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Tua beleza

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“Sabe, Aline, já passei por muita coisa, mas hoje reconheço que sou muito feliz!” A bisavó dos meus filhos me disse isso numa tarde fria de quinta-feira, concedendo que sua telinha amiga transmitisse um pouco de desenho animado.

Elencou a “gente boa” da família, a cada geração alargando o sorriso, até chegar aos nomes dos dois pitocos debruçados sobre o colchonete xadrez, segurando o queixo com as mãozinhas engorduradas de bombom.

O Pedro foi parar deitado ali vítima de mais uma imitação ao irmão. Antes disso, ele figurava outra cena poética ao lado da bisa: ela, sentada em sua velha poltrona, costas aquecidas por um xale de manufatura própria, preenchia fartamente o espaço disponível. Ele, loirinho agasalhado, pousou no braço da poltrona e, ao sentir pousar ao seu redor o braço da avó, acocorou-se ao lado dela, comportado e confortável.

Enquanto isso, uma bola de bazar meio murcha era bombardeada contra as muitas portas fechadas do longo corredor. Vinte a zero pro Davi – não que eu não saiba fazer gols, é que as regras do esporte não me favorecem: não vale gol sem goleiro (ainda que este tenha acabado de ser lindamente driblado); bateu na trave é fora (mesmo que a bola entre, não vale). O juiz – claro – é ele.

No meio da partida tive um generoso ataque de espirros e precisei sair para assoar o nariz. Quando voltei, meu adversário já havia sido seduzido pelo Doug Funny. Aproveitei a calma do momento para olhar ao meu redor. Estiquei a passadeira que fora amontoada pelos ágeis pezinhos do Davi, pensei no perigo que ela representa no cotidiano da minha avó e em como é, ao mesmo tempo, difícil e importante respeitar as preferências da(o)s m(p)atriarcas. Li com calma a Oração do Amanhecer, linda, profunda, tão verdadeira e tão fiel àquela parede.

Examinando o belo retrato de setenta anos, vi, sem querer, a razão da minha alergia respiratória: no interior do vidro convexo, claríssimos desenhos em forma de fogos de artifício formados por fungos, numa perfeição geométrica encantadora. Figuras muito compatíveis com as explosões de chutes e gritos produzidas, até havia poucos minutos, naquele ginásio improvisado.

O que fizemos naquela casa de vó foi aproveitar oportunidades: jogamos, os quatro, algumas partidas de jogo da memória. Transitamos, os três mais novos, de meias pelo decurso da tarde. Recebemos, uns dos outros, a atenção que merecemos: os dois pequenos em privilégios e mimos, eu, em conselhos e histórias, ela… em companhia e sopro de vida. Nos acolhemos e aceitamos enquanto família, nos permitimos o convívio de nossos exclusivos seres.

Na manhã seguinte, ao sair para a ginástica, a vovó não gostou muito do jeito que estava o cabelo. Mas tirou disso uma conclusão diferente da de sempre: “não faz mal, mesmo assim meus bisnetos gostam de mim”.

Justíssimo. Dia após dia ele lê na parede do corredor: “Reveste-me de Tua beleza, Senhor, e que no decurso deste dia, eu Te revele a todos”. Que bom que você viu, Honória, refletida no espelho do elevador, a beleza dEle!

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Dama

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Manhãzinha de feriado, resolvi entreter os meninos com um jogo novo.

A: Olhem, meninos, destaquem essas bolinhas enquanto a mamãe vai ao banheiro.

Voltei do banheiro e apenas uma bolinha (leia-se: peça de damas) fora destacada – e perdida.  Tive que arrastar-me entre os móveis, em primeira pessoa, enferrujada e desalongada como um ser humano normal está às 7 da manhã, até encontrar a bendita.

A: Venham, meninos, este pufe é nossa mesa, vamos pôr o tabuleiro aqui e continuar destacando as bolinhas.

D: Ah, mamãe, então a gente vai precisar de três banquinhos bem baixinhos para poder jogar nessa mesa.

A: Ou então a gente senta no chão mesmo, né, filho?

Ok. A cada duas peças destacadas, uma era sequestrada pelo Pi.

A: Agora, Davi, você pode escolher uma cor, branco ou preto.

D: Banco.

(Ups, será que ele ainda está encasquetado por ter que sentar no chão? Ah, não, não, ele escolheu o branco).

A: Tá, então eu ponho minhas peças no preto.

A: Vai, agora você tem que andar suas peças só nos quadradinhos brancos.

Ele arrasta uma. O Pedro arrasta várias. Retorno-as para o lugar. É minha vez.

A: Peraí. Assim não vai dar. Vou mudar as minhas peças pro branco também.

(Sim, sou um gênio dos tabuleiros!)

D: Mas o Pi tá mexendo em tudo.

A: Tudo bem, ele é do seu time.

D: E do seu time, quem é?

A: Só eu, filho, é meninos contra meninas.

D: Não, você é do meu time e do Pedro.

Ok.

A: Tá. Agora você pode andar sua peça pra cá ou pra cá e comer a minha.

D: Eba! Eu vou comer a sua!

O Pedro foi mais rápido e não apenas sequestrou a tal peça, mas levou-a à boca.

A: Não, filho! Não pode pôr as bolinhas na boca, senão a mamãe fica brava!

Mágoa. Olhos rasos d’água. Já comentei que os olhinhos dele ficam muito mais verdes sob uma grossa camada de lágrimas?

Choro, colo, chamego, carinho.

Ah, Senhor, mas é claro! Estávamos animados falando em comer as peças! E quando ele resolve ir no embalo leva uma bronca!?

A: Ô, Pi, a mamãe entendeu! Você ouviu que a gente ia comer a pecinha. Mas não é comer na boca, é comer no jogo… (que inteligente meu pequeno!) Se come na boca engasga a garganta.

D: É, e nunca mais consegue falar.

(Uh, até que às vezes era uma boa, hein?)

Consolados e reorganizados.

A: Então, vamos, Davi, sua vez. Você pode andar essa peça ou andar essa e comer a minha vermelha.

D: Não, mamãe, eu quero pegar essa azul.

A: Mas a azul é sua, filho.

D: Mas eu quero ela, ela é tão bonitinha, é a minha preferida.

Em instantes veríamos uma instalação com peças alternadas, empilhadas, roubadas e engolidas.

Resolvi então fazer o que me cabe no jogo da vida: ser uma dama para meus cavalheiros. Podem continuar ditando as regras, rapazes!