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O menu desta manhã, ou “o que tem pra hoje”

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Assim que saí do quarto, pela manhã, ofereceu-me uma porção de fritas. Servi-me, e vieram todas ao chão, para deleite do garçom. Como posso compensá-la, indagou ele, em vocabulário infantil, sugerindo um hambúrguer de chocolate, a especialidade da casa. Assim que aceitei, veio à minha mesa meu acompanhante, chamando mamãe, trazendo seus plurais e fala dócil, do pacote-brincadeira. Fartamo-nos em iguarias, apenas esta manhã isentas de colesterol e calorias vazias. Pagamos a conta e fui prontamente conduzida ao próximo restaurante, com novo acompanhante.
Cardápio manuscrito, diversos ambientes, diversos sabores (garçom comigo muito doce, com “meu filho” muito ácido). Brinquedo aprimorado, utensílios realísticos, dimensão temporal muito mais elástica – e massacrante a quem enxerga além de uma manhã de férias. Tirou sete pedidos, comentou sobre a sobrecarga de trabalhar sozinho, negou modificar os ingredientes dos pratos. Meu acompanhante passou de saltitante a emburrado e constatei que o próximo restaurante da rodada deveria ser o café da manhã de verdade.
Desconfortáveis em chamar-me de mamãe, prosseguiram no “senhora”, aceitando frutas, repetindo o queijo branco e encomendando as tapiocas mais caprichadas que eu pudesse preparar. E então, noventa minutos depois da brincadeira de restaurante começar (com as fritas, antes mesmo que eu pudesse trocar de roupa após sair da cama), abandonamos nossos papéis e mastigamos a realidade.
Contei sobre o trabalho de ontem à noite, riram e seguiram pedindo histórias, qualquer história, histórias de quando eu era pequena, não faz mal que fossem repetidas. De quando eu tinha três anos. Já contei, vocês já sabem. Contem vocês uma história de quando tinham três anos.
– Faz muito tempo, eu não lembro! – disse o de cinco.
– Ué, você não lembra nadinha da nossa viagem pra Suíça? – usei a referência mais marcante.
Lembrou. Lembramos e mergulhamos nas temperaturas, aromas, vivências. Rimos de episódios e espantei-me por ser passado o que tão presente ainda é.
– Mamãe, sabia que quando eu crescer eu vou morar na Suíça? – deve ter emendado algo mais, convicto, inspirado no exemplo do tio que tanto admira. Mas eu não ouvi nada. Pega no contrapé. Turvei. Feri. Fechei.
Pranto convulso. Cabeleira embaraçada, camisola desbeiçada e lágrimas vermelhas apertando o peito. “Ainda vai demorar muito, eu só vou quando for adulto”. “Mamãe, porque você tá chorando tanto, a gente só vai quando a gente crescer”. “Vai demorar muito pra gente crescer, mamãe, a gente tá crescendo rápido, mas ainda vai demorar”. Rosto crispado, lavado por olhos, nariz, e pela certeza de que nada pode detê-los. Eles vão.
Aninhei moreno e loiro desolados no meu colo corcunda e balancei-os molhados em saudade. Chorei Londres, chorei Miami, chorei Cingapura, chorei Lion, chorei Dublin, chorei Tóquio, chorei Montreal, chorei Zurique. Chorei Berlim até acabar meu fôlego.
Enquanto estão aqui quero aceitar com gratidão todos os milkshakes de pimenta, quero esperar pacientemente acabarem todas as manhãs preguiçosas e quero contar com dedicação todas as minhas histórias repetidas.

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