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O desafio: Aline conversa com Nine.

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O desafio: Aline conversa com Nine.

Inspirada neste post (http://diasdeumaprincesa.clix.pt/2013/10/o-desafio-conversar-comigo-com-5-anos.html), aceito o desafio.
Se eu pudesse voltar no tempo para conversar comigo mesma aos cinco anos de idade…
Andaria devagar até mim mesma, com um sorriso nos lábios fechados. Agacharia e teria calma diante de meus olhinhos de jabuticaba.
Faria um carinho cheio de ternura nos meus cabelinhos lisos, seguraria com minhas mãos esmaltadas os dedinhos de unhas roídas das mãozinhas que sabiam ser as preferidas da mamãe.
Começaria a falar com calma. Que eu sentisse o amor. Da mamãe, que tem um pedaço muito grande dentro do coração, inteirinho para mim. Do papai, que é parecido comigo ainda mais por dentro do que por fora. De cada um dos avós. Que ficasse tranquila, porque ainda os teria ao lado por muitos e muitos anos, e que teria muitas oportunidades de ser especial para cada um deles.
Que eu soubesse que os pais dos meus amigos seriam também um tipo de pais para mim e que teria também outros adultos para cuidar de mim e me dar colo. E professores de vários assuntos fascinantes, dentro e fora das minhas escolas, com quem nunca, nunca mais, deixaria de aprender.
Que eu tivesse certeza de que muitos desses amigos e amigas com quem adoro brincar seriam meus amigos para sempre. Que para cada festa que acaba poderíamos fazer uma festa nova, a cada vez convidando novos amigos a serem compartilhados com os velhos amigos. E que mesmo depois de muito tempo os amigos sumidos poderiam voltar a aparecer.
Que esses meninos loirinhos , briguentos, barulhentos, intrusos, espaçosos, intrometidos, fofinhos e queridos cresceriam junto comigo, depois cresceriam mais que eu, e que, nos cutucando para o resto de nossas vidas, nos faríamos crescer mais do que podemos imaginar.
Que um dia – e que eu não tivesse nenhuma pressa para isso – viria um moço bom, que faria meus olhos brilharem e meu coração bater, que me faria rir e fazer planos, querer ter meus próprios cabides e vassouras, e que brincaríamos de casinha quando fôssemos adultos.
Que eu seria mãe, igual a mamãe, e que ele seria pai, igual o papai. E que teríamos filhos para tornar as nossas vidas mais especiais, tão especiais, que por mais que eu explicasse, eu não entenderia o quanto. E que só então eu imaginaria o tamanho do amor da mamãe e do papai. E que, talvez, só então eu me colocasse no meu lugar e olhasse para mim com outros olhos – ainda que sendo os mesmos olhinhos de jabuticaba.
Que eu tivesse paciência com esses dias duros, em que sinto raiva sem entender do que, e um frio na barriga sem fim quando penso que fiz tudo errado. Demoraria muito, muito, mas um dia eu entenderia que não preciso ser perfeita para ser amada.
Que eu relaxasse. Que me lembrasse a cada dia que Deus me fez com suas mãos de amor, da mesma forma que fez o menino Jesus do presépio. E que eu tenho uma Mãe do Céu, que cuida de mim, mesmo quando não tem ninguém perto.
Diria a mim mesma que poderíamos tentar conversar ainda muitas e muitas vezes, porque Aline sempre terá mistérios sobre Nine a desvendar e uma ternura sem fim para contemplá-la e acolhê-la.

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Corre…dor

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Caminhando rápido em direção ao meu antigo quarto, bati os olhos primeiro no “museu da família”, a parede forrada de fotos que contam lindas histórias. Meus avós sorrindo, nós cinco no mesmo sofá, meu noivo, meu esposo, meu barrigão, meus bebês. E em seguida, sem querer, bati os olhos no chão do corredor.

E me lembrei de quando ali havia carpete, e batia sol vindo pela janela do jardim interno, por entre as altas árvores plantadas na terra que eu comia desde os sonhos da minha mãe gestante.

E me lembrei da cadeira de vime, que amamentou a mim e a meus irmãos quando a vida ainda tinha cheiro de calma.  

E dos cachos loiros esvoaçantes do meu irmãozinho que resolveu dar uma de cabeleireiro, brincando sentado no chão sobre suas pernas gorduchas.

E dos exuberantes celofanes dos ovos de Páscoa nas portas dos nossos quartos – nos quais tropeçávamos surpresos se acordássemos distraídos -, emendados em pegadinhas de coelho feitas com talco.

E do medo que eu sentia quando brincávamos de terror com as vizinhas, e passar por ali sem olhar para trás era o desafio maior.

E das idas e vindas sistemáticas da escrivaninha, no quarto, para o armário de guloseimas, na cozinha, enquanto fazia minhas infindáveis e calóricas tarefas.

E do som dos primeiros saltos, quando, com gosto de batom, eu caminhava carregando um presente de aniversário.  

E de uma florzinha enfeitando o guia do bixo, no dia em que entrei na faculdade.

E do alívio de chegar em casa após muito trabalhar, carregada, com prontuários e artigos dentro da bolsa que eu largava ali, em qualquer lugar.

E das outras coisas que aconteceram depois, de nove ou dez anos para cá, que não me conformo não terem sido ontem.

Agora ali o Davi pula pela janela, o Pedro derrama no chão seus MM’s, os dois correm atrás da gata. Eu tento descer saltitando as escadas que não mais existem e, para falar a verdade, enxergo ainda no carpete ausente os pés úmidos dum sapeca saído do banho, que hoje calça quarenta e de quem as pegadas marcam a neve, não mais o solo tropical. E escuto esmurrar minha porta mãos que hoje não dão conta de qualquer provocação, e só fazem afagar os sobrinhos.

Ando por ali carregando, semana a semana, sacolas e sacolas de coisas. Por apenas mais algumas semanas. Mas para sempre posso carregar as lembranças que me trazem esse corredor e tantos outros caminhos…

 

Para você, mãe, por tantas boas lembranças e pela coragem de novos caminhos.