Arquivo da tag: oração

Fé e perfeição

Padrão

De tão perfeccionista que sou, diante de um desastre estétido-culinário percebi-me rezando Ave Marias engatilhadas: “…bendita sois vós entre as MELHORES…”

Anúncios

Dinossauros católicos

Padrão

Há algumas semanas o que anima o Davi para ir à missa é a provocação: “mas e se o Gabriel estiver lá?”. Decide os brinquedos que vai levar pensando no amigo da escola, escaneia a assembléia em busca do coleguinha.

Hoje, achamos, eu e ele, nossos lugares num banco já cheio. Minutos após nos sentarmos, quando eu terminava de ler uma história da Bíblia para Crianças, bem ao pé do ouvido, com ele no meu colo, vi um sorriso sincero abrir-se: “eu vi o Gabriel”.

O Gabriel e sua família estavam exatamente na linha do nosso banco, do outro lado da igreja. Convidei-o com um gesto para vier até nós, e ele veio com seus cards de dinossauro. “Sabe meu dente que tava mole, Davi? Ó!”. Mostrou a janelinha na boca. A Fada do Dente presenteou-o com os dinos.

Passaram a hora revezando entre oração e bate papo, anquilossauros e a parábola do bom pastor, o mapa da Galiléia e o estegossauro. Deram-se as mãos no Pai Nosso, me disseram os nomes de seus padrinhos ao assistir o batizado, entraram num consenso sobre me acompanhar ou não na hora da comunhão.

O Gabriel me despistava com “mas a gente falando baixinho” e o Davi olhava para mim com um sorriso lindo – entre cúmplice, agradecido e bagunceirinho.

Interrompi uma das conversas empolgadas com “agora é hora de falar obrigado pra Jesus pelos nossos amigos”. “Mas na cabeça, tá, mãe?”, destacou meu filho encabulado.

Os fiéis ao redor de nós estavam certamente mais encantados com a vida viva e as gracinhas dos dois amigos, do que contrariados com o barulhê. Comovi-me ao perceber que a comunidade abraça a cada um, e que, assim como meus amigos sustentam minha vida, meu filhinho já tem sua vida sustentada pelos seus.

Depois da celebração, despedimo-nos da família do Gabriel com gostinho de quero mais. Entramos no nosso prédio, Davi muito mais saltitante que o normal. Me disse que adorou encontrar o amigo. E eu me lembrei: “Sabe o que Jesus falou uma vez, filho?”

“O que?”. “O que, mãe?”, parou de saltar pelo quadriculado do piso do hall, impaciente com minha demora em responder.

Engoli o choro e finalmente respondi: “Quando dois ou três estiverem reunidos em meu nome” – novo fôlego embargado – “aí eu estarei”.

“Então ele estava!”.

Estava sim, filho. E permanecerá.

Angelus

Padrão

Acabaram de sair de casa. Um deles trajando o verde espantado da camisa que uma vez o Ademir da Guia assinou. O outro, vestindo uma camiseta em que se lê “Germany”, a casa da Oktoberfest, o destino de daqui a quatro horas.

Foram de trem, acordaram atrasados e perderam o primeiro. Disseram ter tomado café da manhã e o cheirinho de pão torrado me fez acreditar. Ficaram em pé, olhando minha cara amassada e despenteada, com sorrisos pacientes no rosto.

Nao quis pegar a máquina fotográfica no quarto, porque a noite com o pequeno exausto de tanto passear com os tios não foi assim muito lisa. Disse a eles que teria a foto na minha mente. Quem duvida?

Respirei fundo e, assim que tomei coragem, o sino da Igreja tocou, tambem ele decicido. Vamos rezar um Angelus? Hum hum, me esperaram chorar umas lágrimas encabuladas antes de conseguir começar, e repetimos juntos as mesmas palavras que declamavamos habitualmente anos (vários anos) atrás.

Segurei as duas mãos mais irmãs que tenho e vi um enroscar o dedo do outro, como quando ficavam de bem depois de brigar. Não só por isso, mas tenho certeza de que já fizeram as pazes para sempre.

Faça-se em nós segundo a Vossa palavra. Em nossas vidas, em nossas famílias que são uma só. O Verbo habita entre nós.

Tua beleza

Padrão

“Sabe, Aline, já passei por muita coisa, mas hoje reconheço que sou muito feliz!” A bisavó dos meus filhos me disse isso numa tarde fria de quinta-feira, concedendo que sua telinha amiga transmitisse um pouco de desenho animado.

Elencou a “gente boa” da família, a cada geração alargando o sorriso, até chegar aos nomes dos dois pitocos debruçados sobre o colchonete xadrez, segurando o queixo com as mãozinhas engorduradas de bombom.

O Pedro foi parar deitado ali vítima de mais uma imitação ao irmão. Antes disso, ele figurava outra cena poética ao lado da bisa: ela, sentada em sua velha poltrona, costas aquecidas por um xale de manufatura própria, preenchia fartamente o espaço disponível. Ele, loirinho agasalhado, pousou no braço da poltrona e, ao sentir pousar ao seu redor o braço da avó, acocorou-se ao lado dela, comportado e confortável.

Enquanto isso, uma bola de bazar meio murcha era bombardeada contra as muitas portas fechadas do longo corredor. Vinte a zero pro Davi – não que eu não saiba fazer gols, é que as regras do esporte não me favorecem: não vale gol sem goleiro (ainda que este tenha acabado de ser lindamente driblado); bateu na trave é fora (mesmo que a bola entre, não vale). O juiz – claro – é ele.

No meio da partida tive um generoso ataque de espirros e precisei sair para assoar o nariz. Quando voltei, meu adversário já havia sido seduzido pelo Doug Funny. Aproveitei a calma do momento para olhar ao meu redor. Estiquei a passadeira que fora amontoada pelos ágeis pezinhos do Davi, pensei no perigo que ela representa no cotidiano da minha avó e em como é, ao mesmo tempo, difícil e importante respeitar as preferências da(o)s m(p)atriarcas. Li com calma a Oração do Amanhecer, linda, profunda, tão verdadeira e tão fiel àquela parede.

Examinando o belo retrato de setenta anos, vi, sem querer, a razão da minha alergia respiratória: no interior do vidro convexo, claríssimos desenhos em forma de fogos de artifício formados por fungos, numa perfeição geométrica encantadora. Figuras muito compatíveis com as explosões de chutes e gritos produzidas, até havia poucos minutos, naquele ginásio improvisado.

O que fizemos naquela casa de vó foi aproveitar oportunidades: jogamos, os quatro, algumas partidas de jogo da memória. Transitamos, os três mais novos, de meias pelo decurso da tarde. Recebemos, uns dos outros, a atenção que merecemos: os dois pequenos em privilégios e mimos, eu, em conselhos e histórias, ela… em companhia e sopro de vida. Nos acolhemos e aceitamos enquanto família, nos permitimos o convívio de nossos exclusivos seres.

Na manhã seguinte, ao sair para a ginástica, a vovó não gostou muito do jeito que estava o cabelo. Mas tirou disso uma conclusão diferente da de sempre: “não faz mal, mesmo assim meus bisnetos gostam de mim”.

Justíssimo. Dia após dia ele lê na parede do corredor: “Reveste-me de Tua beleza, Senhor, e que no decurso deste dia, eu Te revele a todos”. Que bom que você viu, Honória, refletida no espelho do elevador, a beleza dEle!