Arquivo da tag: missa

Eis-me aqui

Padrão

Chegou à Igreja, missa começada. Cederam-lhe logo um lugar. Vestia boas roupas. Barba e cabelos finos salpicando a careca. Tossia muito nas mãos magras de unhas bem aparadas. Rezou sentado, completamente curvado no banco. Elegeu poucos momentos para ficar em pé. Um deles, no ofertório, foi para retirar do bolso a carteira, e dela uma nota de cinquenta. Escândalo dos meus olhos e admiração da minha alma. A precariedade do corpo deve ter esclarecido a ele em que empenhar as economias.

Não sei seu nome, impossível estimar sua idade. Durante uma crise de tosse, toquei-lhe as costas e ofereci-me para buscar um copo d’água. Com o rosto amarelo e o sorriso maior do que nunca – sendo os dentes os únicos não emagrecidos – agradeceu, justificando com frases sobre o pulmão e o tratamento. Amanhã é dia de quimio.

Passou a missa segurando a bengala, o boné e uma agenda de 2012. Pensei que os três símbolos o resumem: a bengala apóia o fio de vida; o boné nas mãos indica a devoção; a agenda de ontem declara que tem consigo seu passado. O futuro, a Deus pertence.

Anúncios

Dinossauros católicos

Padrão

Há algumas semanas o que anima o Davi para ir à missa é a provocação: “mas e se o Gabriel estiver lá?”. Decide os brinquedos que vai levar pensando no amigo da escola, escaneia a assembléia em busca do coleguinha.

Hoje, achamos, eu e ele, nossos lugares num banco já cheio. Minutos após nos sentarmos, quando eu terminava de ler uma história da Bíblia para Crianças, bem ao pé do ouvido, com ele no meu colo, vi um sorriso sincero abrir-se: “eu vi o Gabriel”.

O Gabriel e sua família estavam exatamente na linha do nosso banco, do outro lado da igreja. Convidei-o com um gesto para vier até nós, e ele veio com seus cards de dinossauro. “Sabe meu dente que tava mole, Davi? Ó!”. Mostrou a janelinha na boca. A Fada do Dente presenteou-o com os dinos.

Passaram a hora revezando entre oração e bate papo, anquilossauros e a parábola do bom pastor, o mapa da Galiléia e o estegossauro. Deram-se as mãos no Pai Nosso, me disseram os nomes de seus padrinhos ao assistir o batizado, entraram num consenso sobre me acompanhar ou não na hora da comunhão.

O Gabriel me despistava com “mas a gente falando baixinho” e o Davi olhava para mim com um sorriso lindo – entre cúmplice, agradecido e bagunceirinho.

Interrompi uma das conversas empolgadas com “agora é hora de falar obrigado pra Jesus pelos nossos amigos”. “Mas na cabeça, tá, mãe?”, destacou meu filho encabulado.

Os fiéis ao redor de nós estavam certamente mais encantados com a vida viva e as gracinhas dos dois amigos, do que contrariados com o barulhê. Comovi-me ao perceber que a comunidade abraça a cada um, e que, assim como meus amigos sustentam minha vida, meu filhinho já tem sua vida sustentada pelos seus.

Depois da celebração, despedimo-nos da família do Gabriel com gostinho de quero mais. Entramos no nosso prédio, Davi muito mais saltitante que o normal. Me disse que adorou encontrar o amigo. E eu me lembrei: “Sabe o que Jesus falou uma vez, filho?”

“O que?”. “O que, mãe?”, parou de saltar pelo quadriculado do piso do hall, impaciente com minha demora em responder.

Engoli o choro e finalmente respondi: “Quando dois ou três estiverem reunidos em meu nome” – novo fôlego embargado – “aí eu estarei”.

“Então ele estava!”.

Estava sim, filho. E permanecerá.

Canção, novela… romance.

Padrão

Ouvir rádio hoje foi mais interessante. Algumas declarações de amor, algumas lamentações de amor, muitas músicas de bailinho da vassoura. A esposa que deixou um bilhete surpresa para o marido dentro do carro, já às cinco da manhã; o radialista que despertou sua companheira com um beijo e um enigma.

Na academia só para mulheres foi instigante observar o movimento das conversas: quando alguém, apaixonada, começava a contar sobre os planos para mais tarde, muitas outras revelavam suas ideias, de românticas a picantes. Quando alguém, frustrada, reclamava que o marido ia jogar bola esta noite, muitas outras entortavam a boca e revelavam suas próprias decepções, de esquecimentos a presentes de grego. As mesmas interlocutoras teceriam conversas muito diferentes, dependendo do estímulo.

Há algumas semanas observei, compenetrada, dois casais durante a missa. Um deles evidentemente de namorados: o rapaz acariciava o ombro da companheira, a abraçava e falava em seu ouvido, mesmo que ela tentasse guardar silêncio ou ficar ajoelhada por um pouco mais de tempo que ele. A expressão corporal da moça, que eu só vi de costas, me disse que ela queria um pouco mais de introspecção e menos paparico. Não deixou de ser receptiva ao namorado, mas me pergunto: porque será que eu li seu pedido por oxigênio e ele não leu? Supus que, dentro de alguns anos, senão meses, senão minutos… a paciência da moça poderá se acabar. E a por vezes inoportuna ternura do rapaz poderá ressentir-se disso.

O outro casal revezava passeinhos, balangadas e passadinhas de fralda no rosto de seu primeiro bebê fofucho. Embasbacados, os dois, com aquela criancinha amada. Mas, enquanto o pai babava litros, a mãe parecia querer um pouco de ordem e de funcionalidade. Sacava os objetos de dentro da bolsa sem precisar olhar para as mãos, arregalava os olhos quando o pai sacolejava o bebê de um jeito que lhe parecesse menos conveniente. Mas ele não soube disso, porque não olhou para ela, não a percebeu; naquela cena só tinha olhos e braços para a filha. Tanto que quando a menininha passou para o colo da mãe, tão entusiasmado abaixou-se para beijar sua barriguinha, que bateu com força a cabeça no nariz da esposa, que, com as mãos ocupadas, nem pode segurar a dor que seus olhos crispados exprimiram. O marido nem percebeu: não pediu desculpas, não a acariciou, não a pegou no colo. Fiquei imaginando que, se isto ocorresse há algumas semanas, ou meses, ou anos, a mulher – que ainda viria a carregar no colo a filha que carregava no ventre, ou que ainda viria a carregar no ventre a filha que carregava na alma – poderia estar sendo consolada, cuidada, admirada e mimada pelo seu companheiro babão.

Avançando ou retrocedendo a fita de nossos discursos, manipulando o tempo do filme de nossos momentos, tentemos perceber nós mesmos o que fazemos com nossos amores e como tratamos quem mais nos importa. Talvez valha a pena recuperar os episódios iniciais de nossas novelas, para inspirar próximos capítulos instigantes e construir o tão desejado final feliz.

Cenas de solidariedade por ocasião da Páscoa*

Padrão

A imagem do escuro/claro foi a tônica com o Davi nesta Páscoa. Ele entendeu muito bem que às três horas da tarde na sexta-feira santa, quando Jesus morreu, ficou tudo escuro e “chuva, e céu preto e monstros e fantasmas”; a manhã da ressurreição, por outro lado, foi cheia de luz “e as pessoas ficaram felizes porque têm Jesus no coração”.

Tendo introduzido o tema da luz e das sombras, posso contar que durante esta quaresma o lustre de nossa sala queimou, e fomos ao supermercado, eu e os meninos, comprar uma lâmpada para reposição. Depois de passar três vezes pelo mesmo corredor respondendo a infinitas perguntas sobre pneus, lanternas e porque crianças não podem ganhar brinquedos para cachorros, resolvi perguntar para uma moça se ela sabia onde ficavam as lâmpadas.

Enquanto ela me respondia “bem ali”, apontando para algum ponto exatamente debaixo do meu nariz, percebi que ela vestia uma camiseta do uniforme da escola onde estudei durante oito anos. Perguntei o nome dela e me vi abraçando-a, enquanto exclamava “a minha professora de Educação Física!”.

Apresentei meus filhos a ela, e ela a meus filhos. O Pi pouco mudou, continuou sentado no carrinho com sua carinha branca. O Davi começou a piar enquanto eu pedia que ele dissesse “oi”, e a rosnar quando a moça começou a explicar os atrativos da escola para crianças de seu tamanho. Levemente frustrada, me despedi.

Reencontramos-nos minutos depois, na fila do caixa, quando a professora estacionou seu carrinho atrás de nós. Uma senhora pagava sete ou oito contas em nossa frente, o Davi começou a comentar sobre os ovos de Páscoa que forravam a loja, a apontar para seus eleitos, a pedir um deles – o azul – e a fazer uma cena inesquecível de birra. Eu mantive a calma, na verdade estava mais preocupada com a contrariedade por passar por isso às vistas de uma professora que há anos eu não via, do que em driblar os maus modos do menino. 

Quando o constrangimento pela gritaria do Davi, já deitado no chão, após ter usado todos os seus argumentos sensatos (como me dizer “mamãe, estica seu braço e pega o ovo pra mim, você precisa ter coragem!”), transbordou de mim e chegou à minha mestra, ela comentou algo sobre a demora da fila e levou seu carrinho de compras para outro caixa, bem longe dali. Semi-ufa.

Mas a birra continuou e contagiou o irmão. Os dois chorando-gritando, eu começando a considerar impossível passar todos os itens do carrinho pelo caixa, ensacolá-los  com o Pi no colo, pagar e chegar até o carro sem danos à  integridade física de ao menos um de nós. Perguntei à senhora de nossa frente se ainda tinha muitas contas para pagar e ela respondeu, educada, que “não, só mais essas três”. Devo ter feito uma cara de pavor, embora tenha procurado manter minha expressão neutra.

Instantes depois, vi que a senhora mexia os lábios olhando para mim. (Exato, poderia ter dito que ouvi a senhora falando comigo, mas de início não ouvi absolutamente nada além do berreiro de minha prole). Cheguei mais perto e detectei que ela havia interrompido seu pagamento e se oferecia para me ajudar. Começou a pôr meus itens na esteira antes que eu pudesse aceitar. Enquanto isso começou a contar para o Davi que “todos aqueles ovos de Páscoa na verdade estão vazios, porque o coelhinho ainda está fazendo o chocolate, que está mole e só fica pronto na Páscoa”.

Nunca me senti tão bem em relação a uma história engrupidora de menores; os dois pararam de chorar, eu primeiro endossei tudo o que minha consciência permitiu (a outra parcela transformei em “é mesmo?”s), enquanto ela empacotava nossas coisas.  Terminei de pagar e encher o carrinho me desfazendo em gratidão, ela distribuiu “de nada”s sinceros e ainda completou dizendo que “não somos nada sozinhos” e que “nessa vida é um por todos”. Fez todo o sentido e eu tive uma certeza muito encaixada de que também agirei assim quando as crianças choronas da fila não forem as minhas.

Saí de lá sorrindo e serena, tocada com a humanidade que tinha acabado de me encontrar. 

Voltando à luz e às trevas: muito embora tivessem dormido apenas oito horas e durante este período acordado, ao todo, cinco vezes, os meninos despertaram ao primeiro raio de sol nesta manhã de Páscoa. Amamentei o Pedro enquanto fazia planos ousados de levá-los comigo à missa das sete.

Desejamo-nos Feliz Páscoa, encontramos os ovos e cenouras de chocolate que o coelhinho deixou em nossa sacada ao lado da cenoura que deixamos para ele. Engolimos alguns bombons (o Pedro também experimentou os restos da cenoura suja de terra, provavelmente a única coisa saudável que comeria neste dia), nos vestimos, nos despedimos do papai e de seu tornozelo torcido e levamos os brinquedos que vieram nos ovos de Páscoa para a missa.

Nos primeiros minutos dentro do carro o Davi me lembrou de que ainda não tinha feito xixi. Aturdida, conferi com ele se daria para aguentar até a Igreja. Ele consentiu e eu confiei. Chegamos ainda antes da homilia – eu, um coelhinho de pelúcia, as únicas crianças menores de sete anos de toda a Igreja e uma mala maior que uma delas.

Logo no penúltimo banco estava o vovô, que recebeu o Pedro resmunguento de “mamãínn” enquanto eu levava seu irmão mais velho ao toilette. A tia-avó organista nos acompanhou – e segurou o coelho – enquanto o Davi se aliviava reclamando do cheiro de banheiro. 

De volta à Igreja, ele educadamente desejou “Feliz Páscoa” baixinho a todos os conhecidos que encontrou e estabelecemo-nos no banco em que vovô e Pi nos aguardavam. Uma senhorinha fez questão absoluta de ceder seu lugar a nós e manter-se em pé até o final da missa. Mais tarde justificou-se, incluindo nas explicações sua “diverticulite nos intestinos”.

 Não entrarei em detalhes quanto à bagunça e aos ruídos que os meninos originaram durante os minutos de celebração que se seguiram, nem ao menos descreverei os malabarismos que me vi fazendo durante a consagração, em pé no corredor central com um filho no colo (querendo jogar para o alto a bola que segurava) e o outro filho no banco (chorando porque não estava grudado em mim).

Bastará dizer o quão encabulada fiquei após os cristãos idosos que nos rodeavam terem abaixado em média três vezes cada um para recolher os folhetos/peças de brinquedo/sapatos que os meninos compulsivamente deixavam cair.

Achei por bem sair da Igreja com as cuias (a mala ficou com o vovô) e deixar que os pequenos brincassem num cantinho do átrio com as mil pecinhas que haviam levado. Foi aí que uma nova cena marcante de solidariedade teve lugar.

Um senhorzinho, que se apresentou como alfaiate do padre, abaixou ao meu lado e me disse que agora eu não sei, mas um dia saberei; ele tem um bisnetinho que entra em casa correndo e perguntando se “o f*%$ da p&#@ do bisavô dele já foi para a alfaiataria”. (Por uma fração de segundos fiquei em dúvida se o senhor estava reclamando da ingratidão dos seus descendentes, mas logo percebi que não).

Mostrou-me sua carteira com a imagem da Sagrada Face, disse que as crianças são a melhor coisa do mundo, reforçou que um dia, quando eu tiver meus netos, eu saberei, e terminou desejando Feliz Páscoa e dizendo – já teria sido muito bom se ele não tivesse terminado assim, mas devo enfatizar que ele disse  – que viu a forma carinhosa como eu entrei com os meninos na Igreja.

Nesse instante, o embaraço, o cansaço e a ponta de arrependimento por ter levado meus filhos à missa das sete deram lugar à gratidão, à consciência de comunidade e à clareza (com todo peso da palavra após estas linhas) do que é a Páscoa.

 

*Escrito na manhã de Páscoa de 2011.

DeclAMAções

Padrão

Há alguns dias, emissões inequívocas vem escapando de seus “lábeus”.  Geralmente no carro, rompendo longo silêncio.

Comecei a observá-las com mais diversão no dia em que escutei, vindo do banco de trás, o CPF do pai cantarolado baixinho, continuamente.

No dia seguinte, brotou do silêncio absoluto em nossa volta para casa: “não quero pôr gasolina comum”.

No outro dia, observando alguma coisa em algum jardim do caminho, soltou: “regador não é mangueira”.

No outro, equilibrou o Cascão no braço do cadeirão e ordenou: “Fica aí dzi pé, sentadzinho!”.

Numa noite, afirmou: “Eu tenhu medu du iscuro, mas iscuro não existe”.

E na noite seguinte, com pai e irmão também no carro, perguntou: “puquê dzi noitsi a zentzi passia intêro?”. Pedimos três repetições. Continuamos não entendendo. Ele, exigindo uma resposta, gritou: “Pegunta pa mim!” Então o sexto sentido materno sussurrou no meu ouvido que se referia ao fato de estarmos ali família inteira.

Hoje eu tentava acordar o irmão para a tão esperada missa vespertina do Lava Pés, quando ele apareceu calçado, dizendo: “eu puis sandália, eu tô lindo”. Tentou um pouco solucionar a correia solta, irritou-se, silabou “GI – FI – ÇÔ!!!”, desistiu e veio até mim: “eu pidi azuda”.

Sandálias calçadas, desapareceu, fuçou onde não devia e, num arroubo de consciência, voltou dizendo: “eu não vou mecei em nada, eu só mecei na póita da casa”. Forçando naturalidade eu indaguei: “e você é adulto ou criança?”. Contrariado, prevendo o efeito da retórica da mamãe, assumiu com as exatas seguintes palavras: “Nem adulto, nem quiança. Sou um minino bávu e sátu”.

Porém, ingênuo quem realmente acreditou que ele não é criança. Como se classifica alguém que grita mais que o coral de idosas em quinta feira Santa para informar à Igreja toda que “o Bolêro tá icondido nu colai!”. Sendo que este mesmo alguém, minutos antes, tratou de ocultar-se embaixo do banco e embaraçar no colar colorido da mamãe braços e pernas do valente arqueiro…

Mas ele mesmo logo o admitiu, após a comunhão. Começou perguntando “o que você tá comendo?”, ao que eu, por reflexo, quase respondi “Jesus”. Só que, imaginando o desdobramento da conversa, que era acompanhada por toda a silente assembléia, optei por reproduzir a resposta que muito ouvi durante minha infância: “a bolachinha da paz”. “Ah. Também quero”. “Primeiro você precisa ter dez anos e fazer a primeira comunhão”. Como eu voltasse à posição de contrição a cada linha do diálogo, apesar das muitas risadinhas comunitárias – que eu não condeno –, ele resolveu calar. Apenas estendeu a mim os dois dedinhos magrelos, indicando a idade. Então redecidiu falar com energia: “Quiança não podzi comê bolacinha da Igueza, quiança podzi comê bolacinha da minha casa i assiti tevisão na minha casa i VDD, i í nu cólu e dá a mão”.

Criança pode tudo isso mesmo. E, nesse caso, até adulto pode rir como criança. E foi o que eu e muitos fiéis fizemos juntos.

 

Missa das sete

Padrão

Os meninos acordaram cedo, muito cedo. E eu fui logo convidando para a missa das sete.

O Pi respondeu que sim, empolgado, antes de entender do que se tratava. E, partindo do princípio de que tudo o que o irmão tem ele quer igual ou maior, o Davi também aceitou vibrando. Trocamos de roupa correndo, passei um paninho molhado nuns três olhos e meio e entreguei uma barrinha de cereal na mão de cada um.

No caminho, o Davi percebeu que era cedo: “mãe, só tem um grão de sol”. “É, filho, é a missa das sete”. Mas, na primeira curva do caminho o dia anunciou sua generosa luz. E ele: “mãe, tem muito sol na minha cara”. “Mas filho, não tinha um grão de sol só?” “Não, agora tem uma tigela de sol! Vai demorar muito pra chegar nessa missa das sete igrejas?”.

Só achei vaga de idoso para estacionar. Mas se algum amarelinho chiasse, haveria de existir algum velhinho disposto a simular sua entrada no carro, só pra me ajudar, não? Velhinho ali não faltaria. 

Corremos até a igreja. O Pi, sacolejando no meu colo, começou a rir e, logo em seguida, a gritar: “eu vou cair!!”. Achei melhor sossegar o balancê, porque seria essencial que eles ficassem com o fogo apagado ao menos por uma hora.

Entraram comportados. Sentaram quietos e esperaram. Uns trinta segundos. E então começaram a perguntar. Cadê a outra barrinha? Porque aquela luzinha está acesa? Posso deitar aqui? Quem é esse santo? E a pedir. A água. O colo. Que eu contasse história. 

Logo o tio avô subiu ao altar, para cantar o salmo. “Ó lá o tio Zé, filho”. “Não tô vendo”. “Ali em cima, perto da mesa do padre. Ó a careca dele lá”. “Ah, já vi. Ele tá cantando”.  “Viu, Pi? O tio Zé cantando lá em cima? Escuta. Ó, vai descer a escada. Tchaaau, tio Zé, tchaaau!” Ele abanou mãozinha na direção correta, certamente havia encontrado.

“Ah, eu vi o vovô”. Uai, e que eu tanto procurei ainda não achei… É mesmo! Jura que a gente conseguiu chegar antes dele? Uia! Ufa: chegou reforço. Mas nem precisou, eles estavam macios. Ao menos enquanto durou o lanchinho. E as minhas respostas catequéticas.

Antes que derrubassem o folheto, ou a água, ou o cofrinho de cerâmica que o Davi levou – sim, acreditem, ele levou um porquinho de cerâmica dentro da mochila – chegaram os momentos mais dinâmicos da celebração. Expliquei o ofertório da solidariedade e ouvi: “Isso é doação”.  Fiz a oferta e escutei: “Da próxima vez que a moça passar com essa sacolinha eu que quero pôr o dinheiro”.

E chegou a hora da comunhão. Meus batedores andaram por aquele corredor em fila indiana, por ordem de tamanho, compenetrados e tranquilos. Até que o Pedro viu alguma coisa que fez seus neuroninhos acenderem e deu meia volta, afoito: “A tsua bolsa! A tsua bolsa! Tá lá!” Apontei a bolsa no meu ombro e ele relaxou. Impediram um pouco o tráfego, mas, chegando à frente do padre, encantaram-se com alguma outra coisa.

Comunguei e me deparei com uma das cenas mais lindas que já vi: os dois de mãos dadas, em pé, de frente para o órgão e para os microfones.  E para aquela coleção de cabecinhas brancas que cantava sorrindo para eles. Contemplaram-se uns aos outros. Olhar profundo, silêncio e música.

Caminhemos, alma em festa

Ao encontro do Senhor!

É Jesus que está chegando,

É Natal no coração.

Tanto me alegrei, tanto agradeci, tanto me fez bem aquele momento. Aquelas duas mãozinhas unidas. O tempo parou. Agachei perto deles e vieram um sentar no meu colo e outro apoiar-se em nós dois.

Mostrei a pontinha do primeiro degrau do altar e pedi que fossem até lá. Ficamos sentados ali por alguns instantes, até que o Pedro resolveu correr em disparada até a nave central. Ciente de que poderia ter sido mais grave, capturei-os de volta para nosso banco.

Fomos embora logo, o dia estava cheio. Mas agora, certamente não estava apenas cheio de compromissos e horários, mas de Graça e de Bênçãos.

 

Escrito em 27.11.11

Missa do galo

Padrão

Chegamos atrasados à missa das 18:00h. Sentamo-nos no último banco, perto de onde já estavam alguns da família – da de sangue e da de coração.

O Davi tanto fuçou no celular do tio que deve ter desejado Feliz Natal a meia agenda. O Pedro mexeu em tudo e ocupou todas as posições que teve ideia, mas suas risadas não podiam sequer competir com a barulheira das perguntas, comentários e gargalhadas do irmão.

Começaram a revirar a mochilinha: argola de cortina, caderno da fono, copo d´água, paninho de boca, um soldadinho, meus óculos escuros (!), o chaveirinho-lanterna de galo. Foi esse mesmo que o Pedro preferiu. Só depois de ouvir o brinquedo cacarejar feliz pela terceira vez foi que percebi que aquela luzinha azul e o inconfundível som vinham das mãos do meu crianço. Não é mesmo a primeira vez na liturgia que o galo canta três vezes para Pedro…

Pedi que parasse e ele consentiu. Então comecei a achar muita graça, cada vez mais graça… De todas as missas do ano, estávamos naquela que admitia já em seu título a brincadeira.

Ouvimos, professamos, confraternizamos, comungamos. Boa parte de nós já estava ao lado do presépio, fugindo do calor e do final da missa em si, quando o padre convidou as crianças para ajudarem a levar o Menino Jesus ao altar. Um grupinho de umas doze rodeou a imagem do Dono da Festa e foi atrás delas que meu dois titubeantes seguiram pelo corredor central. O mais velho conduzindo o mais novo pelo pescocinho. E eu entre fotografando e soluçando.

A Providência Divina encarregou-se de repetir o convite que me fez há dois natais, quando o Pi representou um nenê Jesus com 48 dias de vida: “consagre-os a Mim. O que você espera? Porque se inquieta com o que não é necessário? Escolha agora a melhor parte. Escolha por si e escolha por eles. Vamos, confie-os novamente a Mim”.

As crianças colocaram a imagem do Salvador na manjedoura e, ao som de aplausos, os irmãozinhos foram os últimos a subir ao altar. A igreja cantou Noite Feliz. Os dois ficaram bem atentos ao lado da imagem. O Pi de mãozinhas postas, imitando o celebrante. Eu entre lágrimas assistindo. Até que o Davi achou por bem pegar o Menino no colo. A assembléia gargalhou. O padre acudiu.

Mais uma estrofe da canção, e o Pi decidiu que era sua vez: puxou o Jesusinho pelo pé. O padre, já ali perto, rearrumou o nenê na cama. Ele tentou uma segunda vez. E uma terceira, “esse aí era o meu lugar aquela vez, peraí que eu vou trocar”, pode ter pensado. Eu chacoalhava de emoções, no outro extremo da nave central. O povo ria comigo. Até que uma ministra foi escalada para escoltar os fieizinhos sapecas, que, aprontando ou não, mantinham a pureza compenetrada no olhar.

E eu achando que a maior das travessuras tivesse sido o galinho cocoricando…

Mais aplausos. E, se ter-se feito recém-nascido, como um dia a cada um de nós que ali estavam, pelo mais puro dos amores, não for digno de uma robusta salva de palmas, nada mais merece ser aplaudido.

Meus mocinhos desceram os degraus do altar com sucesso, o moreno mais uma vez conduzindo o loiro, até que chegaram até seus honrados pais. Correu primeiro o maior, e ganhou um beijo. Depois o pequeno imitou, mais um beijinho também. Emoção, gratidão, a bênção final e… Feliz Natal!