Arquivo da tag: livros

Marta, Marta

Padrão

Lendo historinhas da Blíblia* antes dos meninos dormirem, detivemo-nos na passagem de Zaqueu (Lc 19).

Porque tinha tanta gente? Porque ele subiu na árvore? Porque ele era baixinho? Porque Jesus foi na casa dele? Porque ele desceu correndo?

Ah… Foi aí que eu me peguei respondendo por mim! Enumerei tudo o que faria antes de receber o Mestre em casa: essas roupas aqui para guardar, cama para arrumar (ainda, quase na hora de desarrumar de novo!), brinquedos para recolher, janelas para abrir bem, perfuminho de ambientes, um bolo delicioso no forno, quem me ajudaria com o suco?

A expressão impactada deles contrastou com minha expectativa de que brigariam para coar o suco de Jesus, assim como brigaram para coar seus próprios sucos horas antes.

Por quê? Foi o que o Davi me perguntou, verdadeiramente curioso. Por que você ia fazer tudo isso?

Como sempre, eu, reflexamente, comecei a responder. Ah, porque eu ia querer preparar tudo muito bem pra receber a visita de… Filhinho, o que você ia fazer se Jesus viesse aqui em casa?

Pedir pra ele trazer a mãe dele.

Engoli.

Pra gente poder brincar juntos. Se o pai dele viesse também, ia dar pra gente jogar um jogo bem legal, todo mundo junto.

Reengoli. Jesus, tão homem quanto meu marido, provavelmente nem perceberia mesmo a montanhinha de meias do avesso ali no canto. E poderia passar a visita toda sem se dar conta das manchas na toalha. Mas adoraria divertir-se espetando o Pula Pirata. (Tá bom, vai, montando um celeiro de Lego, que é um pouquinho mais legal). Ou apostando corrida com dois menininhos fofos e uma coleção de Hot Wheels.

Davi queria a companhia, a convivência com sua amada Maria (“que eu rezo todo dia de manhã no caminho da escola, né, mãe?”), queria sua companhia, aproveitar o tempo na presença da Sagrada Família. E, de brinde, em sua fala também me dizia que ama brincar com mães e pais em geral…

Acariciei a bochecha dum iluminado filho enquanto o outro pedia pra falar, palhacento:

Será que Jesus ia comer uma banana estragada?

Não, Pi, opinou rindo o irmão, ele ia comer só uma banana feita de amor…

Um pouco mais infantil, mas ainda surpreendente.

Aline, Aline, “tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas, porém uma só coisa é necessária…”**

______________________________

*OLESEN, C. “Minha primeira Bíblia: histórias da Bíblia para crianças”. Il: MAZALI, G. São Paulo: Ciranda Cultural, 2006.

**Lc 10, 41

Anúncios

O X da questão

Padrão

Ela tem paciência.

Ela escuta o menino.

Ela o respeita ao extremo.

Ela confia no potencial dele.

Ela aguarda.

Ela controla a própria ansiedade.

Ela torce por ele, mas não o pressiona.

Ela o admira em seus limites.

Ela o enxerga para além deles.

Ela deixa que tenha o seu espaço.

Ela suporta a bagunça.

Ela apenas observa a sujeira.

Ela devolve suas perguntas.

Ela não interrompe seus processos.

Ela permite que ele seja o que é.  

Ela é sua primeira amiga.

 

Qual a diferença entre AXLINE* e ALINE?

Apenas um X. O X da questão.

 

*AXLINE, Virginia M. Dibs: em busca de si mesmo. Rio de Janeiro: Agir, 1990. 16ª ed.

Recomendo fortemente este livro, original de 1964, a todos os interessados no desenvolvimento infantil. E às pessoas sensíveis, que admirem o ser humano. Com muita gratidão à autora e a fonoaudiólogas especiais com quem tive o prazer de trabalhar, especialmente à Lili.

A fada que tem ideias

Padrão

Em 1987, uma menininha de sete, oito anos encantou-se com uma fadinha criativa e corajosa, que transformou o céu inteiro com sua simplicidade alegre.

Em 2011, um menininho ainda mais novo mergulhou no mundo dos livros “longa-metragem” e, ouvindo a voz – embargada – de sua mãe, entendeu o que são capítulos.

Mini-suspiros, às vezes acompanhados por uma exclamação quase involuntária (“ooolha!…”), surgiram a cada figura aquarelada. E, não pela emoção do reencontro, mas sim pela do primeiro encontro, meu companheirinho vidrou nas imagens, me levando a mudar o ritmo do texto em função de sua hipnose, quando não o mudava em função da minha. Ele, conhecendo aquelas personagens; eu, matando as saudades delas.

Cada travessão do meu velho livro está pintado de uma cor, conforme a personagem. (Ou de duas, porque eu errei muitas vezes.) Relampinho, em laranja, perguntou o que é primavera. E, antes de ler Clara Luz respondendo em cor-de-rosa, eu quis ouvir a resposta do Davi: “é quando o inverno acaba e aparecem as flores”.  Ele merece um lindo travessão de sua cor preferida, prateada, para combinar com a mobília da casa das fadas, e até com a poeira de lá.

Não sei o quanto de crítica social e de ironia inteligente meu pequeno absorveu das 56 páginas que compartilhamos. Deve, como a menininha daquela segunda série, ter achado tudo muito legal, normal e natural. Eu que fiquei muito surpresa em perceber as agulhadas precisas e as toneladas de verdade no texto dessa premiada autora, de quem eu não me lembrava o nome. Na verdade eu fiquei um pouquinho transtornada.  

Eu, que tantas vezes faço o papel de rígida Rainha das Fadas e proíbo só porque é proibido, demito para garantir o meu poder, grito para manter a ordem.

Eu, que tantas vezes empalideço e desmaio como as fadas-mãe diante dos caminhos que meus filhos inauguram, deixando de perceber que as lições mais vívidas e importantes podem não estar no meu grande livro.

Eu, que tantas vezes faço o jogo do silêncio diante de uma boa oportunidade, como as fadas-filhas sem coragem de lembrar às mães, na manhã seguinte, sobre a vontade avassaladora e evidente de dar vida aos bichos de nuvem, que tiveram na noite anterior.  

Reencontrar Clara Luz depois de tantos anos foi incrível. Uma vez descobri que ela pode colorir a chuva, e agora descobri que pode colorir também minhas lagriminhas.

Nesses 24 anos as ideias de Clara Luz perderam o acento, mas não o encanto.

 

LOPES DE ALMEIDA, Fernanda. A fada que tinha ideias. Ilustrações de Edú. São Paulo: Ática, 1984. 10ª ed.

Eu e o Davi recomendamos fortemente. (O Pi achou meio aborrecido. Só gostou mesmo de me ver cantando e dançando as estrofes do Teatro.)