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Justa causa

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Justa causa

Meus alunos de jardinagem estavam bem animados com o início das atividades do ano. Na aula de hoje, plantariam dois tipos de sementes cada um.
Percebi que não estavam com muita paciência para a teoria, então apenas observamos alguns gráficos e delineamos nossas expectativas sobre o sucesso das atividades. Um mês de janeiro quente como este não é o momento mais propício para o sucesso de um novo jardim.
Prepararam seus vasinhos, renovando e revolvendo a terra. Antes de abrir cada pacotinho de sementes, imaginaram seu aspecto. “Grande e vermelha”, “pequeneninha e verde”. Difícil de acertar. Tiveram vontade de derivar para outras artes com as sementinhas tão lindas.
Furaram a terra com os indicadores, enquanto os demais dedinhos iam soterrando os buraquinhos recém abertos. Derramaram muitas sementes em alguns e fecharam outros vazios mesmo.
Como professora em constante formação, acredito que o processo de aprendizagem é ativo, baseado do envolvimento do aluno e dá surpreendentes saltos quando são permitidas experiências espontâneas aos aprendizes.
Nosso curso de jardinagem vinha muito promissor para este novo ano letivo, porém ao final da primeira aula fui demitida. Por justa causa, é verdade. Imprevistos da vida profissional. Algo ocorreu e senti como se aqueles alunos criativos e dinâmicos fossem por um minuto crianças impulsivas e inconstantes, e como se seus comportamentos precisassem ser classificados: boas ou más maneiras. Como se fossem seres humanos dependentes, continuamente sob minha responsabilidade. E como se as consequências de seus atos estivessem praticamente todas relacionadas a mim. Como se houvesse uma sacada imunda a ser limpa numa manhã de sábado, quiçá também algumas trilhas de terra sala adentro.
A aula foi interrompida de forma passional. Mas a consciência de minhas reações intempestivas vieram quase que de imediato: procurei retomar a sensatez e desculpar-me com os pequenos aprendizes antes de passar no RH.
Os alunos aceitaram meu abraço muito comovidos e um deles me disse uma frase enigmática, que ainda preciso elaborar, mas que me parece de certa forma redentora: “mamãe, um dia eu posso ir conhecer o seu trabalho?”.

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