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Mais um ano na lista dos bem vividos

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“Qual seria a sua idade se você não soubesse quantos anos você tem?” (Confúcio)

 

Cê tenta estimar: 30 anos, com tanta energia, sentada no chão

Cê tenta acertar: uns 50? Prata no cabelo, ouro no coração…

 

Cê tenta encontrar uma irmã, uma esposa, uma filha, de dedicação

Cê tenta entender essa mãe, essa tia, essa avó é um camaleão

 

Cê tenta cuidar-nos pra sempre, levando no colo, qual os cangurus

Cê tenta bordar ponto cruz, tecer uma vida louvando a Jesus!

 

“Cada um tem a idade do seu coração, da sua experiência, da sua fé.” (George Sand)

 

Salve 11/out/1942

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Pezinhos

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Acho pezinho de recém-nascido muito mais lindo de costas do que de frente. Bolinhas no lugar de dedos, todas aquelas ruguinhas paradoxais, o tamanhinho de nada. Com uns dois meses de recheio, aquelas extremidades se transformam em bisnaguinhas e adquirem chulé. Exatamente Isso aconteceu com os mini pés do Davi. E desde então ele tem os pés mais lindos do mundo. Quanto mais crescem, mais me apaixono por eles.

Dia desses me pegou sentada no meio do corredor, num raio de sol, e me deu alguma explicação incrível sobre suas descobertas – “sabia, mamãe, que o tanto de aniversários que a pessoa já fez é igual os anos que ela tem?” – ou me contou um causo bem esclarecido – “eu não vou quebrar seu vaso de cristal igual você quebrou o da vovó Ciça uma vez, e eu também já vi o tio Ricardo quebrar o do vovô Roberto uma vez que eu era pequeno e ele já era grande e o vovô já tinha o tamanho que ele tem hoje e a mesma cara”.

Só fiz rir pra ele, derretida de atônita, e deixei-o me embrulhar com seu sorriso de bem amado. Pedi um beijinho. Ele andou até mais perto, parou com os pezinhos descalços paralelos e abaixou para deixar um carimbinho babado na maçã do meu rosto de mãe.

Garanto que até ontem ele precisava ficar na ponta dos pés, com o corpinho gorducho e macio todo equilibrado em cima dos dedões, para alcançar meu rosto.

Mas ele cresceu. E no dia de hoje seus pés me surpreenderam mais muitas vezes. Quando subiram no banquinho sem reclamar para que ele lavasse as mãos sozinho, com sabonete e tudo. Quando apareceram de repente calçados com as meias novas que ganhou de presente. Quando mil vezes chutaram pelos ares, junto com a bola, os tênis grandes demais que insistiu em usar. Quando aceitaram dançar aquela música legal junto comigo, soltos e espontâneos. Quando saltitaram ouvindo pelo telefone o “Parabéns a Você” tocado ao piano, enquanto ele dizia “é meu aniversário! Hoje é o meu aniversário!”.

Davi, querido, cinco anos caminhando e seus pezinhos continuam tão macios e deliciosos de massagear antes de dormir. Cinco anos tropeçando, trepando, escorregando, pisoteando, correndo e mexendo devagarinho, dedinho por dedinho.

Que seus amados pés possam sapatear, saltar, marchar, arrastar-se e passear livremente pelas trilhas que você escolher. E que sejam elas sempre Iluminadas, para que você enxergue as nossas pegadas junto das suas.

Davi e Pedro?

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Há trinta anos um tinha cabelo grosso e o outro loiro aguado

Os dois se abraçavam fraternalmente

O mais novo imitava o mais velho

Choravam de ciúme e injustiça

Assistiam juntos

Dormiam em camas vizinhas

Dividiam milimetricamente o suco e o chocolate

Um ganhava pela força e outro pelo choro

Um chutava a gol, prepotente, e o outro agarrava, subserviente

O pequeno vidrava na sabedoria do grande

O grande babava no despachamento do pequeno

E eu asistia tudo

Cortava o barato deles

Caia na gargalhada junto

Não entendia nada

Era a menina intrusa

A menina preferida

A maior de todos

Que tanto os amava

Que não aguentava as teimosias

Nem as birras

Nem a crueldade que eles conseguiam ter juntos

E que (mesmo que só quando ninguém estivesse olhando) ganhava o privilégio do amor deles.

Que nem hoje…

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(O avô chega apressado na natação e pergunta para a recepcionista: “O Luis Ricardo e o Vitor já chegaram?”. Totalmente compreensível, Pá.)

DeclAMAções

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Há alguns dias, emissões inequívocas vem escapando de seus “lábeus”.  Geralmente no carro, rompendo longo silêncio.

Comecei a observá-las com mais diversão no dia em que escutei, vindo do banco de trás, o CPF do pai cantarolado baixinho, continuamente.

No dia seguinte, brotou do silêncio absoluto em nossa volta para casa: “não quero pôr gasolina comum”.

No outro dia, observando alguma coisa em algum jardim do caminho, soltou: “regador não é mangueira”.

No outro, equilibrou o Cascão no braço do cadeirão e ordenou: “Fica aí dzi pé, sentadzinho!”.

Numa noite, afirmou: “Eu tenhu medu du iscuro, mas iscuro não existe”.

E na noite seguinte, com pai e irmão também no carro, perguntou: “puquê dzi noitsi a zentzi passia intêro?”. Pedimos três repetições. Continuamos não entendendo. Ele, exigindo uma resposta, gritou: “Pegunta pa mim!” Então o sexto sentido materno sussurrou no meu ouvido que se referia ao fato de estarmos ali família inteira.

Hoje eu tentava acordar o irmão para a tão esperada missa vespertina do Lava Pés, quando ele apareceu calçado, dizendo: “eu puis sandália, eu tô lindo”. Tentou um pouco solucionar a correia solta, irritou-se, silabou “GI – FI – ÇÔ!!!”, desistiu e veio até mim: “eu pidi azuda”.

Sandálias calçadas, desapareceu, fuçou onde não devia e, num arroubo de consciência, voltou dizendo: “eu não vou mecei em nada, eu só mecei na póita da casa”. Forçando naturalidade eu indaguei: “e você é adulto ou criança?”. Contrariado, prevendo o efeito da retórica da mamãe, assumiu com as exatas seguintes palavras: “Nem adulto, nem quiança. Sou um minino bávu e sátu”.

Porém, ingênuo quem realmente acreditou que ele não é criança. Como se classifica alguém que grita mais que o coral de idosas em quinta feira Santa para informar à Igreja toda que “o Bolêro tá icondido nu colai!”. Sendo que este mesmo alguém, minutos antes, tratou de ocultar-se embaixo do banco e embaraçar no colar colorido da mamãe braços e pernas do valente arqueiro…

Mas ele mesmo logo o admitiu, após a comunhão. Começou perguntando “o que você tá comendo?”, ao que eu, por reflexo, quase respondi “Jesus”. Só que, imaginando o desdobramento da conversa, que era acompanhada por toda a silente assembléia, optei por reproduzir a resposta que muito ouvi durante minha infância: “a bolachinha da paz”. “Ah. Também quero”. “Primeiro você precisa ter dez anos e fazer a primeira comunhão”. Como eu voltasse à posição de contrição a cada linha do diálogo, apesar das muitas risadinhas comunitárias – que eu não condeno –, ele resolveu calar. Apenas estendeu a mim os dois dedinhos magrelos, indicando a idade. Então redecidiu falar com energia: “Quiança não podzi comê bolacinha da Igueza, quiança podzi comê bolacinha da minha casa i assiti tevisão na minha casa i VDD, i í nu cólu e dá a mão”.

Criança pode tudo isso mesmo. E, nesse caso, até adulto pode rir como criança. E foi o que eu e muitos fiéis fizemos juntos.

 

Exagérese

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Nenhuma vez me disseram o nome desse troço. Tá escrito “e-caligrafiaruím-ese”. Nas idas e vindas do agendamento, eu arrisquei todas as pronúncias que me pareceram possíveis, e só ouvia em resposta um “hum” – em todos os casos. Hoje na clínica resolveram chamar de “procedimento”. Procedimento é escovar os dentes. Estacionar o carro. Dobrar um lençol de elástico…

Clínica cirúrgica, procedimento cirúrgico, sala cirúrgica, maca cirúrgica, campo cirúrgico. E eu ali, deitadinha, durinha, sensivelzinha. Para a retirada de um cisto cebáceo.

A última vez em que aconteceu algo parecido foi na despedida do meu último terceiro molar. (O quarto, então, hehe). Uns vinte e um anos, eu devia ter. E chorei a tarde inteira tomando sorvete no sofá da sala. De pura dó de mim.

Já as primeiras vezes em que passei por algo assim… Inesquecíveis: Aos quatro anos pulava na cama obstinadamente e ouvia a ameaça “cabra maluca quebra os cornos”, como um mantra dando ritmo à molequice.  Caí de testa no baú de cabeceira. Lembro da pia do banheiro cheia de gelo e sangue, e de ter manchado a jaqueta (“capinha”) branca que minha avó tinha lavado na véspera – esse detalhe é o que faz mais efeito no Davi quando conto essa história para que ele pare de pular na cama, ou obedeça, ou saiba que eu, quando criança, também pulava na cama e desobedecia: a capinha branca recém lavada toda manchada de sangue. Dias depois, fui tirar os pontos engatinhando pela calçada, por dois quarteirões, de tanta birra que eu fiz e de tanta firmeza que minha mãe teve.

Aos cinco, operei do primeiro ssisstossebásseo, que eu denominava com o charme do ceceio anterior. Cenas de terror na sala de espera, depois de muito-muito esperar, quando a enfermeira resolveu (coitada, não foi ela que resolveu isso, eu sei) que minha hora tinha chegado. Bem aquela hora, em que minha mãe tinha ido rapidinho no carro amamentar meu irmãozinho. Eu lá no colo da minha avó, de onde não queria sair em hipótese alguma, muito menos para o colo de uma desconhecida vestida de branco, que me puxava com muita força. “Não deixa eles fazerem isso comigo, vó!” – eu gritava o mais forte possível. Ela, com suas unhas vermelhas e seu colo macio, provavelmente partida entre o dever e o querer, precisou me entregar. Logo um cheirinho fumacento de morango calou meus prantos. E depois da alta eu ganhei cachorro quente e brigadeiro.

Hoje, olhando para aquele tudo branco comecei e me sentir uma verdadeira vítima. A posição paradoxal de passividade em que a gente se encontra nesses casos é demais para mim: o corpo é meu, a coxa esquerda é minha, o cisto é meu e só o que eu posso fazer é respirar e relaxar. (Para quem gagueja isso é péssimo de se ouvir. E para quem se submete a uma e-sabe-lá-o-que-de-lesão-cística também.)

Esperei, por cinco picadas, a anestesia pegar. A partir daí, só tive que abstrair do remelexo que ocorria em minha perna para iniciar uma linda viagem pelos caminhos da imaginação. É claro que foi então que me lembrei dos detalhes acima descritos, e – especialmente na parte da capinha branca, da unha vermelha e do brigadeiro – eu solucei. O que fez a enfermeira perguntar se estava tudo bem, dizer para eu respirar e para eu relaxar. Paciência.

Conheci os pequenos furinhos interrompendo o branco eterno da parede azulejada, as bolhinhas da pintura branca do suporte da luminária. Ouvi barulhinhos que tentei, em vão, ignorar. Está cortando? Está queimando? O que ele está ligando? Cocei uma coceirinha no pescoço. Tocou meu celular. Duas vezes. Pedi desculpas – uma vez só, hehe.

Lembrei de uma vez em que o otorrino da minha paciente me disse por telefone com sua irônica voz que, sabe como é, era melhor eu não acompanhar a frenectomia dela não, porque eu podia desmaiar.  Naquela oportunidade eu tentei argumentar até onde a humilhação permitia, mas hoje eu diria, muito serenamente, “o senhor tem toda razão”.

Deitada naquela maca, vendo a hora passar, eu decidi que sim, eu era forte, eu era uma profissional da saúde muito bem formada, mas livre para optar por não espiar nada que estivesse acontecendo em frente ao Dr. Dermatologista. Foi quando um movimento ocular rebelde e insubordinado fez com que eu visse uns dedos de luva sujos de sangue. Pronto! Destruiu meu sonho. Justo quando um arco íris com fim em si mesmo emoldurava minhas lúdicas imagens de esferas perfeitas e branquíssimas saindo de dentro da minha pele e flutuando para a atmosfera, compondo com o tom salmão do meu vestido uma cena digna de Jelly Jam.  

Bem, depois de tudo terminado, doctor D. foi muito nobre em me estender sua pinça com aquela… verdadeira… bola de sebo pendurada na ponta. Mais nobre que o obstetra que negou-se a me mostrar a placenta do meu filho. Será que é porque o bebê ficou só nove meses dentro de mim, enquanto que o cisto ficou logo uns vinte anos? Hum…

Sei que, oscilando entre o lugar comum do alívio pelo fim da novela cirúrgica e o temor do que meu corpo possa vir a aprontar agora, eu muito me confortei ao rezar no começo e no final de tudo a invocação a Santo Inácio de Loyola: “Dentro de Vossas chagas escondei-me”. Certamente, é das chagas e dessa súplica ao bom Jesus que vou me lembrar sempre que olhar para essa cratera em minha perna e para a cicatriz que agora faz parte da minha história.

Segredo

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Com cinquenta e quatro meses, dezoito mil e seiscentos gramas, cento e sete centímetros, ele queria subir numa pilha de dois pufes. Avisado sobre o perigo, esperou-me terminar de guardar as roupas nas gavetas apertadas para segurar minha mão.

Unhinhas compridas e sujas apertando meus dedos, sorriso emoldurado por um sujo de chá com mel: conseguiu.

Lá em cima, ficou maior que eu. Abraçamo-nos. Suadinho antes do banho, bafinho de tosse e infância.

Contei pra ele, ao pé do ouvido, que daqui a muitos anos ele vai ser mesmo desse tamanho e vamos dançar juntos quando ele terminar a escola de adultos. E que nesse dia eu vou dizer que ele era meu bebê, meu menino, e que sempre morou no meu coração. E vou lembrá-lo do tempo em que eu cortava suas unhas.

Perguntou-me preocupado se quando ele crescer eu não vou mais poder cortar as unhas dele. Respondi que vou poder cortar, sim, se ele quiser. Sorriu com seus muitos cílios e pequenos dentes.

Cantarolei uma valsa, ficamos dançando no lugar, abraçados sem pressa. Segredou quente, boquinha colada na minha orelha: “eu te amo”. Ri choramingando: “também te amo muito, pra sempre”.

Safra especial

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Cê tenta imaginar um bom vinho
Um bom prato
Um bom papo
 
Cê tenta encontrar um cidadão
Um senhor
De bom humor
 
Cê tenta escutar de novo
Um assobio
No qual confio
 
Cê tenta fazer o bem
Ser alguém decente
Qual São Vicente
 
Cê tenta escrever um conto
Soprar bolhas de sabão
Atender “pois não?”
 
Cê tenta comemorar mais um ano
Ao som de um piano
De muitos miados
 
Cê tenta agradecer essa vida
Um espetáculo
Entrada Franca

 

Para Tio Zé, escrito há um ano.