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Fulana

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Com a adrenalina da coragem e o orgulho da superação, Davi brincou hoje no parquinho como nunca antes havia brincado. Trepou, transpôs, pendurou-se, encolheu-se, inventou e divertiu-se. Parece que a percepção do Pi estava aguçada horas antes, quando eu o chamei para calçar os sapatos – e ele pode preferir chinelos: “eba! Passear com você é muito divertido!”.

Nesta tarde, gritaram muito, por excitação, medo, satisfação.  Rimos muito, pelas caras, bocas, gestos, ideias malucas e tiradas incríveis. Senti os corpinhos macios, as mãozinhas pequenas, o peso dos quilos (me refiro aos deles!), o cheirinho suado dos cabelos grandes e o hálito do açaí que repartimos em três.

Vi que o pé do Davi está crescendo e mudando, os dedos vizinhos estão ficando ossudos, compridos demais, e a gorducheza se foi. Uma ponta de melancolia me espetou na cintura (ou será que nessa hora foi uma cócega frenética que eles me fizeram?), mas tratei de arremessá-la no fundo da piscina de bolinhas, afinal, o que mais eu quero do que cinco anos de um pezinho perfeito?

Nesta tarde viveram a infância. Quiseram de tudo. Pediram para morar ali no clube, todos os dias da vida. Pediram para ir cortar o cabelo, declararam estar com saudades do Amarildo, o barbeiro deles; pediram para convidá-lo para ir à nossa casa, mas então que eu fizesse amizade com a mulher dele e tornasse isso possível.

Exibiram-se equilibrados lá no alto, berraram “mamãe” com todo poder de suas goelas, tanto me sugaram, me puxaram, se penduraram em mim, que soltei, risonha: “vamos escolher mais uma mãe pra vocês, que uma só pros dois tá muito pouco?”. O Pi, com os fios amarelos de cabelo pendurados por estar quase de ponta cabeça no meu colo, levantou-se com os olhos muito arregalados e as comissuras labiais apertadas num sorriso satisfeito: “Siiiim!”. “É, filho? E quem vai ser?” Ele respondeu prontamente com um único nome e seu rosto de alegria.

Minha cabeça rodou por Fernandas, Helôs, Caróis  e Moiras, Ciças, Neusas e Iaiás, amigas, professoras e personagens dos desenhos, envergonhada pelo lapso de não me lembrar quem seria aquela fulana de quem ele aceitaria ser filho. A risada imediata do Davi estourou a bolha dos meus pensamentos: “Pi, o Amarildo é homem, ele não pode ser mãe!”.

Quando acumulei meu riso ao deles, me ocorreu que “a Maria” por ele citada era… exatamente Ela. Meu coração acelerado da aeróbica derreteu-se em comoção e meu peito ofegante arfou de devoção. Tanto, tanto eu tenho pedido que Ela me empreste sua docilidade e sua paciência de mãe, de esposa, de mulher!

Nem cílios, nem dentes, nem pés crescendo, nem vozes felizes, nem a joaninha de catorze pintas que aceitou andar na mão do Davi, nem o calorzinho dos muitos abraços que recebi nesta tarde. A coisa mais linda do dia foi ouvir que meu filhinho quer ser meu irmão.

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Molequices e lindezas

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Disputaram aos empurrões um dente de leão solitário na grama rala do parquinho. Falei pro Davi ficar tranquilo que o Pedro só cospe, não sopra. Ele esperou sua vez e fez voarem uns poucos pelinhos de flor. Leão bem banguelinha aquele…

Correram pro tambor rotativo, ou como quer que se chame. Gritaram muito, de excitação, ciúme, medo e frustração. Do meu banquinho de cimento dei muitas instruções e de tão ineficazes comecei a rir. Veio até mim o Davi, curioso, querendo um pouco daquela graça.

“Primeiro sobe no toquinho, filho.” Expliquei, expliquei, e ele, como bom homenzinho sem olhos de lince, não enxergou. De tanto não enxergar, convenceu-se de que eu só podia estar brincando, e que o que eu chamava de toquinho era o Pi. Esmagando os ombrinhos do irmão, justificou-se: “a mamãe me mandou subir em você”.

A tentativa de totem humano, que eu precisei desfazer, inspirou-os a jogar capoeira. Episódios de abuso de poder. E de total desconhecimento dos princípios daquela arte. Então foram apostar corrida.

O Davi decidiu querer a medalha de prata muito mais do que a de ouro, e teve que fazer mímica de corrida atrás do irmão, que de tanto sentir-se pressionado com as mãos do adversário na nuca, caiu de joelhos no meio do caminho. “Vem aqui que eu te levanto, filho.” E ele veio, andando.

Brincam e brigam muito, irmãos de verdade. E é aqui que entra o flash-back: ontem à noitinha o Pi teve uma birra histórica e deixei-o expressar-se do lado de fora do banheiro em que terminava de dar banho no Davi. Recebi do ensaboado um olhar de privilegiado, alguns sorrisos e – prêmio máximo – alguns relatos da escola.

Já no quarto, berraria mais branda, achei por bem sentar o pequeno no meu colo e pentear seu cabelinhos molhados, enquanto ele soluçava “não-que-ro-pa-rar-de-cho-rar!”. Dois afagos na cabecinha e pronto. Então o Davi soltou as sinceras palavras: “Ah… Não sobrou mais nada de mãe pra mim…”.

Aos poucos fui substituindo o filho do colo e, em instantes, era a cabecinha do grande que eu afagava, questionando: “será que não sobrou mesmo nadinha de mãe pra você?”. Então levantei o olhar e vi bem perto de nós o loirinho com o rosto ainda marcado pelo choro: “Davi, você é filho dela. E ela é sua mãe.”

Lindos, não? E, àquela hora, garanto: também muito cheirosos.