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Esta noite

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Esta noite

Esta noite riram muito comendo farofa e pedi que tirassem as roupinhas ali mesmo, para evitar a sujeirada no resto da casa. Aliás, que “desavessassem” as peças e as colocassem logo na máquina.
Tinham até a intenção, mas a lâmpada queimada da lavanderia deu medo. Travaram ali, peladinhos ao meu redor.
Então, risoletos que estávamos, inspirei-me nos teatros da infância e arregalei meus olhos dirigidos ao nada enquanto dizia “mas ali no escuro não tem nada, só aquele esqueleto horroroso!”.
Saltitaram gritando e gargalhando nervosos ao meu redor, e percebi que provocara algo difícil de reverter. Que culpa. Às vezes é irresistível, mas não faço mais isso. Não tem graça, justo a mamãe botar medo nas crianças.
“Né que esqueleto não existe?” perguntou o caçula. Tecnicamente, filhote, não posso te confirmar. Mas derivei: “Ah, se alguém vê um esqueleto de pé pode saber que é de mentira, porque um monte de osso sem músculo e sem pele cai tudo no chão”.
“Mas eu tô com medo de bruxa, mamãe”, especificou o mais velho.
“Uai, e bruxa lá existe?”, tentei eu, mas desisti quando ele me afirmou categoricamente que sim.
“Mas Deus salva a gente dela”, disse o irmão. “Deus tem o poder da alegria!” e, quando eu já suspirava aliviada, emendou: “ele transforma as bruxas em menininhas engraçadas”.
E foi assim que prosseguimos para o banho, os três grudados casa adentro, box aberto por via das dúvidas, e um rabo de olho grudado na janela, para controlar entradas suspeitas.
“O que foi isso, uma bruxa?”
“Nessa janela desse tamanho, filho? O bumbum da bruxa entala e ela solta um pum que faz o gato preto miar desmaiando!”
“Mas e um esqueleto, então?”
“Aqui no sexto andar não chega um ossinho sequer!”
“E nem no Egito tem esqueleto?”
“Você tá falando de múmia?”(Oh, vida cruel, porque raios fui lembrar de mais um personagem?)
“Aaaai…”
“Não, a faixa dela enrosca num preguinho lá no térreo e ela chega aqui em cima toda desenrolada, gritando ‘ai, estou nuuua!’ Falando em nu, vem cá se vestir”.
Empijamados, escolheram dois livrinhos sobre o tema do medo e lemos saborosamente. Riram das minhas “dublagens” e da expressão um do outro quando escutaram passos sorrateiros…
Não era um monstro! Era um cavalheiro trazendo flores para sua amada!
Tentaram escalar nosso abraço, o letrado fuçou meu cartão, senti o perfume das rosas misturado ao do marido e ao de xampuzinho suave…
O Poder da Alegria invadiu nossa casa esta noite.

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Billings

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O Bichinho do Posso Fazer Melhor, que vive entre minhas orelhas misturado aos parafusos, me permitiu hoje viver uma tarde atípica.

O Davi tem que entregar, no final dessa semana, uma lição de casa sobre a represa Billings. Minha primeira ideia quando a lição chegou foi promover um estudo do meio em família. Mas os finais de semana se passaram muito ricos e não conseguimos. A semana é sempre tão entupidinha de rotinas que eu deveria aproveitar a tarde da segunda-feira. Era pegar (a estrada) ou largar.

Decidi, muito sensata, que não me precipitaria a o Riacho Grande com os dois debaixo do sol a pino que precede boas chuvas, sem saber quantos chegariam lá dormindo. Vasculhei a internet e achei coisas até bem interessantes para fazer um bom trabalho. Pronto, tudo resolvido.

Mas amo contrariar a mim mesma, e ao primeiro “aonde a gente vai?” que ouvi dentro do carro, ao pegá-los na escola, comecei a desfiar a história da represa, do engenheiro que lhe emprestou o nome, da cidade… e fui até lá mostrar tudo para eles.

Ficaram onze quilômetros muito interessados nos dois lados da Anchieta, no filtro enorme que avistaram ao longe – a tal da “Sibesp” – nos restaurantes que existem em cima dos barcos, e no perigo que é nadar na prainha, onde as pessoas “se afogam até morrer”.

Desceram do carro com uma semente de maravilhamento tão pronta para brotar, que o Pi, quase gritando, passava o dedinho no muro de chapisco ao lado do qual estacionamos comemorando com o irmão: “é pintado! Olha Davi! Pintado com tinta!”.

Andaram rumo às águas saraivando perguntas, planos gastronômicos aguçados e protestos – como sempre. O olfato percebeu o “cheiro maravilhoso”, que parecia camarão frito. Os olhos contemplaram compenetrados o sem fim da superfície prateada da represa. Os ouvidos foram muito estimulados pela disputa entre os pagodes dos trailers concorrentes. O tato sentiu a areia molhada, pedregosa. (O sentido que não tem nome levou o coração à boca quando o Pi correu em direção a outra mulher que não sua própria mãe e, no mesmo instante em que percebeu o engano, assustou-se com uma pombinha barulhenta que voou a sua frente. Berreiro e choradeira encabulada).

Bem, estava faltando o paladar. Mas eu fiquei sem coragem de experimentar os quitutes disponíveis ao nosso redor e fui enrolando os dois com promessas. Que caíram por terra em seguida, quando o Davi gritou apontando para o carrinho de sorvetes de uma muito simpática jovem senhora.

Variadíssimos sabores, um realzinho cada um. Mesmo sabendo que minhas duas mãos seriam muito úteis livres de um picolé próprio, segui o impulso da gula e peguei um para cada um de nós.

Tudo corria bem, até pelas possibilidades ampliadas na dança dos sabores que sempre se impõe, até que apareceram as abelhas. Inicialmente numa pocinha de pingos de uva que vertiam do sorvete escolhido pelo Pedro. Depois, por toda parte. Em especial rondando as orelhas do Davi. Que começou a sapatear “igual a Laura na área de convivência quando um grilo pulou na saia dela”.

Em gargalhadas nervosas eu tentava limpar os rostos melados, manter os meninos calmos e ir andando para longe das abelhas. Não foi nada fácil. Ao Pedro ainda restavam 50 % das lambidas. Mas não era possível ficar ali com cara de paisagem. Então, antes de conseguirmos levantar nosso acampamento em grupo, orientei o Davi a “ir andando”. E ele saiu correndo. Fechando uma bicicleta sobre a qual dois grandalhões se acumulavam. Foi por um triz.

Já livre de parte do lixo açucarado, de mãos meladas dadas com os dois pequenos, rumo ao carro, surgiam gritinhos fruto do contágio do desespero.  Tanto que o Pi teve a iniciativa de jogar no lixo o último pedaço de picolé.

Camisetas imundas, meladas, suadas, mãozinhas piores. Só resisti ao impulso de jogar nelas a água da Billings que colhemos cientificamente numa garrafinha pet, porque… Bem, as mãos já estavam suficientemente sujas…

Fulana

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Com a adrenalina da coragem e o orgulho da superação, Davi brincou hoje no parquinho como nunca antes havia brincado. Trepou, transpôs, pendurou-se, encolheu-se, inventou e divertiu-se. Parece que a percepção do Pi estava aguçada horas antes, quando eu o chamei para calçar os sapatos – e ele pode preferir chinelos: “eba! Passear com você é muito divertido!”.

Nesta tarde, gritaram muito, por excitação, medo, satisfação.  Rimos muito, pelas caras, bocas, gestos, ideias malucas e tiradas incríveis. Senti os corpinhos macios, as mãozinhas pequenas, o peso dos quilos (me refiro aos deles!), o cheirinho suado dos cabelos grandes e o hálito do açaí que repartimos em três.

Vi que o pé do Davi está crescendo e mudando, os dedos vizinhos estão ficando ossudos, compridos demais, e a gorducheza se foi. Uma ponta de melancolia me espetou na cintura (ou será que nessa hora foi uma cócega frenética que eles me fizeram?), mas tratei de arremessá-la no fundo da piscina de bolinhas, afinal, o que mais eu quero do que cinco anos de um pezinho perfeito?

Nesta tarde viveram a infância. Quiseram de tudo. Pediram para morar ali no clube, todos os dias da vida. Pediram para ir cortar o cabelo, declararam estar com saudades do Amarildo, o barbeiro deles; pediram para convidá-lo para ir à nossa casa, mas então que eu fizesse amizade com a mulher dele e tornasse isso possível.

Exibiram-se equilibrados lá no alto, berraram “mamãe” com todo poder de suas goelas, tanto me sugaram, me puxaram, se penduraram em mim, que soltei, risonha: “vamos escolher mais uma mãe pra vocês, que uma só pros dois tá muito pouco?”. O Pi, com os fios amarelos de cabelo pendurados por estar quase de ponta cabeça no meu colo, levantou-se com os olhos muito arregalados e as comissuras labiais apertadas num sorriso satisfeito: “Siiiim!”. “É, filho? E quem vai ser?” Ele respondeu prontamente com um único nome e seu rosto de alegria.

Minha cabeça rodou por Fernandas, Helôs, Caróis  e Moiras, Ciças, Neusas e Iaiás, amigas, professoras e personagens dos desenhos, envergonhada pelo lapso de não me lembrar quem seria aquela fulana de quem ele aceitaria ser filho. A risada imediata do Davi estourou a bolha dos meus pensamentos: “Pi, o Amarildo é homem, ele não pode ser mãe!”.

Quando acumulei meu riso ao deles, me ocorreu que “a Maria” por ele citada era… exatamente Ela. Meu coração acelerado da aeróbica derreteu-se em comoção e meu peito ofegante arfou de devoção. Tanto, tanto eu tenho pedido que Ela me empreste sua docilidade e sua paciência de mãe, de esposa, de mulher!

Nem cílios, nem dentes, nem pés crescendo, nem vozes felizes, nem a joaninha de catorze pintas que aceitou andar na mão do Davi, nem o calorzinho dos muitos abraços que recebi nesta tarde. A coisa mais linda do dia foi ouvir que meu filhinho quer ser meu irmão.

DeclAMAções

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Há alguns dias, emissões inequívocas vem escapando de seus “lábeus”.  Geralmente no carro, rompendo longo silêncio.

Comecei a observá-las com mais diversão no dia em que escutei, vindo do banco de trás, o CPF do pai cantarolado baixinho, continuamente.

No dia seguinte, brotou do silêncio absoluto em nossa volta para casa: “não quero pôr gasolina comum”.

No outro dia, observando alguma coisa em algum jardim do caminho, soltou: “regador não é mangueira”.

No outro, equilibrou o Cascão no braço do cadeirão e ordenou: “Fica aí dzi pé, sentadzinho!”.

Numa noite, afirmou: “Eu tenhu medu du iscuro, mas iscuro não existe”.

E na noite seguinte, com pai e irmão também no carro, perguntou: “puquê dzi noitsi a zentzi passia intêro?”. Pedimos três repetições. Continuamos não entendendo. Ele, exigindo uma resposta, gritou: “Pegunta pa mim!” Então o sexto sentido materno sussurrou no meu ouvido que se referia ao fato de estarmos ali família inteira.

Hoje eu tentava acordar o irmão para a tão esperada missa vespertina do Lava Pés, quando ele apareceu calçado, dizendo: “eu puis sandália, eu tô lindo”. Tentou um pouco solucionar a correia solta, irritou-se, silabou “GI – FI – ÇÔ!!!”, desistiu e veio até mim: “eu pidi azuda”.

Sandálias calçadas, desapareceu, fuçou onde não devia e, num arroubo de consciência, voltou dizendo: “eu não vou mecei em nada, eu só mecei na póita da casa”. Forçando naturalidade eu indaguei: “e você é adulto ou criança?”. Contrariado, prevendo o efeito da retórica da mamãe, assumiu com as exatas seguintes palavras: “Nem adulto, nem quiança. Sou um minino bávu e sátu”.

Porém, ingênuo quem realmente acreditou que ele não é criança. Como se classifica alguém que grita mais que o coral de idosas em quinta feira Santa para informar à Igreja toda que “o Bolêro tá icondido nu colai!”. Sendo que este mesmo alguém, minutos antes, tratou de ocultar-se embaixo do banco e embaraçar no colar colorido da mamãe braços e pernas do valente arqueiro…

Mas ele mesmo logo o admitiu, após a comunhão. Começou perguntando “o que você tá comendo?”, ao que eu, por reflexo, quase respondi “Jesus”. Só que, imaginando o desdobramento da conversa, que era acompanhada por toda a silente assembléia, optei por reproduzir a resposta que muito ouvi durante minha infância: “a bolachinha da paz”. “Ah. Também quero”. “Primeiro você precisa ter dez anos e fazer a primeira comunhão”. Como eu voltasse à posição de contrição a cada linha do diálogo, apesar das muitas risadinhas comunitárias – que eu não condeno –, ele resolveu calar. Apenas estendeu a mim os dois dedinhos magrelos, indicando a idade. Então redecidiu falar com energia: “Quiança não podzi comê bolacinha da Igueza, quiança podzi comê bolacinha da minha casa i assiti tevisão na minha casa i VDD, i í nu cólu e dá a mão”.

Criança pode tudo isso mesmo. E, nesse caso, até adulto pode rir como criança. E foi o que eu e muitos fiéis fizemos juntos.

 

Exagérese

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Nenhuma vez me disseram o nome desse troço. Tá escrito “e-caligrafiaruím-ese”. Nas idas e vindas do agendamento, eu arrisquei todas as pronúncias que me pareceram possíveis, e só ouvia em resposta um “hum” – em todos os casos. Hoje na clínica resolveram chamar de “procedimento”. Procedimento é escovar os dentes. Estacionar o carro. Dobrar um lençol de elástico…

Clínica cirúrgica, procedimento cirúrgico, sala cirúrgica, maca cirúrgica, campo cirúrgico. E eu ali, deitadinha, durinha, sensivelzinha. Para a retirada de um cisto cebáceo.

A última vez em que aconteceu algo parecido foi na despedida do meu último terceiro molar. (O quarto, então, hehe). Uns vinte e um anos, eu devia ter. E chorei a tarde inteira tomando sorvete no sofá da sala. De pura dó de mim.

Já as primeiras vezes em que passei por algo assim… Inesquecíveis: Aos quatro anos pulava na cama obstinadamente e ouvia a ameaça “cabra maluca quebra os cornos”, como um mantra dando ritmo à molequice.  Caí de testa no baú de cabeceira. Lembro da pia do banheiro cheia de gelo e sangue, e de ter manchado a jaqueta (“capinha”) branca que minha avó tinha lavado na véspera – esse detalhe é o que faz mais efeito no Davi quando conto essa história para que ele pare de pular na cama, ou obedeça, ou saiba que eu, quando criança, também pulava na cama e desobedecia: a capinha branca recém lavada toda manchada de sangue. Dias depois, fui tirar os pontos engatinhando pela calçada, por dois quarteirões, de tanta birra que eu fiz e de tanta firmeza que minha mãe teve.

Aos cinco, operei do primeiro ssisstossebásseo, que eu denominava com o charme do ceceio anterior. Cenas de terror na sala de espera, depois de muito-muito esperar, quando a enfermeira resolveu (coitada, não foi ela que resolveu isso, eu sei) que minha hora tinha chegado. Bem aquela hora, em que minha mãe tinha ido rapidinho no carro amamentar meu irmãozinho. Eu lá no colo da minha avó, de onde não queria sair em hipótese alguma, muito menos para o colo de uma desconhecida vestida de branco, que me puxava com muita força. “Não deixa eles fazerem isso comigo, vó!” – eu gritava o mais forte possível. Ela, com suas unhas vermelhas e seu colo macio, provavelmente partida entre o dever e o querer, precisou me entregar. Logo um cheirinho fumacento de morango calou meus prantos. E depois da alta eu ganhei cachorro quente e brigadeiro.

Hoje, olhando para aquele tudo branco comecei e me sentir uma verdadeira vítima. A posição paradoxal de passividade em que a gente se encontra nesses casos é demais para mim: o corpo é meu, a coxa esquerda é minha, o cisto é meu e só o que eu posso fazer é respirar e relaxar. (Para quem gagueja isso é péssimo de se ouvir. E para quem se submete a uma e-sabe-lá-o-que-de-lesão-cística também.)

Esperei, por cinco picadas, a anestesia pegar. A partir daí, só tive que abstrair do remelexo que ocorria em minha perna para iniciar uma linda viagem pelos caminhos da imaginação. É claro que foi então que me lembrei dos detalhes acima descritos, e – especialmente na parte da capinha branca, da unha vermelha e do brigadeiro – eu solucei. O que fez a enfermeira perguntar se estava tudo bem, dizer para eu respirar e para eu relaxar. Paciência.

Conheci os pequenos furinhos interrompendo o branco eterno da parede azulejada, as bolhinhas da pintura branca do suporte da luminária. Ouvi barulhinhos que tentei, em vão, ignorar. Está cortando? Está queimando? O que ele está ligando? Cocei uma coceirinha no pescoço. Tocou meu celular. Duas vezes. Pedi desculpas – uma vez só, hehe.

Lembrei de uma vez em que o otorrino da minha paciente me disse por telefone com sua irônica voz que, sabe como é, era melhor eu não acompanhar a frenectomia dela não, porque eu podia desmaiar.  Naquela oportunidade eu tentei argumentar até onde a humilhação permitia, mas hoje eu diria, muito serenamente, “o senhor tem toda razão”.

Deitada naquela maca, vendo a hora passar, eu decidi que sim, eu era forte, eu era uma profissional da saúde muito bem formada, mas livre para optar por não espiar nada que estivesse acontecendo em frente ao Dr. Dermatologista. Foi quando um movimento ocular rebelde e insubordinado fez com que eu visse uns dedos de luva sujos de sangue. Pronto! Destruiu meu sonho. Justo quando um arco íris com fim em si mesmo emoldurava minhas lúdicas imagens de esferas perfeitas e branquíssimas saindo de dentro da minha pele e flutuando para a atmosfera, compondo com o tom salmão do meu vestido uma cena digna de Jelly Jam.  

Bem, depois de tudo terminado, doctor D. foi muito nobre em me estender sua pinça com aquela… verdadeira… bola de sebo pendurada na ponta. Mais nobre que o obstetra que negou-se a me mostrar a placenta do meu filho. Será que é porque o bebê ficou só nove meses dentro de mim, enquanto que o cisto ficou logo uns vinte anos? Hum…

Sei que, oscilando entre o lugar comum do alívio pelo fim da novela cirúrgica e o temor do que meu corpo possa vir a aprontar agora, eu muito me confortei ao rezar no começo e no final de tudo a invocação a Santo Inácio de Loyola: “Dentro de Vossas chagas escondei-me”. Certamente, é das chagas e dessa súplica ao bom Jesus que vou me lembrar sempre que olhar para essa cratera em minha perna e para a cicatriz que agora faz parte da minha história.

Visceral

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Saltitou por três dias antes de só se aguentar deitado de bruços. Numa pacata tarde resolveu render-se e, pulando miudinho, anunciou: “mamãe, preciso ir no no banheiro, rápido, rápido”. Depois de ajeitado, pediu privacidade. Bateu as perninhas até saírem voando bermuda e cueca. Começou a falar sozinho. A transpirar. A espremer os olhos, morder os lábios. A gemer. A gritar.

“Tá precisando de alguma coisa?”. “Não. Aiaiai. Dói muito. Fica comigo.”. Sentei no chão, despejei as trinta histórias de que tudo o que entra sai e de que tudo termina bem, se ainda não deu certo é porque não terminou. O suor fez uma gota na pontinha do nariz.

Bracinhos doendo por apoiar na bacia, barriga doendo, bumbum doendo. Dobrei seu tronco, berrou com medo de cair. Fiz massagem na barriga, piorou a dor. Sugeri outras inutilidades, foram mesmo inúteis.

Ele negava qualquer progresso que o aroma estivesse anunciando. Pedia ajuda mecânica, mas não possuíamos vacuoextrator.

Hiponasal, avisei que ia esperar lá fora. Com braços salgados e arrepiados, ele me segurou: precisava de mim. Fiz mais um pouco do mesmo.

Saí decidida e retornei com uma folha de jornal. “Mas eu nunca fiz isso”. “Tudo tem uma primeira vez.” “Você sempre fala isso. Jornal nãaao!”.

Carreguei-o rígido e entupido. Gritou mais, transpirou mais, olhava através de mim, dor de pavor. Joelhos estirados, negava-se a debutar sobre o anúncio de geladeiras das Casas Bahia. O penico do irmão, nem pensar. Não dispomos de moita, senhor…

Berrou muito mais. Devolvi-o ao trono. Tudo igual, menos o meu estado de espírito.

O desespero e o descontrole dele refluiram até mim pelo cordão umbilical que dizem que não existe mais. Gritei, também eu desesperada: “é só um cocôooo!!!”.

Última força. Pedra na água. Arqueado, ele voltou a respirar. “Muito bom… Quero tomar uma ducha. Quero ficar com você, mamãe.”

O sertão virou mar. O vinho, água. A hora do rush, manhã de domingo. O fogo, fumaça. A trave, cisco. O urubu, meu loro. Desenfezamo-nos.

Corre…dor

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Caminhando rápido em direção ao meu antigo quarto, bati os olhos primeiro no “museu da família”, a parede forrada de fotos que contam lindas histórias. Meus avós sorrindo, nós cinco no mesmo sofá, meu noivo, meu esposo, meu barrigão, meus bebês. E em seguida, sem querer, bati os olhos no chão do corredor.

E me lembrei de quando ali havia carpete, e batia sol vindo pela janela do jardim interno, por entre as altas árvores plantadas na terra que eu comia desde os sonhos da minha mãe gestante.

E me lembrei da cadeira de vime, que amamentou a mim e a meus irmãos quando a vida ainda tinha cheiro de calma.  

E dos cachos loiros esvoaçantes do meu irmãozinho que resolveu dar uma de cabeleireiro, brincando sentado no chão sobre suas pernas gorduchas.

E dos exuberantes celofanes dos ovos de Páscoa nas portas dos nossos quartos – nos quais tropeçávamos surpresos se acordássemos distraídos -, emendados em pegadinhas de coelho feitas com talco.

E do medo que eu sentia quando brincávamos de terror com as vizinhas, e passar por ali sem olhar para trás era o desafio maior.

E das idas e vindas sistemáticas da escrivaninha, no quarto, para o armário de guloseimas, na cozinha, enquanto fazia minhas infindáveis e calóricas tarefas.

E do som dos primeiros saltos, quando, com gosto de batom, eu caminhava carregando um presente de aniversário.  

E de uma florzinha enfeitando o guia do bixo, no dia em que entrei na faculdade.

E do alívio de chegar em casa após muito trabalhar, carregada, com prontuários e artigos dentro da bolsa que eu largava ali, em qualquer lugar.

E das outras coisas que aconteceram depois, de nove ou dez anos para cá, que não me conformo não terem sido ontem.

Agora ali o Davi pula pela janela, o Pedro derrama no chão seus MM’s, os dois correm atrás da gata. Eu tento descer saltitando as escadas que não mais existem e, para falar a verdade, enxergo ainda no carpete ausente os pés úmidos dum sapeca saído do banho, que hoje calça quarenta e de quem as pegadas marcam a neve, não mais o solo tropical. E escuto esmurrar minha porta mãos que hoje não dão conta de qualquer provocação, e só fazem afagar os sobrinhos.

Ando por ali carregando, semana a semana, sacolas e sacolas de coisas. Por apenas mais algumas semanas. Mas para sempre posso carregar as lembranças que me trazem esse corredor e tantos outros caminhos…

 

Para você, mãe, por tantas boas lembranças e pela coragem de novos caminhos.