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A ladra

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Quinta-feira chuvosa, dois filhos no carro, tentando entender o que vai fazer o carro da frente e, ao mesmo tempo, encontrar uma estação de rádio que pegue bem em pleno Centro de São Bernardo. Enquanto isso, debatemos o tema “hidratação” (sim: água tem que beber, para hidratar o corpo, mas água não hidrata muito a pele; hidratante hidrata a pele, mas não pode beber, nem se quiser hidratar o estômago).

O farol fecha. Aproxima-se um artista (?), rosto colorido. A ampla boca de palhaço desenhada a batom contrasta com a boca real: pequena, desdentada, esforçando-se por um sorriso animado.

Além de tudo o que (não) me passa pela cabeça, invadem-me dois pensamentos: (a) em quanto tempo o farol vai abrir? (b) que consciência referente a esta abordagem têm meus filhos neste momento? Vejo-me abrindo uma fresta do vidro, ao que o ator agradece e eleva um sacão de pirulitos.

– Obrigado, minha jovem, vamos ajudar este palhaço? Um pirulito por um realzinho ou então a moedinha que a senhora tiver, só pra colaborar, não tem problema não!

Ebulição de pensamentos: “Ajudar esse palhaço a quê? Não vai dar tempo de perguntar, preciso decidir sem essa informação, antes que comecem a buzinar. Embaixo dessa tinta azul é uma cicatriz? Acho que as moedas acabaram… Os meninos já viram os pirulitos? Será que esse pirulito presta? Onde foi que ele arrumou isso? Será que é roubado? Porque ele não está de peruca, ia ajudar a proteger da garoa… Eles vão me questionar mais se eu comprar ou não comprar? Mas o homem vai me dar um só? Tô perdida.”

Em sete segundos encontro três moedinhas mixas e, vendo o farol esverdear, coloco-as na palma da mão do palhaço, gritando: “Mas vou precisar de dois, senão vai ser uma choradeira danada!”. Ele, com uma expressão atônita, abre o saco para que eu retire os doces.

Preocupo-me imediatamente com os acordos que começo a fazer com os meninos e sigo viagem.

– Eba, mamãe! Mas porque você nunca compra isso?

– Porque eu sempre acho que moço assim tem que trabalhar no circo ou na loja de pirulitos, mas só hoje eu comprei.

O caçula entende mal o trecho sobre o “moço”, e contribui:

– O monstro deu o pilo?

– Que monstro, filhinho? O moço! O moço com a cara pintada, ele é um palhaço, não um monstro. Ele que deu o pilo.

Rindo do Pedro, seja por ter entendido assim a monstruosa caracterização do rapaz, seja pela imensa intimidade com os doces que lhe permite abreviar “pilolito”, revejo mentalmente todas as cenas, e, enquanto reescuto a voz do vendedor, rio rouca de mim mesma: ele queria um real por pirulito e recebeu 65 cents por dois. Pra não dizer que o roubei, concluo que obtive um belo desconto nessa transação…

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