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Antevéspera

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Não tenho soluços com muita frequência. Mas hoje exagerei no sorvete, já passava da hora de dormirem. E fui levá-los para a cama dando tranquinhos.
Escolhemos livrinhos natalinos – tão importante é a véspera do Natal, que arrasta seu valor para a antevéspera. Queria silêncio e atenção para ler uma crônica nova, daquelas que me emocionam. Mas eu mesma não me deixava começar, com o burp subindo descompassado.
Já ficando irritada, tampei nariz e boca, bochechas infladas, numa tentativa de acalmar meu diafragma desregulado. Riram de mim. Ri deles, corados de dezembro, penteados e sonolentos.
Resolvi começar mesmo assim e entre sílabas e saltitos li para meus meninos lindos, intrigados com meus pulos e com a história do Papai Noel que foi tomar cerveja na cozinha. O pequeno, a cada engraçada interrupção do meu fluxo de voz, chegava mais perto seus olhos atentos e arregalados. O grande, a cada gargalhada conjunta, deixava exalar sapequice e um riso maduro que ano passado não estava ali.
Olhamo-nos e rimo-nos, divertimo-nos; tive um bom álibi para disfarçar os nós que surgiam em minha garganta turbulenta – quer pelas palavras de Veríssimo, quer pela cena querida: pijaminhas de trás para a frente e rostinhos contentes só esperando disparar a próxima gargalhada.
Já em vinte e três de dezembro aconteceu a nossa noite feliz.

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Tecnoel

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—– Mensagem encaminhada —–
De: Aline Gerbelli <aliluvi@yahoo.com.br>
Para: “papainoel@polonorte.com” <papainoel@polonorte.com>
Enviadas: Terça-feira, 18 de Dezembro de 2012 9:35
Assunto: Presentes de Natal Davi e Pedro
Querido Papai Noel,
Como vai o senhor?
Nós somos Davi, mamãe, papai e Pedro.
O Davi tem 5 anos. Gosta de correr. Está na fase 4, já de férias. O amigo dele é Gustavo. Torce para o São Paulo.
O Pedro tem 3 anos. Todo mundo o chama de Pi. Gosta de pular. Está na natação. O amigo dele é o Davi. Torce para o São Paulo.
Sobre as boas ações do ano:
O Davi gostou muito do Pedro. Este ano aprendeu a mexer com celular e com faca e não machucou ninguém com coisas que não são o corpo. Já toma banho sozinho. Aprendeu a mexer com máquina fotográfica sempre pendurando no pescoço. O Davi fez exercício, correu muito e foi saudável. Comeu berinjela e comeu tomate sábado. Empresta a luva laranja para o Pi.
O Pedro gostou muito do Davi. Ele aprendeu a usar o banheiro e não usa mais fralda. E lavar as mãos também! Ele olha para a foto fazendo cara linda e não se esconde. O Pedro tomou muita água e comeu panqueca e milho. Ajudou o irmão a procurar e encontrar a bolinha do Fluminense.
Demos um monte de coisas embora para quem precisa, como bolas. Colocamos as coisas para reciclar. Usamos os dois lados do papel. Economizamos água. Cada um aperta um botão do elevador. Esta noite os dois dormiram o tempo inteiro sem chamar a mamãe.
Sobre os presentes:
O Pi gostaria de ganhar um relógio do Ben 10 verde.
O Davi gostaria de ganhar um caleidoscópio.
Desejamos a você e sua família Noel um Feliz Natal. A coisa mais importante do Natal é que o Menino Jesus nasceu.
Um beijo e um abraço!
DAVI  B. e PDRO (pi)

Missa das sete

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Os meninos acordaram cedo, muito cedo. E eu fui logo convidando para a missa das sete.

O Pi respondeu que sim, empolgado, antes de entender do que se tratava. E, partindo do princípio de que tudo o que o irmão tem ele quer igual ou maior, o Davi também aceitou vibrando. Trocamos de roupa correndo, passei um paninho molhado nuns três olhos e meio e entreguei uma barrinha de cereal na mão de cada um.

No caminho, o Davi percebeu que era cedo: “mãe, só tem um grão de sol”. “É, filho, é a missa das sete”. Mas, na primeira curva do caminho o dia anunciou sua generosa luz. E ele: “mãe, tem muito sol na minha cara”. “Mas filho, não tinha um grão de sol só?” “Não, agora tem uma tigela de sol! Vai demorar muito pra chegar nessa missa das sete igrejas?”.

Só achei vaga de idoso para estacionar. Mas se algum amarelinho chiasse, haveria de existir algum velhinho disposto a simular sua entrada no carro, só pra me ajudar, não? Velhinho ali não faltaria. 

Corremos até a igreja. O Pi, sacolejando no meu colo, começou a rir e, logo em seguida, a gritar: “eu vou cair!!”. Achei melhor sossegar o balancê, porque seria essencial que eles ficassem com o fogo apagado ao menos por uma hora.

Entraram comportados. Sentaram quietos e esperaram. Uns trinta segundos. E então começaram a perguntar. Cadê a outra barrinha? Porque aquela luzinha está acesa? Posso deitar aqui? Quem é esse santo? E a pedir. A água. O colo. Que eu contasse história. 

Logo o tio avô subiu ao altar, para cantar o salmo. “Ó lá o tio Zé, filho”. “Não tô vendo”. “Ali em cima, perto da mesa do padre. Ó a careca dele lá”. “Ah, já vi. Ele tá cantando”.  “Viu, Pi? O tio Zé cantando lá em cima? Escuta. Ó, vai descer a escada. Tchaaau, tio Zé, tchaaau!” Ele abanou mãozinha na direção correta, certamente havia encontrado.

“Ah, eu vi o vovô”. Uai, e que eu tanto procurei ainda não achei… É mesmo! Jura que a gente conseguiu chegar antes dele? Uia! Ufa: chegou reforço. Mas nem precisou, eles estavam macios. Ao menos enquanto durou o lanchinho. E as minhas respostas catequéticas.

Antes que derrubassem o folheto, ou a água, ou o cofrinho de cerâmica que o Davi levou – sim, acreditem, ele levou um porquinho de cerâmica dentro da mochila – chegaram os momentos mais dinâmicos da celebração. Expliquei o ofertório da solidariedade e ouvi: “Isso é doação”.  Fiz a oferta e escutei: “Da próxima vez que a moça passar com essa sacolinha eu que quero pôr o dinheiro”.

E chegou a hora da comunhão. Meus batedores andaram por aquele corredor em fila indiana, por ordem de tamanho, compenetrados e tranquilos. Até que o Pedro viu alguma coisa que fez seus neuroninhos acenderem e deu meia volta, afoito: “A tsua bolsa! A tsua bolsa! Tá lá!” Apontei a bolsa no meu ombro e ele relaxou. Impediram um pouco o tráfego, mas, chegando à frente do padre, encantaram-se com alguma outra coisa.

Comunguei e me deparei com uma das cenas mais lindas que já vi: os dois de mãos dadas, em pé, de frente para o órgão e para os microfones.  E para aquela coleção de cabecinhas brancas que cantava sorrindo para eles. Contemplaram-se uns aos outros. Olhar profundo, silêncio e música.

Caminhemos, alma em festa

Ao encontro do Senhor!

É Jesus que está chegando,

É Natal no coração.

Tanto me alegrei, tanto agradeci, tanto me fez bem aquele momento. Aquelas duas mãozinhas unidas. O tempo parou. Agachei perto deles e vieram um sentar no meu colo e outro apoiar-se em nós dois.

Mostrei a pontinha do primeiro degrau do altar e pedi que fossem até lá. Ficamos sentados ali por alguns instantes, até que o Pedro resolveu correr em disparada até a nave central. Ciente de que poderia ter sido mais grave, capturei-os de volta para nosso banco.

Fomos embora logo, o dia estava cheio. Mas agora, certamente não estava apenas cheio de compromissos e horários, mas de Graça e de Bênçãos.

 

Escrito em 27.11.11

Missa do galo

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Chegamos atrasados à missa das 18:00h. Sentamo-nos no último banco, perto de onde já estavam alguns da família – da de sangue e da de coração.

O Davi tanto fuçou no celular do tio que deve ter desejado Feliz Natal a meia agenda. O Pedro mexeu em tudo e ocupou todas as posições que teve ideia, mas suas risadas não podiam sequer competir com a barulheira das perguntas, comentários e gargalhadas do irmão.

Começaram a revirar a mochilinha: argola de cortina, caderno da fono, copo d´água, paninho de boca, um soldadinho, meus óculos escuros (!), o chaveirinho-lanterna de galo. Foi esse mesmo que o Pedro preferiu. Só depois de ouvir o brinquedo cacarejar feliz pela terceira vez foi que percebi que aquela luzinha azul e o inconfundível som vinham das mãos do meu crianço. Não é mesmo a primeira vez na liturgia que o galo canta três vezes para Pedro…

Pedi que parasse e ele consentiu. Então comecei a achar muita graça, cada vez mais graça… De todas as missas do ano, estávamos naquela que admitia já em seu título a brincadeira.

Ouvimos, professamos, confraternizamos, comungamos. Boa parte de nós já estava ao lado do presépio, fugindo do calor e do final da missa em si, quando o padre convidou as crianças para ajudarem a levar o Menino Jesus ao altar. Um grupinho de umas doze rodeou a imagem do Dono da Festa e foi atrás delas que meu dois titubeantes seguiram pelo corredor central. O mais velho conduzindo o mais novo pelo pescocinho. E eu entre fotografando e soluçando.

A Providência Divina encarregou-se de repetir o convite que me fez há dois natais, quando o Pi representou um nenê Jesus com 48 dias de vida: “consagre-os a Mim. O que você espera? Porque se inquieta com o que não é necessário? Escolha agora a melhor parte. Escolha por si e escolha por eles. Vamos, confie-os novamente a Mim”.

As crianças colocaram a imagem do Salvador na manjedoura e, ao som de aplausos, os irmãozinhos foram os últimos a subir ao altar. A igreja cantou Noite Feliz. Os dois ficaram bem atentos ao lado da imagem. O Pi de mãozinhas postas, imitando o celebrante. Eu entre lágrimas assistindo. Até que o Davi achou por bem pegar o Menino no colo. A assembléia gargalhou. O padre acudiu.

Mais uma estrofe da canção, e o Pi decidiu que era sua vez: puxou o Jesusinho pelo pé. O padre, já ali perto, rearrumou o nenê na cama. Ele tentou uma segunda vez. E uma terceira, “esse aí era o meu lugar aquela vez, peraí que eu vou trocar”, pode ter pensado. Eu chacoalhava de emoções, no outro extremo da nave central. O povo ria comigo. Até que uma ministra foi escalada para escoltar os fieizinhos sapecas, que, aprontando ou não, mantinham a pureza compenetrada no olhar.

E eu achando que a maior das travessuras tivesse sido o galinho cocoricando…

Mais aplausos. E, se ter-se feito recém-nascido, como um dia a cada um de nós que ali estavam, pelo mais puro dos amores, não for digno de uma robusta salva de palmas, nada mais merece ser aplaudido.

Meus mocinhos desceram os degraus do altar com sucesso, o moreno mais uma vez conduzindo o loiro, até que chegaram até seus honrados pais. Correu primeiro o maior, e ganhou um beijo. Depois o pequeno imitou, mais um beijinho também. Emoção, gratidão, a bênção final e… Feliz Natal!

Cai não cai

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Faltam três dias para o Natal.

Passei a tarde com três meninos.

Dois filhos e um afilhado me puseram em contato com várias nuances do meu temperamento, da que derrete ao ouvi-los enumerar “palavras de amor” num jogo que inventamos, à que tem vontade de implodir cada um deles quando fazem voar pelos ares da sala já suficientemente badernada os componentes do “Cai não cai”.

Quem teve infância sabe de que se trata: um brinquedo encantado, bolinhas de gude, varetas pintadas, um tubo com passagens secretas, um mecanismo que parece mágico. Hoje, repaginado: o que para mim é Disney demais, para eles é super legal. Um brinquedo que oferece tantos riscos – de perfuração, asfixia, sumiço das peças sob o sofá, entre outros – e, consequentemente, faz a mamãe ficar junto brincando o tempo todo, está no topo da escala de atraência.

Para ter calma, conte até três.

Mas vou precisar de mais três chances…

Enquanto eu tirava do alcance alguma coisa mais proibida, eles tiravam da caixa a nave de Buzz Lightyear e todos os seus cacarecos. As varinhas e as mini bolas pulando pelo chão, alegres, coloridas, como adestradas pulgas gigantes. E as duas, mamãe e madrinha, berrando a plenos pulmões.

Deixa, não deixa? Pode, não pode? Dá, não dá? Quer, não quer? Vai, não vai? Fica, não fica? Fala, não fala? Cai, não cai? Caiu. Tentou saltar pirueteando da corda bamba a tarde toda, até que tropeçou no chão encerado e em seguida escorregou numa das pedras do caminho.

Sorte que os tigres tristes são apenas três.

Na hora da chuva, o menino do sobrado, desacostumado ao sexto andar, apareceu dizendo “vi uma coisa branca no céu!”. Um disco voador? Seu rostinho desbotou ainda mais. O foguete do Buzz? Um sorrisinho coloriu o rosto pálido. Era só um raio. Para quem já havia ouvido tantos trovões…

Sorte que os três reis magos enxergaram a estrela guia.

Mas… A bem da verdade… nós também a enxergamos algumas vezes, ao longo da tarde.

Primeira comunhão

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Fazendo hora extra no horário de verão. Se já houvesse anoitecido, ele estaria dormindo, exausto pelo dia bem aproveitado, com gosto de infância. Mas seduziu a mãe e conseguiu mais uma rodada de quebra-cabeças antes de encerrar o expediente. Enquanto isso, comeu todos os pedacinhos de uma pêra picada. Intercalava às mastigações sorrisos com os olhos.  Continuando assim, pretendia atingir todos os seus objetivos: quem sabe a mamãe ficaria ali, olhando para ele embasbacada, levando garfadinhas de fruta à sua boca mimada ao longo de toda a noite? Quem sabe sequer se poria o sol brilhante, que há pouco avermelhara seus olhinhos claros e o fizera pedir para apagarem “essa luz”?

Terminaram o quebra-cabeças. A cena do presépio mostrava as figuras principais da noite natalina, e ele apontou o menino de cachinhos dourados dizendo, muito animado: “o bebezinho!”. Repassaram a história, em sua seguinte versão:

– Essa é Maria e esse…

Josésus!

– E esse aqui?

O menino Jesuso!

– Eles foram para Belém e perguntaram, “tem lugar pra gente?”

– Teeeeem!

-Não… não tem… E foram em outra casa, “tem lugar aqui?”

– Teeeeeem!

Pulinhos enfáticos sobre a cadeira, algumas falas gritadas de excitação.

– Então… foram dormir na casinha do…

– Cavalo!

– E o que aconteceu naquela noite?

-Apareceu o nenê!!!

– E a estrela guia…

-Bilô no tséu!

Boca bem aberta, canininhos de leite recém despontados tingidos pelo leite recém tomado.

– O nenê Jesus nasceu!!!

– Eu quero comê ele.

– Você quer comer o menino Jesus?

– Quero comer o pezinho dele.

Talvez tenha sido sugestionado pelo calendário de dezembro, que guarda um bombom em cada uma das vinte e quatro janelinhas. Talvez pelo carrossel que o encantou no restaurante esta tarde, em que um tubarão exibindo seus brancos dentes afiados instigou que saísse mordendo tudo o que via pela frente. Talvez tenha realmente querido alimentar-se daquela história que já lhe e tão familiar, e que há dois anos ele protagonizou na Missa do Galo.

Seduzida, apaixonada, aceitando as horas extra a mim impostas pelo caçula dos imperadores, sentindo talvez um pedacinho do amor que sentiu Maria por aquele bebezinho na manjedoura, só posso desejar que o meu montador de quebra-cabeças continue almejando vorazmente preencher-se do Santíssimo e com essa mesma pureza faça, uma dia, sua primeira comunhão.

Luz do luar

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Que lua linda me acompanhou agora há pouco! Redonda, brilhosa; branca destacada no preto limpo do céu. Igual à lua da noite do meu casamento.

Dirigi sorrindo. Cantei quase todas as músicas do rádio, letra certa, afinado e sem esforço. Tarde da noite. Usando salto. Rímel. Perfume.

Trouxe para casa um potinho de carne de panela pro marido e dois bolinhos pros meninos. E um estoque de assuntos.

Descobri, nesta noite, muitas coisas sobre mim. Observei-me sem minhas muletas (de 85cm e de um metro e cinco).

Reconheci minhas saudades. Ocupei espaços em que há muito não entrava.

Comi bem. Cheguei à conclusão de que sou crítica com tudo, tudo, menos com comida. Em seguida constatei que não: sou crítica com tudo, tudo mesmo, menos com comida boa.

Ouvi minha própria voz. Ouvi como alguns assuntos me inflamam, e como sou radical, e parcial, e rígida, e contraditória. E como deveria escutar mais.

Senti cheiro de pipoca, cerveja, cigarro e brigadeiro de erva-doce.

Tive vontade de parir de novo, numa noite de luar. De sair para jantar. De ir ao cinema. De ir ao circo. Ao teatro. De rir gargalhadas. De chorar lembrando histórias. De tomar garoa. De andar em bando. De dirigir sozinha ouvindo MPB.

As luzes de Natal e as luzes de freio deixam as noites de luar mais bonitas.