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Verdes vítreos

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Final da década de cinquenta. Naquele início de noite, os olhos da menina prestaram toda atenção aos olhos de sua mãe. Todos os quatro verdes vítreos.
Duas das muitas primas acabavam de partir a pé, segurando, uma de cada lado, as mãos frias daquela entre muitas tias. Os olhos verdes da menina observaram-nas de costas, cada vez menores.
A visita fora corriqueira, não moravam tão longe. Brincaram juntas no quintal de terra, ouviram palavras adultas comuns nas vozes de suas mães, caiu a tarde, caíram as temperaturas.
Antes da despedida, a menina observou os longos braços das parentas, sempre pelados. Correu até o quarto e pegou suas duas blusas quentes. Entregou a elas, livre como seu coraçãozinho caçula.
As primas vestiram e sorriram. “Pode ficar”, escutaram. Seguraram as mãos frias da tia e partiram, cada vez menores foram ficando as duas blusas quentes da menina.
Escurecia. “Você viu o que você fez?”, a menina ouviu a voz da mãe perguntar. Não existiam outras blusas. “E agora, como você vai ficar?”. Foram perguntas. Questões simplesmente apresentadas pelos olhos verdes vítreos da mãe, direto para os seus.
Ela prestou toda atenção. Nunca mais se esqueceu disso. E ficou bem.

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Para tia Neusa. Com amor.

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Bonança

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Dei no Davi uma briga desproporcional.

As desculpas vieram de onde não deviam e, agachada diante dele, procurei desenrolar-me daquela passional injustiça.

Pingos nos ii, perguntei: “porque você não me olha nos olhos?”. Atendeu de baixo para cima, queixinho no peito. Vendo meu sorriso, empinou um pouco mais o nariz.

“O que você tá vendo bem no meio do meu olho?”.

Prestou bem atenção e quadradinhos preciosos de marfim cravados na gengivinha doce vieram à luz, num sorriso brilhante: “Eu!”.

Sentenciei, escutando surpresa cada palavra inspirada que eu mesma dizia: “Aparece pelo olho o que a pessoa tem dentro do coração”.

Aproximou-se num impulso de aconchego. Caímos juntos no chão. Doeu. Rimos abraçados, gargalhada retroalimentada pelo alívio da reconciliação. E pelo desajeitado do tombo também.