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Primeira vez

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Em pé ao lado da mesa da professora primária, a menina aguardava a correção do exercício. Quieta, observava: a caneta apoiada nas mãos senhoras, o cabelo bem ajeitado, o batom bordô sóbrio ultrapassando levemente um ponto do contorno labial.
As colegas, lição terminada, iniciavam a merenda. Seu estômago, envolvido pela sainha de pregas, já devia estar de prontidão.
Uma amiga aproximou-se e, como de hábito, ofereceu à professora uma fruta esverdeada. Os olhos musgo da menina, salpicados de castanho, esperaram. A mestra degustou e, em seguida, ofereceu-lhe. Ela aceitou.
Que lanche levara ela, aquele dia? Não há memória. A memória acusa, porém, ainda, sempre que acessada, com requintes de detalhe, o sabor de pera firme misturado ao de batom.
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Para tia Marli. Com amor.

O universo paralelo do sono

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Uma vez, há alguns anos, imprimia muito cuidadosamente cópias do volume da minha qualificação de mestrado para encadernação no dia seguinte, quando a tinta da impressora acabou. Não tínhamos reserva em casa. Eram dez horas da noite. Mantive a calma, procurei não me taxar de irresponsável e tomei coragem para a atitude mais acertada: pedir socorro para o meu pai, que já devia estar dormindo com os anjos haveria ao menos uma hora.

Telefonei. Ele me atendeu bem humorado, estava mesmo dormindo, mas não via problemas em acordar para me atender, nem em seguir as instruções minuciosas que eu enviaria por e-mail; na manhã seguinte os volumes estariam em minhas mãos. Foi tão solidário e compreensivo, que até brincou comigo: “a tinta da impressora é como os grampos do grampeador: só acabam quando a gente está usando”. Ri, relaxei, confiei.

Na manhã seguinte, aliviada pela conclusão de uma etapa, pisei na garagem de casa uns minutinhos mais tarde do que o comum, e percebi um vulto em frente ao portão. “Você não está atrasada, mocinha?”. Recebi no colo cinco blocos de papel cuidadosamente separados, ordenados e identificados.

O semblante sério de meu pai soou incompatível com a receptividade dele na noite anterior. “Tá tudo bem, Pá?”. “Tudo bem, mas você não acha que arriscou muito em me pedir uma coisa assim tão importante por e-mail, sem nem me avisar? E se eu por acaso não olhasse o computador ao acordar?”.

Agradeci e peguei a estrada; estranhei o mal entendido, repassei todo o evento no longo caminho até a faculdade, não conseguia ligar as pontas. Mais tarde, com os volumes entregues à encadernação, surgiu-me uma hipótese. Telefonei para meu “pai pra toda obra” e descobri que ele não tinha registro mnemônico do telefonema, apenas do e-mail – que acreditou ter lido em tempo hábil por pura sorte. Nesse caso eu tive, realmente, muita sorte.

Recorri aos detalhes emocionais da história, não são eles que fazem a ponte entre os amnésicos e sua própria mente nos lindos filmes? “E não te soa familiar que os grampos do grampeador teimem em acabar única e exclusivamente quando estamos usando?”. Silêncio. Confusão mental. “Alguém me falou isso esses dias”, ele disse encafifado, e completou: “não foi você?”. “Por e-mail?”, eu retruquei. Não, ele sabia que aquelas palavras haviam sido trocadas na modalidade oral, e começou a desconfiar de uma lacuna em sua linha óbvia de raciocínio, e não de uma atipia em minha linha – geralmente confiável – de ação. Até que se convenceu: eu realmente telefonara para ele. Quando ele estava dormindo.

***

Esta semana voltei do clube ao anoitecer com os meninos exaustos, o Pedro adormeceu no carro. Coloquei-o na cama bem cedo, ele ficou. Hora e pouco depois, fizemos barulho demais e ele choramingou. Entrei no quarto abafado e, vendo que estava suado, ofereci água a ele. Ficou de quatro, com os joelhos apoiados no colchão e as mãozinhas no travesseiro, sugando a água do copinho com válvula tão bichinho e tão branco como um hamster.

Tomou meio copo e parou para respirar. Para minha surpresa, tornou a sugar muitos goles. Engasgou e suspendi a água – eu, mãe, não tinha interesse em tanto xixi. Deitou e sussurrei a ele que achei seu boneco (que há dois dias ele procurava pela casa). Muito me espantou vê-lo segurar o Buzz com firmeza –, ele que, diferente do irmão, prefere dormir livre, leve e solto dos bichos e dos amigos.

Ajeitou o corpo do Buzz na mãozinha com muito tato, e… começou a chupar-lhe a mão de borracha. Incrédula, segurei o riso e observei. As sobrancelhas franziam, os sulcos nas bochechas indicavam a força crescente de sucção.  Nada feito. Ainda com os olhos fechados, segurou o boneco com as duas mãos, e fez-lhe rodopiar. Abocanhou um pé, e dá-lhe sugar a botina. Eu sentia os meus olhos espremidos molharem de riso, o abdômen doer, o fôlego faltar. Antes de meter na boca o terceiro membro ele abriu os olhos levemente, mas não registrando o que viu, pôs- se a chupar com esmero a mão esquerda do boneco. Suspeitou do encaixe, chupou-a de costas. Não aguentei e sonorizei um breque da minha gargalhada. Ele abriu os olhos e riu também, uma risadinha social. Aceitou, sem perceber direito, que eu trocasse o Buzz pela água, tomou mais uns ml, deixou o copo ao lado do travesseiro e virou de lado, deitado sobre as mãozinhas. Dormiu até o amanhecer.

Ao sabor do futebol

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Tanto me exigiu e me pediu mil coisas, que com a fúria da provocação eu disse sim ao futebol. Levantei do sofá tonta com o contraste da moleza de até então, e disse palavras irônicas e impacientes.

Procurei a bola no lugar errado, bati uma porta barulhenta e vi meu filho de olhos arregalados e sorriso excitado assistir meus movimentos agressivos.

Chutei. Com toda a força da minha perna direita, lábios apertados. Uma bomba categórica, como nos velhos tempos. Os três primeiros lances do jogo foram gols meus, estourados no muro de chapisco.

O anjo da guarda, com a faixa de capitão, protegeu o nariz do Davi e a minha consciência de jogadas perigosas.

“Você tá gostando?”; “Nossa, mamãe, você joga muito bem!”; “Puxa, você conhece muito as regras do futebol”, ele me dizia elogios, voz querida e sedutora, gratidão e remorso misturados. O jogo terminou doze a um pra mim. Antes de perder mais feio ele interrompeu a partida, divulgando os resultados, com uma positividade inventada ali mesmo.

Ouvindo-o narrar o jogo, com um estilo tão menino e tão universal, deixei ecoar em minha memória o som forte das trombadas da bola murcha na parede. Estava ali com toda a força dos meus músculos revoltados (até pelo arrependimento de não ter dito um sim livre e natural). Mas o que me fez jogar tão bem não foram os meus tênis rosa choque ou meu merecido condicionamento físico. O que contribuiu na qualidade do meu desempenho foi a memória muscular do espaço, a memória auditiva do som do gol, a memória sensorial do sol no rosto e, principalmente, a memória emocional da competitividade que menininhos vaidosos e competitivos provocam, desde sempre, em meu ser.

Transpirando e pirando, corri, pulei, mirei, chutei e – o mais difícil – segurei o sorriso que insistia em surgir no cantinho dos meus lábios a cada gol sortudo, a cada bomba eficaz e a cada vez que via o Davi admirado.

“Quando o menino joga futebol e corre muito, sai água da cabeça”, me disse hoje o Pedro, explicando, como ninguém, o suor. Nesta partida relâmpago, não eliminei apenas água salgada, mas também culpa amarga, críticas ácidas, humor azedo e muitas, muitas doces memórias.