bodas de açucar

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– Meninos, hoje nossa oração vai ser por uma coisa muito especial. Hoje é dia oito de setembro, vocês sabem o que aconteceu seis anos atrás?

– Eu sei! – o grito empolgado do Davi me deixou toda importante. – Falou na minha escola! É sobre um imperador!

Olhei para o Digo com um sorriso cúmplice. Ouvimos nosso sabidão continuar:

– Ele chamava Dom Pedro – inspirou interrompendo a frase e olhou para o irmão, abaixando o tom de voz – igual seu nome, Pi!

– É, igual meu nome, Davi!

Eu e o Digo rimo-nos cúmplices. Tentamos fazer a História continuar, mas o Davi proclamou sua independência dela e começou a discursar sobre os nomes dos familiares e amigos, e a soletrar aqueles que já sabe escrever.

– Então, meninos – disse eu, retomando meu desejo de agradecer a Deus – hoje é um dia muito importante, porque faz seis anos que a nossa família começou. Vocês sabem o que aconteceu nesse dia?

– O primeiro nasceu.

– Não, filho, duas pessoas já tinham nascido.

– Eu e o Pi!

– Não, vocês ainda não, vocês são os mais novos.

– Por isso que a vovó Neusa já é velha… – vinha ele de novo, desviando o rumo da prece.

– Então, a vovó Neusa já tinha nascido mesmo – resolvi ir direto ao ponto -, esse foi o dia que o filho dela casou comigo! Foi o dia que o papai casou com a mamãe! Alguém quer fazer um agradecimento por causa disso?

– Eu quero agadecê! Obgadu que vocês casaram e eu também quero casar com vocês!

– Ih, mas não dá pra casar de três, será que dá?

Gargalhamos cúmplices, nós dois, esposos e pais desses dois dons de Deus.

E, seis anos depois, podemos reiterar o clamor daquela grande noite: “Que a família que hoje se constitui, e todas as famílias do mundo, vivam em paz e unidade, sob a luz divina que iluminou Sant’Ana e São Joaquim, Maria e José. Senhor, por intercessão de Maria Menina, ouvi-nos.”

Plenitude

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O protetor solar infantil faz minhas mãos arderem porque cheiro de uva. Cheiro não, aroma, palavra pelo qual o Davi está perdidamente apaixonado.

Estranho lembrar isso em pleno mês de julho, mas esta tarde tivemos férias de verão no clube. Céu azul, sol ardente, filhos saudáveis brincando com água e areia. Até tomar um açaí nós arriscamos. Foi bom!

Vi o Pedro ter medo de descer pelo tobogã sem dar as mãos. Depois o vi subir pela mesma rampa com todo equilíbrio e coragem, “sem azuda!”. Ensinei-o sobre o perigo que é passar atrás das balanças, e dessa vez eu acho que ele registrou. Já abre as torneiras sozinho e, para meu estupefato orgulho, as fechas em seguida.

Vi o Davi ter vergonha de pedir um bolinho de lama às três meninas grandes que brincavam juntas. Depois o vi chegar com um deles na palma da mão e um sorriso largo no rosto. Brincou de pega-pega com novos amigos, correndo deles e de mim. Deu todo seu suor e depois disso ficou muito dócil aos meus limites.

Só não foi de verão o vento frio que começou a gelar as camisetinhas enlameadas… Antes das cinco já estavam cheirando a sabonete e exibindo aquela carinha glostora deliciosa.

Brincaram juntos de “siconde-conde” enquanto eu lia e a tarde caía.  Trouxeram-me folhas secas. Insistiram que eu as colocasse no cabelo. Despistei-os tirando meu elástico e deixando-me derreter pelos sorrisos encantados que surgem em seus rostinhos angelicais quando eu faço isso. E em seguida assisti suas gargalhadas nervosas diante da “mãe sem cara”.

Entramos no carro jantados com as galinhas e gratos pela companhia um do outro. Conversando comigo sobre as igrejas que quer conhecer, o Davi dormiu no caminho. O Pi chegou em casa bem acordado, lúcido a ponto de discutir no elevador com a vizinha que perguntou se ele também já iria dormir. Pegou no sono em sua caminha, com os pés de pelúcia do Tyrone sobre os olhinhos.

E eu já estou com saudade dos pescocinhos cheirosos de filho, dos sotaques argumentativos e dos neologismos, do jeito como me beijam e abraçam e de seus olhos brilhantes fincados nos meus. Plenitude.

 

Atemoia

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Primeiro, eu percebi a contração desnecessária dos músculos da minha testa. Em seguida, olhei no espelho retrovisor do carro e vi minha cara de má. Por quê?

Então, parada no sinal, respirei fundo e tirei a corcunda, e resolvi começar o exercício de reconhecer a positividade.

E não é que a luz do farol combinava direitinho com aquelas flores bem vermelhas e peludas da árvore exatamente atrás dela? Bonito! Bonitas todas as árvores, e no meu caminho são muitas.

Que interessante os muros das casas vizinhas comporem a cara da rua sem que haja alguma reunião municipal para isso, e os cachorros atravessarem na faixa de segurança (por vezes com mais responsabilidade que os pedestres). E aquele jardineiro descendo da escada, às oito da manhã, a que horas será que ele subiu?

Achei legal andar a pé do estacionamento até a academia e gostei de contar moedas para completar um real. Até a dor na perna esquerda me fez feliz por senti-la ativa.

Dei-me o direito de deixar o carro na vaga da vizinha por dez minutos; comemorei encontrar meu filho de cueca seca; passei batom violeta; abri a janela do quarto para a luz do dia animar meu marido.

Decidi comprar atemoia pela primeira vez e resolvi zerar a quilometragem do carro porque hoje me pareceu um bom dia para ver quanto ele está rendendo.

Pareceu também um bom dia para matricular as crianças no esporte e aproveitar a tarde arremessando-as na piscina de bolinhas do clube. O Davi corre com o polegar dos pés um pouquinho levantado e o Pi trança tanto as pernas ao correr, que poderia acabar dando meia volta. Eles dois babam e tem os dentes mais lindos do mundo. O eco da voz deles dentro do tubogã me faz sorrir inspirando e gosto da moldura que o capuz dá ao rostinho deles. São muito fraternos e proíbem injustiças da minha parte – o que hoje eu recebi com muita gratidão, porque de que me adianta ser injusta?

Não fui eu que fiz as uvas do nosso lanche estarem doces, nem fui eu que desenhei as sobrancelhas dos meninos. Não fui eu que me dei dois filhos homens, não fui eu que determinei a cota de sensibilidade à qual teria direito, não fui eu que graduei a ternura do sol desta tarde.

O que eu precisei foi lembrar que não sou simplesmente uma cara séria e um monte de tarefas a cumprir e que meu coração quer mais do que apenas cada coisa em seu lugar.

Cenas de solidariedade por ocasião da Páscoa*

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A imagem do escuro/claro foi a tônica com o Davi nesta Páscoa. Ele entendeu muito bem que às três horas da tarde na sexta-feira santa, quando Jesus morreu, ficou tudo escuro e “chuva, e céu preto e monstros e fantasmas”; a manhã da ressurreição, por outro lado, foi cheia de luz “e as pessoas ficaram felizes porque têm Jesus no coração”.

Tendo introduzido o tema da luz e das sombras, posso contar que durante esta quaresma o lustre de nossa sala queimou, e fomos ao supermercado, eu e os meninos, comprar uma lâmpada para reposição. Depois de passar três vezes pelo mesmo corredor respondendo a infinitas perguntas sobre pneus, lanternas e porque crianças não podem ganhar brinquedos para cachorros, resolvi perguntar para uma moça se ela sabia onde ficavam as lâmpadas.

Enquanto ela me respondia “bem ali”, apontando para algum ponto exatamente debaixo do meu nariz, percebi que ela vestia uma camiseta do uniforme da escola onde estudei durante oito anos. Perguntei o nome dela e me vi abraçando-a, enquanto exclamava “a minha professora de Educação Física!”.

Apresentei meus filhos a ela, e ela a meus filhos. O Pi pouco mudou, continuou sentado no carrinho com sua carinha branca. O Davi começou a piar enquanto eu pedia que ele dissesse “oi”, e a rosnar quando a moça começou a explicar os atrativos da escola para crianças de seu tamanho. Levemente frustrada, me despedi.

Reencontramos-nos minutos depois, na fila do caixa, quando a professora estacionou seu carrinho atrás de nós. Uma senhora pagava sete ou oito contas em nossa frente, o Davi começou a comentar sobre os ovos de Páscoa que forravam a loja, a apontar para seus eleitos, a pedir um deles – o azul – e a fazer uma cena inesquecível de birra. Eu mantive a calma, na verdade estava mais preocupada com a contrariedade por passar por isso às vistas de uma professora que há anos eu não via, do que em driblar os maus modos do menino. 

Quando o constrangimento pela gritaria do Davi, já deitado no chão, após ter usado todos os seus argumentos sensatos (como me dizer “mamãe, estica seu braço e pega o ovo pra mim, você precisa ter coragem!”), transbordou de mim e chegou à minha mestra, ela comentou algo sobre a demora da fila e levou seu carrinho de compras para outro caixa, bem longe dali. Semi-ufa.

Mas a birra continuou e contagiou o irmão. Os dois chorando-gritando, eu começando a considerar impossível passar todos os itens do carrinho pelo caixa, ensacolá-los  com o Pi no colo, pagar e chegar até o carro sem danos à  integridade física de ao menos um de nós. Perguntei à senhora de nossa frente se ainda tinha muitas contas para pagar e ela respondeu, educada, que “não, só mais essas três”. Devo ter feito uma cara de pavor, embora tenha procurado manter minha expressão neutra.

Instantes depois, vi que a senhora mexia os lábios olhando para mim. (Exato, poderia ter dito que ouvi a senhora falando comigo, mas de início não ouvi absolutamente nada além do berreiro de minha prole). Cheguei mais perto e detectei que ela havia interrompido seu pagamento e se oferecia para me ajudar. Começou a pôr meus itens na esteira antes que eu pudesse aceitar. Enquanto isso começou a contar para o Davi que “todos aqueles ovos de Páscoa na verdade estão vazios, porque o coelhinho ainda está fazendo o chocolate, que está mole e só fica pronto na Páscoa”.

Nunca me senti tão bem em relação a uma história engrupidora de menores; os dois pararam de chorar, eu primeiro endossei tudo o que minha consciência permitiu (a outra parcela transformei em “é mesmo?”s), enquanto ela empacotava nossas coisas.  Terminei de pagar e encher o carrinho me desfazendo em gratidão, ela distribuiu “de nada”s sinceros e ainda completou dizendo que “não somos nada sozinhos” e que “nessa vida é um por todos”. Fez todo o sentido e eu tive uma certeza muito encaixada de que também agirei assim quando as crianças choronas da fila não forem as minhas.

Saí de lá sorrindo e serena, tocada com a humanidade que tinha acabado de me encontrar. 

Voltando à luz e às trevas: muito embora tivessem dormido apenas oito horas e durante este período acordado, ao todo, cinco vezes, os meninos despertaram ao primeiro raio de sol nesta manhã de Páscoa. Amamentei o Pedro enquanto fazia planos ousados de levá-los comigo à missa das sete.

Desejamo-nos Feliz Páscoa, encontramos os ovos e cenouras de chocolate que o coelhinho deixou em nossa sacada ao lado da cenoura que deixamos para ele. Engolimos alguns bombons (o Pedro também experimentou os restos da cenoura suja de terra, provavelmente a única coisa saudável que comeria neste dia), nos vestimos, nos despedimos do papai e de seu tornozelo torcido e levamos os brinquedos que vieram nos ovos de Páscoa para a missa.

Nos primeiros minutos dentro do carro o Davi me lembrou de que ainda não tinha feito xixi. Aturdida, conferi com ele se daria para aguentar até a Igreja. Ele consentiu e eu confiei. Chegamos ainda antes da homilia – eu, um coelhinho de pelúcia, as únicas crianças menores de sete anos de toda a Igreja e uma mala maior que uma delas.

Logo no penúltimo banco estava o vovô, que recebeu o Pedro resmunguento de “mamãínn” enquanto eu levava seu irmão mais velho ao toilette. A tia-avó organista nos acompanhou – e segurou o coelho – enquanto o Davi se aliviava reclamando do cheiro de banheiro. 

De volta à Igreja, ele educadamente desejou “Feliz Páscoa” baixinho a todos os conhecidos que encontrou e estabelecemo-nos no banco em que vovô e Pi nos aguardavam. Uma senhorinha fez questão absoluta de ceder seu lugar a nós e manter-se em pé até o final da missa. Mais tarde justificou-se, incluindo nas explicações sua “diverticulite nos intestinos”.

 Não entrarei em detalhes quanto à bagunça e aos ruídos que os meninos originaram durante os minutos de celebração que se seguiram, nem ao menos descreverei os malabarismos que me vi fazendo durante a consagração, em pé no corredor central com um filho no colo (querendo jogar para o alto a bola que segurava) e o outro filho no banco (chorando porque não estava grudado em mim).

Bastará dizer o quão encabulada fiquei após os cristãos idosos que nos rodeavam terem abaixado em média três vezes cada um para recolher os folhetos/peças de brinquedo/sapatos que os meninos compulsivamente deixavam cair.

Achei por bem sair da Igreja com as cuias (a mala ficou com o vovô) e deixar que os pequenos brincassem num cantinho do átrio com as mil pecinhas que haviam levado. Foi aí que uma nova cena marcante de solidariedade teve lugar.

Um senhorzinho, que se apresentou como alfaiate do padre, abaixou ao meu lado e me disse que agora eu não sei, mas um dia saberei; ele tem um bisnetinho que entra em casa correndo e perguntando se “o f*%$ da p&#@ do bisavô dele já foi para a alfaiataria”. (Por uma fração de segundos fiquei em dúvida se o senhor estava reclamando da ingratidão dos seus descendentes, mas logo percebi que não).

Mostrou-me sua carteira com a imagem da Sagrada Face, disse que as crianças são a melhor coisa do mundo, reforçou que um dia, quando eu tiver meus netos, eu saberei, e terminou desejando Feliz Páscoa e dizendo – já teria sido muito bom se ele não tivesse terminado assim, mas devo enfatizar que ele disse  – que viu a forma carinhosa como eu entrei com os meninos na Igreja.

Nesse instante, o embaraço, o cansaço e a ponta de arrependimento por ter levado meus filhos à missa das sete deram lugar à gratidão, à consciência de comunidade e à clareza (com todo peso da palavra após estas linhas) do que é a Páscoa.

 

*Escrito na manhã de Páscoa de 2011.

Corre…dor

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Caminhando rápido em direção ao meu antigo quarto, bati os olhos primeiro no “museu da família”, a parede forrada de fotos que contam lindas histórias. Meus avós sorrindo, nós cinco no mesmo sofá, meu noivo, meu esposo, meu barrigão, meus bebês. E em seguida, sem querer, bati os olhos no chão do corredor.

E me lembrei de quando ali havia carpete, e batia sol vindo pela janela do jardim interno, por entre as altas árvores plantadas na terra que eu comia desde os sonhos da minha mãe gestante.

E me lembrei da cadeira de vime, que amamentou a mim e a meus irmãos quando a vida ainda tinha cheiro de calma.  

E dos cachos loiros esvoaçantes do meu irmãozinho que resolveu dar uma de cabeleireiro, brincando sentado no chão sobre suas pernas gorduchas.

E dos exuberantes celofanes dos ovos de Páscoa nas portas dos nossos quartos – nos quais tropeçávamos surpresos se acordássemos distraídos -, emendados em pegadinhas de coelho feitas com talco.

E do medo que eu sentia quando brincávamos de terror com as vizinhas, e passar por ali sem olhar para trás era o desafio maior.

E das idas e vindas sistemáticas da escrivaninha, no quarto, para o armário de guloseimas, na cozinha, enquanto fazia minhas infindáveis e calóricas tarefas.

E do som dos primeiros saltos, quando, com gosto de batom, eu caminhava carregando um presente de aniversário.  

E de uma florzinha enfeitando o guia do bixo, no dia em que entrei na faculdade.

E do alívio de chegar em casa após muito trabalhar, carregada, com prontuários e artigos dentro da bolsa que eu largava ali, em qualquer lugar.

E das outras coisas que aconteceram depois, de nove ou dez anos para cá, que não me conformo não terem sido ontem.

Agora ali o Davi pula pela janela, o Pedro derrama no chão seus MM’s, os dois correm atrás da gata. Eu tento descer saltitando as escadas que não mais existem e, para falar a verdade, enxergo ainda no carpete ausente os pés úmidos dum sapeca saído do banho, que hoje calça quarenta e de quem as pegadas marcam a neve, não mais o solo tropical. E escuto esmurrar minha porta mãos que hoje não dão conta de qualquer provocação, e só fazem afagar os sobrinhos.

Ando por ali carregando, semana a semana, sacolas e sacolas de coisas. Por apenas mais algumas semanas. Mas para sempre posso carregar as lembranças que me trazem esse corredor e tantos outros caminhos…

 

Para você, mãe, por tantas boas lembranças e pela coragem de novos caminhos.