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Viver ao lado teu

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“Marcas do que se foi, sonhos que vamos ter. Como todo dia nasce novo em cada amanhecer”. Assim terminou a apresentação de piano dos alunos da eterna namorada. Como começou? Com um agradecimento comovido dela ao marido.
Nesta noite de dezembro, assistiram graciosas crianças arriscando singelas escalas. Aplaudiram dedicados artistas revelando seus lapidados talentos.
Talentos esses que ela cultiva semanalmente, ano após ano. O que ele apoia continuamente, como fez desde os primeiros encontros no coral da igreja.
Sobrinho netão, da plateia, anotava as prediletas. Sobrinho netinho batia os pezinhos no ritmo.
“Por toda minha vida vou te amar, à espera de viver ao lado teu, por toda minha vida”.
Sobrinho netão curiava em voz alta. Sobrinho netinho adormecia sobre os casacos, embalado pelas melodias.
Além dos fartos arranjos de flores e dos sorrisos iluminados dos músicos, a plateia podia observar o cocuruto brilhante dele ao lado do penteado bem feito dela.
Lado a lado como têm estado por cinquenta anos nesta mesma noite, ao longo das últimas cinco décadas.

Para tia Celina e tio Zé, por ocasião dos cinquenta anos de namoro. Com amor.

A treze de maio

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A treze de maio

No dia de hoje os ventos trouxeram vozes. Logo às sete, preparando os meninos para a escola, “Ave, ave, ave Maria” entrou pela janela da cozinha. E fomos com ela para a escola, cantando e contando sobre a Imaculada Conceição.
Às nove, trabalhando no computador, “a três pastorinhos cercada de luz visita a Maria, a mãe de Jesus”, entrou pela janela do escritório. Os ruídos da cidade confundiram as notas musicais e trechos da canção pareciam um rádio fora de estação.
Ao meio dia, “a Virgem lhes manda o terço rezar a fim de alcançarem da guerra o findar” eu escutei de dentro do carro, enquanto me benzia, rumo ao reencontro com meus pequenos.
Às três da tarde, saí correndo do banho e chamei os dois para ouvirem o povo cantar, pela janela do banheiro. Entre ventos contrários e vozes de criança calçando os sapatos, escutamos trechos isolados do canto de piedade. Saimos de carro novamente, perguntando e respondendo sobre os muitos nomes de Maria e sobre a Cova da Iria.
Às sete da noite não estava por perto para os ventos me alcançarem, mas estava satisfeita sabendo que o vovô estava com os meninos na quermesse festiva de 13 de maio.
Voltei para casa às nove. Cansada do trabalho e dividida pela necessária ausência da paróquia do meu quintal nesta data especial. Passei o dia fazendo memória, mas meu desejo era por mais.
E, na última esquina, com a doce bondade da maternidade, a imagem da Mãe do Céu colocou-se a minha frente, rodeada pelos paroquianos meus vizinhos e pelo lume reluzente nas mãos de cada um deles. “Com estes cuidados a mãe amorosa do céu vem os filhos salvar carinhosa”. Cantamos, então juntos, a gratidão por Sua Presença.
Caminhei com eles, pés ardendo sobre o salto. E os ventos que levavam o som dos fogos de artifício à janela do quarto em que dormiam meus filhos soprou também todas as nuvens, de forma que as coloridas faíscas luminosas riscadas no céu tiveram em seu centro uma metafórica lua cheia.

Roxo

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Roxo

E então a música parou. Não como a cada dez minutos, para contarmos a pulsação. A música parou, e com ela pararam as gargalhadas, as confidências, os gritos eufóricos, os desabafos.
“Força nessa perna” e força para manter a disciplina, o ritmo, a dieta, o bom humor. “Solta o quadril” e solta o apego à comodidade, aos hábitos, às facilidades.
“Suar e sorrir”. Chorar e sorrir. Porque a história é escrita em muitas cores, mesmo que existam dias cinzentos.
Na sexta-feira mais roxa do ano, a equipe dedicada e apaixonada reuniu-se para desmontar sete anos de história. Restaram as paredes roxas. E muito mais do que isso.

Cadeira amarela

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Pensei alto na véspera do dia que mudaria por vinte anos – e, então, para sempre – meu estilo de vida: “essas professoras vão se apaixonar por vocês!”.

O Davi ouviu e veio encolhido para o meu colo: “Aaaai, eu tenho muito medo de casar nessa idade!”. Abracei-o com beijos saindo do meio do riso. Entregá-lo nas mãos de uma nova prô não seria o maior dos desafios. Mas voltar para casa sem meu caçula, sim.

Organizei-me da forma que pude até anoitecer. Não queria afobação, ao menos no primeiro dia de aula. Desenhamos juntos nosso cartaz de estrelas, para premiar quem levantar da cama logo ao ser chamado, quem comer frutinha no café da manhã e quem não enrolar a mãe. Arrumamos os itens das mochilas, pus nome em cada objeto, e confesso que por mim teria escrito “π” em todo o material do loiro… mas a preferência do dono do nome foi pela forma extensa: “Pre-do”.

Coloquei-os na cama aplacando algumas dúvidas e disfarçando minhas mãos trêmulas e minha voz embargada. Não foi fácil, porque, já a meia luz, escolhi uma música muito significativa para cantar. “Vai ser aquela do balão, mamãe?”, certificou-se o Davi, bocejando uma intimidade estranha com o grupo musical da minha infância. “Essa mesma, filho, do Balão Mágico”.

Naquela noite tive tempo de assistir os olhos deles piscando cada vez mais devagar, até as pálpebras grudarem de vez. Enquanto isso, cantava baixinho:

 

“Amigo, companheiro de colégio

Hoje eu canto de alegria

Por, de novo, te encontrar

Nas férias eu brincava todo dia

Mas, no fundo, o que eu queria

Era mesmo estar aqui

Uma pipa no céu todo azul

É tão linda de se ver

E brincar de boneca, pra mim

Fez meu tempo não correr

Mas a escola é a luz

Que ilumina o caminho da gente

E é por isso, amiguinho

Que hoje eu estou tão contente

Toda volta pra escola é assim

Tanta história pra contar

Todo mundo querendo se ver

Todo mundo querendo falar

A escola é a luz

Que ilumina o caminho da gente

E é por isso, amiguinha

Que hoje eu estou tão contente”*

 

Para não fazer papelão e eletrizar os dois bem no meio de sua viagem para o mundo dos sonhos, tentei me lembrar das muitas vezes em que minhas amigas da escola cantaram essa musiquinha esculachando e ironizando uma suposta alegria pelo final das férias escolares…

Fui dormir cheia de gratidão, mas tive um pouco de insônia e um pesadelo daqueles para coroar a madrugada, no qual eu perdia o Pi no meio do oceano. Super simbólico.

Acordei cedo, sem ninguém menor de idade na nossa cama. Antes das sete estava pronta, e para utilizar o tempo antes de acordar meus príncipes, resolvi tentar fazer um conserto com chave de fenda. Por razões não difíceis de supor, abri um buraco na palma da mão e corri para dentro, pedindo consolo e Band-Aid pro marido. Pronto. Assumi minha fragilidade emocional naquela manhã. Eu tinha meus motivos.

Os meninos colaboraram muito para não aumentar ainda mais meu nível de cortisol, e receberam sete estrelinhas cada um. Saímos de casa sem nem um grito. Rezamos solenemente no caminho. Chegamos na escola pontuais. Duas moças lindas pegaram pelas mãos os átrios e ventrículos do meu coração, e, conversando amenidades com eles, subiram as escadas para o futuro.

Sim, tivemos antes disso um momento em que a artéria aorta do ventrículo esquerdo enroscou gravemente na safena da minha perna direita, emitindo “quero você”. A prô então anunciou brinquedos e amigos “lá em cima” e eu, com um fio de esperança, perguntei se as mães também poderiam subir. Resposta negativa. O que é certo é certo, as mães ficam aqui sentadas nessa cadeira amarela esperando os filhos voltarem. “Mas eu quero você”. “Eu também quero você, meu bebê, onde eu estava com a cabeça quando resolvi te meter nesse uniforme e te fazer descer do carro, vamos lá pro chão da nossa sala brincar, você é o Buzz e eu sou o Woody, vc pode ficar com poder de fogo hoje”. “Mas o Davi já subiu, vai lá encontrar com ele”.

Aprumou-se todo o meu pequeninho, dentro da camiseta regata do uniforme (que foi a única que ele aceitou vestir, apesar do friozinho) e declarou, olhando para a professora: “Eu quero ir na fase do Davi e depois na minha fase, tá bom?”, como se estivesse falando com alguém de confiança. E estava. Era a sua “pô”, a pessoa que vai ser sua maior referência extra-família nos próximos onze meses.

Fiquei ali sentada, assistindo ao mesmo filme que passou em janeiro do ano passado.** Sem a menor concentração.

Duas horas depois, a prô veio devolver uma nova amiga do Pi para seu casal de pais sorridentes e me perguntou um pouco reticente se eu precisava mesmo levá-lo embora, porque ele estava tãaao bem… Um pouco reticente eu tentei investigar as próximas atividades, a umidade relativa do ar e a distância em centímetros entre meus dois filhos lá dentro. Então, nada reticente, pulei da cadeira amarela e corri pra a academia de ginástica.

Voltei depois de uma hora, um pouquinho descabelada, e sentei de novo na cadeira amarela, pois aí era o meu lugar. Tic Tac.

Meia hora depois, a coordenadora sentou em sua própria cadeira amarela, ao meu lado, e me sugeriu que voltasse ao meio dia para buscar os dois. Estavam muito bem. Minha boca entortou. Minhas sobrancelhas também. Meu raciocínio também. “Você quer dar uma olhadinha neles?” “Demorou, bora subir lá, vistoriar todas as salas de aula, examinar pediculose em todos os couros cabeludos de todas as crianças de todas as turmas, aproveita e vai mandando tirarem os sapatos que eu vou procurar frieira”. ”Ah… não sei se é bom eles me verem…” Mas eles não precisavam me ver. E eu fui.

E então, se já cheguei no alto da escada semi-derretida, terminei de derreter na porta da sala: bati os olhos naquela cabeleira loira brilhando sob a lâmpada fluorescente da bibliotequinha. Serenamente, em silêncio, de costas para mim, ele virava as páginas de um livrão ilustrado, sentado numa mini-cadeira e tendo ao lado um mini-amigo. Eu ficaria olhando aquela paisagem por mais algumas horas, levassem para lá uma cadeira amarela! Mas sabia que meus soluços infeririam na cena, então tratei de pedir logo para ver o Davi. Foi quando desmoronei. Atrás de mim localizava-se a brinquedoteca, dentro da brinquedoteca localizava-se um fogãozinho todo equipado, e diante do fogãozinho localizava-se um menino mexelento, interpretando sozinho, muito animado, alguma saborosíssima receita gourmet.  Era aquele o primeiro-pedaço-de-mim-que-saiu-andando-por-esse-mundo-afora-com-o-cabelo-todo-arrepiadão-pra-cima-uns-anos-atrás. Dei ré soluçando, diante dos rostos enigmáticos de umas quatro professoras. A coordenadora segurou no meu ombro e, bastante sem graça, eu disse: “se os filhos não choram, a mãe chora…”. Sim, eu voltaria ao meio dia.

Saí fugida, sem qualquer planejamento. Àquela altura, eu tinha vinte e cinco minutos para almoçar. Marido ocupado, mãe ocupada, pai ocupado. Embora, sem sombra de dúvida, merecêssemos todos nós (muito especialmente eu) o Ráscal, fui sozinha mesmo para o Burger King.

Voltei em tempo. Esperei, com meu coração parado na mão, que descessem pela rampa florida e iluminada as quatro cavidades cardíacas que o fariam voltar a bater. O Davi rapidamente soltou um protocolar “oi mamãe” e me deixou beijá-lo. Mas o Pi, imóvel ao lado das pernas da prô, me deu uma bronca: “não era pra você ficar aqui! Era pra você ficar na cadera malela!”. Beijei mesmo assim. Limpou as bochechas com a manguinha do blusão. Engoli seco e constatei: a mamãe não conseguiu fazê-lo vestir o agasalho. Mas a “pô” conseguiu. Pô!

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*“Amigo e Companheiro” (“A turma do Balão Mágico”, 198…), disponível em http://www.youtube.com/watch?v=u4cvpWEBYqg

** https://cotidiamo.wordpress.com/2012/01/19/pendurada-num-cipo/

Palmas para ele

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“Faz massagem no meu pé?”, foi o último pedido feito hoje pelo aniversariante do dia.

“Faço, qual música você quer que eu cante?”

Olhou para cima soltando um “é…” mimoso e me encarou sorridente e entusiasmado para responder, com os olhos apertados de sapeca: “Parabéns a você!”

Mediante os protestos debochados do irmão, que atestou que essa não era uma “música de dormir”, portou-se como se espera de um serzinho pronto para relaxar: semblante sério, olhos fechados, mãos ao longo do corpo… que logo começaram a batucar progressivamente no colchão e na barriga, até se encontrarem ritmadamente, palma a palma.

Sua primeira reação do dia ao “Parabéns” foi de negação. “Não tenho teis anos, tenho drois. Só depois ou fazer teis, depois crato, depois srinco”. Quando telefonou a tia pianista, o aniversariante envergonhado tapou os olhinhos com as mãos branquelas e acompanhou cantarolando “não-não-não / não-não-não!/…” no ritmo da canção que ouvimos pelo viva voz.

Ao longo do dia, foi amolecendo à comemoração, e sensibilizando-se com os muitos carinhos e felicitações que recebeu.

Recebi os parabéns até eu, por “há três anos ter feito a proeza de pôr esse nenê em cima da cama”. Foi, sem dúvida, uma das melhores coisas que fiz na vida. Uma forma absolutamente respeitosa de receber neste mundo uma pessoa tão especial. Minha rendição à Natureza que opera sabiamente em nós.

Tantos episódios na minha relação com o Pi são feitos de entrega e totalidade, mas foi desse primeiro capítulo que me lembrei esta manhã, quando ele apareceu correndo desnorteado até que me encontrasse. E fiz questão de deitar com ele no colo, no mesmo lugarzinho da cama em que o recebi recém-nascido. Há três anos o achei tão pequenininho, e agora quase não me cabe nos braços.  Mas no meu coração sempre haverá um espaço cada vez maior para que possa aconchegar-se e bater suas palmas.

Aplausos. É isso que a Vida merece quando se trata de você, meu Pi.