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Ilumina

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Foi a luz menina do sol das sete da manhã que me trouxe a visão clara das cenas.
O quintal da escola. A tartaruga. O mamão que a tartaruga comia. O grande granito no qual deitávamos e raspávamos as mãos para ficarem lisinhas. O tio Hipólito. Hipopótamo. As risadas. O cheiro de café.
Meus quatro anos. Meu silêncio. A mesma luz do sol gentil atravessando os galhos da pitangueira. Areia entre os dedos dos pés.
Chegou tudo de presente, como se algo que nunca tivesse existido fosse a mim gentilmente devolvido. Sensorial: reaconteceu na córnea e na garganta.

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Supera, a luz do amor, nossos escuros?

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No profundo do tempo, na primeira criação, “faça-se a luz”.
Nos crescimentos mais singelos, a direção é a luz.
A quem nasce, é “dada a luz”.
A quem melhor quer ver, “mais luz”.
Ao que suplica soluções, “uma luz”.
Há corpos celestes que emitem luz, há corpos celestes que a refletem.
A vida que vemos é luz, como é de luz a que julgamos não ver.
E se ligamos nossos vazios e nossos medos ao escuro, a ele também ligamos nossas solidões.
São mais luminosos os caminhos que fazemos acompanhados.
As veredas desenhadas a dois são mais seguras.
Mais fulgurantes as estradas partilhadas.
Uma gota solitária transparece alguma luz, mas é no brilho de muitas que se faz o arco-íris.
No brilho das amizades estão os nossos melhores risos e a claridade das boas trocas onde o melhor aprendemos.
Se como solitária flauta temos beleza, a mais forte e bela orquestra seremos se aliados.
Então nossa alma está sempre disposta ao abraço.
Bendito o abraço que ilumina.
Bendito o afago que faz nosso coração luminosamente mais doável.
Bendita a palavra que aponta para a luz de um novo dia.
Benditas as mãos que fazem cintilar a ternura divina.
Há uma generosa geografia que, vagalumeando as paisagens, forma pares; com pincéis de sol sublinha o encantamento, faz novas auroras. Incendiados os afetos funda, aqui na terra, exato céu.
E quando a voz dos sinos anuncia esse acontecimento, leva nossos corações a aplaudirem.
Quando a voz dos sinos anuncia que, na constelação de amigos, duas estrelas unem suas cintilâncias, fazemos festa: que os anjos teçam luminosos dias ao par que vemos!
Que “ela” e “ele” escrevam novos salmos na branca folha hoje inaugurada.
Que todos nós guardemos vívido sol a oferecer-lhes reconsolando-os das chuvas.
Que a chama de seus castiçais jamais se gaste, eterna acenda!
Que quando os olhos, molhados de lembranças, trouxerem a saudade desse dia, possamos repetir: “sim! A luz do amor supera nossos escuros!”

Texto de Cecília Inês Vertamatti, que ganhamos de presente há exatos 8 anos.
Obrigada pelas palavras, mãe.
Obrigada pela jornada, Digo.