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Gratidão

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Correndo moleque até o portão da casa dos avós, veio receber os amigos. Menor degrau da escadinha, trepou, pulou, pedalou e rolou de rir tanto quanto os visitas.
Prendendo o pula-pula entre meus joelhos, deixei segurar minhas mãos com suas mãozinhas quentes, e vi os pezinhos encobertos pela barra exagerada da calça escalarem até o topo. Pulou animada e deliciosamente, fios grossos de cabelo dançando com ele. Sorrindo rasgado, olhando em meus olhos. Gritava gritinhos finos e, covinhas a postos, sorria mais um pouco direto para dentro da minha alma.
Chegada a hora do lanche, sentou-se sobre almofada e cadeira, quase alcançando a mesa com o queixo. Pedia insistentemente aos avós que o aproximassem, e muitos movimentos depois entenderam que ele queria chegar mais perto do amiguinho loiro – e não da refeição. Satisfeito com a aproximação, segurou a branca mão do menino da cadeira ao lado. “Ele é seu amigo?”, respondeu que sim. Foi quanto contei: “a mãe dele e a sua mãe são amigas igual a vocês”. Boquinha abriu intrigada. “Quem é a mãe dele?”, provoquei. E vi elevar-se centímetro em minha direção um dedinho de unha desenhada.
Na despedida pedi um abraço, e no quentinho macio do seu peito senti matar um pedaço da saudade que tenho de ter amiga pequena pra tomar lanche de mãos dadas. De pular no pula-pula flutuando num olhar confiado. Misturei-me no abraço dele e ele não teve pressa. Tanta ternura, atravessando gerações. Bateu mãozinha em minhas costas, me deixando suspirar seu colo. Até me preencher de gratidão.

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Levou bolo

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– O lanche de hoje tava bom, filho?
– Tava, muito! Mas…
– O que?
– Eu derrubei o bolo na Carol.
Recebendo o meu olhar atento e espantado, explicou:
– Sabe quando o bolo ia cair, e fica pulando na nossa mão e cai de novo? Então, aconteceu isso na camisa dela.
– E ela? Chorou?
– Mamãe! Claro que não chorou. Só ficou brava.
– Ah é? E o que você fez?
– Tentei limpar com a toalhinha do lanche.
– Ixi…
– Não deu pra limpar muito, mas…
– Imagino que não mesmo, mas que bom que você tentou.
Sorrimos e ele revelou-se aliviado por não levar bronca. Eu disse que se eu fosse a Carol ele certamente teria levado. Rimos.
– Seus amigos perguntaram de que era o bolo?
– Não, mas eu falei sem eles perguntarem.
– Sério? E o que eles acharam?
– Hum… Eu falei que era de chocolate. Porque se eu falasse que era de cenoura, maçã, cacau e essas coisas eles iam achar nojento. Sabe aquele pãozinho verde que você faz? É gostoso, mas eles acham nojento, só porque é de espinafre.
– Tá bom. Você tá usando sua esperteza, né?
Orgulhosa por ver meu filhote encontrando suas estratégias de remediação e de defesa – e por vê-lo comer numa boa essas delícias nojentas…