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Verde até o último fio de cabelo

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Então, como a tarde está linda e eu cansei da irritação que me causa uma pasta comunitária de documentos, saí com os meninos para comprar novas pastas no bazar.

O Pedro quis a verde, mas não menciono isso pelo fato de que a cor tem sido sua preferência nacional e o critério para escolher o giz de cera, a gelatina, as roupas, sapatos, brinquedos e, inclusive, a cor do cabelo. (Outro dia, no espelhão do elevador, com mãe e pai resmungando os cabelos brancos, o Davi declarou que estamos ficando velhos. E eu, prontamente, disse que não, cabelo branco é uma coisa normal, todo mundo tem, até o Pedro, que é bem novo. E antes que ele pudesse soltar sua risada esperta, o Pi vociferou: “meu cabelo não-é-ban-cô! É vei-djí!!”.)

Menciono que o Pi escolheu a pasta verde para que todos visualizem esta réplica do Piu-Piu sambando pelas calçadas arrebentadas e defecadas dos arredores de casa com uma pasta-aba-elástico-verde-bandeira defronte seu tronquinho. E mão suada obediente dada à mãe.

O Davi aceitou devolver a sua pasta transparente para a sacola quando impus tal condição para continuarmos o passeio. Ele queria atravessar a rua, para chegar onde “nunca fui na vida”. Sei. O bom foi que o caminhão das frutas meio que quebrou nessa hora e, enquanto o motorista rastejava de costas no asfalto para resolver a questão, tivemos tempo de seguir o som do “morango vermelhinho barato, barato”. Compramos. “Obrigado, mamãe, por ter comprado morango vermelhinho pra mim”.

Daí, fiz milk shake pra um, o outro preferiu in natura. Kalaro que eu quis tudo. E eis que, dada a primeira mordida no morango vermelhinho, t.o.d.o.s os pelos do meu braço levantaram vôo. Azedo. O Pi riu da minha careta. Com os olhos cheios de lágrimas mostrei o braço e ele, de boca aberta, disse: “Ah. Que pena…”. O Davi ficou impressionado com a quantidade de pelos que tenho – e eu tinha esquecido que é mesmo impressionante. Quase tão impressionante quanto a quantia de cabelos brancos…

Com bigode de milk shake, o Pi pediu colo. Peguei-o. “Você é meu nenezinho?”. “Não, sô u Pêdu Gebélli”. Mais lágrimas nos meus olhos, mas agora não por conta do azedo, e sim do doce extremo. “Vussê ta fiíz?”, perguntou meu pequeno, com olhos espremidos, nariz franzido, sorriso exagerado. Beijei seu cabelo verde até não poder mais e respondi que sim.

Se ele é o Pedro Gerbelli, está explicada a cor preferida.

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