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A princesinha recém-nascida que espetou o dente num fuso horário e…

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Zurique, noite de 16/07/2013

O sono, difícil já há várias noites, esta noite não é nem esperado. Brincam que será a última livremente dormida, mas sabem que é o ponto de vertigem: dentro de algumas horas o tempo parará e o espaço se redefinirá. Receberão nos braços sua filha.

São Bernardo do Campo, 20:00h.

Beijo os filhos que dormem em suas camas e posiciono sob o travesseiro do mais velho o primeiro dentinho caído. Beijo-o novamente, respiro o mesmo ar que eles, mantenho-me ali. Gratidão por eles, por poder ser a mãe deles, pelo tempo que passa sem que eu precise agir para isso e sem que eu possa impedir.

São Bernardo do Campo, 22:30h.

Vou para a cama. Leio um pouco. Penso um pouco. Mãos moles começam a desfiar o terço. Olhos abertos brigam com o faixo de luz que entra pela porta entreaberta. Véspera de algum natal: dentro de algumas horas serei tia.
Mistério após mistério, contemplo o mistério da vida, os misteriosos desígnios de Deus para nossas vidas, do começo ao fim delas.
Com uma esperança insistente, peço que Juju possa anunciar sua prontidão antes que finde seu prazo do lado de dentro do útero ruidoso e aquecido. Que dê tempo de fechar o ciclo sem atropelos.
Um pouco de desejo, um pouco de sonho, um pouco de memórias. As Ave-Marias de mãos dadas puxam umas às outras como numa ciranda colorida em chão de nuvens. Rosas vermelhas, uma a uma, compõem um grande buquê perfumado.

Zurique, madrugada de 17/07/2013

O imprevisto: contrações os fazem telefonar para o médico. Escutam as orientações. Trocam o tram pelo taxi e vão para o hospital algumas horas antes do previsto.

Zurique, 6:37

Nasce Julia.

São Bernardo do Campo, 4:00h.

O Pi chora forte e decidido. Ao me ver, prontamente se acalma, diz que precisa ir ao banheiro. Tiro sua blusa quente demais. Vamos de mãos dadas, acendendo poucas luzes. Deito-o em sua cama, cubro-o. Pede que acenda a luz de apoio, cedo. Espio de relance o Davi dormindo de boca aberta, um dentinho a menos. Séria e sonolenta, volto para a cama tentando calcular o que está acontecendo cinco horas adiante.

São Bernardo do Campo, 5:00h.

Escuto passos que parecem muito perto. Tento entender se é dentro ou fora da minha cabeça, se é o vizinho de cima deitando tarde demais ou o marido já levantando. Sinto o toque macio do pequeno insone, que sobe na minha cama pedindo para ficar aqui só um pouquinho. Aninha-se tão intimamente que logo durmo embriagada pelo cheirinho limpo da sua cabeleira de luz.

São Bernardo do Campo, 7:20h.

Sinto o corpo judiado. Muito concentrada, me desvencilho das mãozinhas quentes do Pi que envolvem meu braço dolorido e desvio das cobertas. Levanto, suspiro, olho para pai e filho deitados lado a lado, tão diferentes e tão parecidos. Vou para o banheiro.

São Bernardo do Campo, 7:30h.

De dentro do banheiro, escuto um falatório animado.
Pode ser o bom humor natural das férias.
Pode ser a comemoração pelo carrinho de rodas azuis que magicamente surgiu debaixo do travesseiro do Davi.
Mas a animação é muita. Destranco a porta.
O marido está em pé, falando ao telefone.
Recebo o fone e escuto, vinda de um reino tão distante, a notícia: “Parabéns, tia Aline!”.

***

Esta noite, em algum lugar do mundo, houve um acontecimento mágico. Surpreendente, incompreensível. Algo que supera nossas forças e nossos poderes. Que enche este dia e os seguintes de magia e de graça. O sabor de ganhar um presente, sem muito merecê-lo.
A Fada do Dente trabalhou direitinho, e manteve oculta sua luz furta cor, mesmo numa madrugada assim agitada. Tocou bem suave o som dos sininhos, levantou, com as asinhas batendo, a ponta do travesseiro do Davi. Deixou ali embaixo seu presente e recolheu seu rastro de estrelinhas brilhantes antes que pudesse nos incomodar…

***

São Bernardo do Campo, 9:30h.

Davi empurra seu carrinho sobre a colcha da minha cama. “Mamãe? Você sabe se a Fada do Dente, ou o Papai Noel, ou o Coelhinho da Páscoa, recebem alguma ajuda de Deus ou de Jesus?”.
Uso outras palavras para responder o que se impõe: se até nós, meros seres humanos, recebemos tanta, como os seres encantados não haveriam de receber?

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Que passa?

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Hoje passei, pela primeira vez na vida, roupinhas de bebê cor-de-rosa.
Enquanto isso, passou um filme em minha mente, e percebi que quem nascerá em alguns dias é minha sucessora imediata na linhagem familiar. Entre nós, quatro meninos – em duas duplas separadas por décadas.
Com ela nascerão outras pessoas, uma das quais, tia: eu mesma, em mais um papel que a vida me passa.
Passamos por tanto até aqui! A mulher prestes a nascer mãe passou de minha pupila a cunhada, de menininha a senhora casada.
Passaram seis anos entre o primeiro enxoval de bebê que me vi passando e este que hoje passei. Passou a dor nas costas! Passaram muitos receios e passou também uma fase indescritivelmente intensa. Por duas vezes.
O primeiro filho desta mãe passa a primo mais velho. E o segundo, a primo “mais magrinho”, como ele mesmo diz, passando despercebido pelos opostos enganados.
E todos nós passamos juntos pelos privilégios de termos uns aos outros, por mais tempo que passe até que possamos nos abraçar de verdade.

Palmas para ele

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“Faz massagem no meu pé?”, foi o último pedido feito hoje pelo aniversariante do dia.

“Faço, qual música você quer que eu cante?”

Olhou para cima soltando um “é…” mimoso e me encarou sorridente e entusiasmado para responder, com os olhos apertados de sapeca: “Parabéns a você!”

Mediante os protestos debochados do irmão, que atestou que essa não era uma “música de dormir”, portou-se como se espera de um serzinho pronto para relaxar: semblante sério, olhos fechados, mãos ao longo do corpo… que logo começaram a batucar progressivamente no colchão e na barriga, até se encontrarem ritmadamente, palma a palma.

Sua primeira reação do dia ao “Parabéns” foi de negação. “Não tenho teis anos, tenho drois. Só depois ou fazer teis, depois crato, depois srinco”. Quando telefonou a tia pianista, o aniversariante envergonhado tapou os olhinhos com as mãos branquelas e acompanhou cantarolando “não-não-não / não-não-não!/…” no ritmo da canção que ouvimos pelo viva voz.

Ao longo do dia, foi amolecendo à comemoração, e sensibilizando-se com os muitos carinhos e felicitações que recebeu.

Recebi os parabéns até eu, por “há três anos ter feito a proeza de pôr esse nenê em cima da cama”. Foi, sem dúvida, uma das melhores coisas que fiz na vida. Uma forma absolutamente respeitosa de receber neste mundo uma pessoa tão especial. Minha rendição à Natureza que opera sabiamente em nós.

Tantos episódios na minha relação com o Pi são feitos de entrega e totalidade, mas foi desse primeiro capítulo que me lembrei esta manhã, quando ele apareceu correndo desnorteado até que me encontrasse. E fiz questão de deitar com ele no colo, no mesmo lugarzinho da cama em que o recebi recém-nascido. Há três anos o achei tão pequenininho, e agora quase não me cabe nos braços.  Mas no meu coração sempre haverá um espaço cada vez maior para que possa aconchegar-se e bater suas palmas.

Aplausos. É isso que a Vida merece quando se trata de você, meu Pi.