Arquivo da tag: porquês

De todos os tipos

Padrão

Prometi limpá-lo 240 vezes, correspondendo ao número de vezes que me chamou do banheiro. Foi quase isso o necessário, mesmo…

– Meeeu Deus, cê ta com diarréia?!

– Porque quando a pessoa tem diarréia o cocô fica mole?

Comecei a rir, rendida pela pergunta com fim em si mesma.

– Cocô, cocô, cocô!

Adorando a cena e pensando que o motivo do meu riso fosse a palavra, ele começou a repetir, vozinha esganiçada.

– Não, filho, tô rindo da sua pergunta…

– Então não ri, responde!

– A mamãe não sabe, filho, diarréia já é cocô mole.

Mãos lavadas, voltamos para outro tipo de sujeira, a arte com hidrocores que entretia o caçula no escritório.

Arabescos de um, cruzes infinitas de outro. Borrões nos dedos, chão, porta de armário. Uma caneta vazando!

– Meeeu Deus!

– Que, mãe?! A caneta também ta com diarréia?!

Anúncios

DeclAMAções

Padrão

Há alguns dias, emissões inequívocas vem escapando de seus “lábeus”.  Geralmente no carro, rompendo longo silêncio.

Comecei a observá-las com mais diversão no dia em que escutei, vindo do banco de trás, o CPF do pai cantarolado baixinho, continuamente.

No dia seguinte, brotou do silêncio absoluto em nossa volta para casa: “não quero pôr gasolina comum”.

No outro dia, observando alguma coisa em algum jardim do caminho, soltou: “regador não é mangueira”.

No outro, equilibrou o Cascão no braço do cadeirão e ordenou: “Fica aí dzi pé, sentadzinho!”.

Numa noite, afirmou: “Eu tenhu medu du iscuro, mas iscuro não existe”.

E na noite seguinte, com pai e irmão também no carro, perguntou: “puquê dzi noitsi a zentzi passia intêro?”. Pedimos três repetições. Continuamos não entendendo. Ele, exigindo uma resposta, gritou: “Pegunta pa mim!” Então o sexto sentido materno sussurrou no meu ouvido que se referia ao fato de estarmos ali família inteira.

Hoje eu tentava acordar o irmão para a tão esperada missa vespertina do Lava Pés, quando ele apareceu calçado, dizendo: “eu puis sandália, eu tô lindo”. Tentou um pouco solucionar a correia solta, irritou-se, silabou “GI – FI – ÇÔ!!!”, desistiu e veio até mim: “eu pidi azuda”.

Sandálias calçadas, desapareceu, fuçou onde não devia e, num arroubo de consciência, voltou dizendo: “eu não vou mecei em nada, eu só mecei na póita da casa”. Forçando naturalidade eu indaguei: “e você é adulto ou criança?”. Contrariado, prevendo o efeito da retórica da mamãe, assumiu com as exatas seguintes palavras: “Nem adulto, nem quiança. Sou um minino bávu e sátu”.

Porém, ingênuo quem realmente acreditou que ele não é criança. Como se classifica alguém que grita mais que o coral de idosas em quinta feira Santa para informar à Igreja toda que “o Bolêro tá icondido nu colai!”. Sendo que este mesmo alguém, minutos antes, tratou de ocultar-se embaixo do banco e embaraçar no colar colorido da mamãe braços e pernas do valente arqueiro…

Mas ele mesmo logo o admitiu, após a comunhão. Começou perguntando “o que você tá comendo?”, ao que eu, por reflexo, quase respondi “Jesus”. Só que, imaginando o desdobramento da conversa, que era acompanhada por toda a silente assembléia, optei por reproduzir a resposta que muito ouvi durante minha infância: “a bolachinha da paz”. “Ah. Também quero”. “Primeiro você precisa ter dez anos e fazer a primeira comunhão”. Como eu voltasse à posição de contrição a cada linha do diálogo, apesar das muitas risadinhas comunitárias – que eu não condeno –, ele resolveu calar. Apenas estendeu a mim os dois dedinhos magrelos, indicando a idade. Então redecidiu falar com energia: “Quiança não podzi comê bolacinha da Igueza, quiança podzi comê bolacinha da minha casa i assiti tevisão na minha casa i VDD, i í nu cólu e dá a mão”.

Criança pode tudo isso mesmo. E, nesse caso, até adulto pode rir como criança. E foi o que eu e muitos fiéis fizemos juntos.

 

(Linge)rie da desgraça alheia

Padrão

Depois da aula de natação para bebês, o merecido banho duplo da baleia e do girino da sereia e do golfinho. Cabelos cheirosos, molhados, penteados, roupas leves, frescas… peraí… frescas demais… Cadê minha calcinha? Não adianta procurar, eu não peguei. Vim vestida com o maiô embaixo da roupa – um vestido azul turquesa. Curto. Ahw… Justo hoje?!

Raciocínio rápido: vou usar uma cueca do Davi. Não vai caber. Vou pôr uma fralda do Pedro. Como assim? Vou voltar de roupão, que nem quando tinha seis anos e ia a pé pra casa, com touca e óculos de natação nos olhos, também. Mas que roupão, se eu não tenho? Vou ter que pedir uma calcinha emprestada. Mas quem vai ter uma calcinha pra me emprestar? Já sei, vou na casa da minha tia avó que é aqui perto e pronto. Tá, mas como vou até lá? Sem calcinha é que eu não saio daqui. P-o-r-q-u-é-é-é não fiz como nos outros 364 dias do ano e vim de calça ou bermuda? Tá, vamos lidar com a realidade. Calma Pi, já vamos descer pra eu te dar almoço. Quero dizer, acho que hoje vai ficar difícil prolongar nossa estadia nessa academia. Ah, como quero a minha casa!! Ok. Esquecimentos acontecem. Já esqueci touca, sunga, fralda, lanche. Calcinha. Vou dar um jeito. O maiô já tá quase seco, né?  Não, não, tá bem molhado. Ah, mas eu seco com a toalha. Isso, primeiro eu torço. Bendito o dia em que a minha imensa pança gestante me impedia de caber num maiô convencional e eu comprei esse de aqualouco. Vou assim mesmo. Urgh, vestir maiô molhado, eca! Não grita, Pi, a mamãe vai precisar pôr o maiô de novo hoje. Só hoje. Eu sei que você não se conforma, mas não tem jeito. Tá, o maiô fica tipo uma bermuda e enrolo o resto na cintura, senão vai molhar demais. E ponho essa blusinha aqui. Caramba, isso tá ridículo. Será que é melhor ir enrolada na toalha? Não, eu não estou com vergonha, sou segura de mim e estou tomando a melhor decisão dentro das minhas possibilidades. Peep toe de saltinho é que não vai dar. Volta pra sacola, bora calçar o chinelão.

Sorrio e despeço-me no vestiário, o pobre filho da louca carrega sua marmita com a vã esperança de sentar-se na recepção da academia e fartar-se com sua refeição morninha. Não vai rolar, Pi, vamos sumir daqui o mais rápido possível, só não vou correr, porque não combina com a minha cara de paisagem.

Sentada sobre toalhas, dirijo amarrando um contrato minucioso com Nossa Senhora da Boa Viagem e sigo divagando. Quando percebo, já estou imaginando que explicação daria ao Digo, que seria chamado pelo policial da blitz que teria me parado na Anchieta. Ufa, garagem de casa. Ahhh, ainda tem o elevador e suas câmeras! E gente na garagem!

Chego em casa, o Davi corre ao meu encontro: “de maiô, mamãe?”, e eu: “Shhh.” E sussurrando, continua: “mas porque você tá de maiô?”, e eu: “Shhh.”  Deixo o Pi no berço e reapareço: “Mamãe, porque cê ta de maiô aqui em casa?” “Porque eu esqueci de levar  calcinha, filho”. “Mas porque você esqueceu de levar a calcinha?”.

Vinte horas depois, pronta para um novo e mais normal dia, já decentemente trajada, calço minhas sapatilhas em frente ao espelho do quarto com meu fiel escudeiro de bruços na cama. “Lembrou de pôr calcinha?” “Lembrei, filho.” “ E isso, é um sutiã ou uma regata?” Olho para o espelho e para ele: “Uma regata, né, um sutiã desse tamanho?!” “Ah. Pensei que fosse um sutiã para pessoas maiores, tipo o papai”.

“Seis anos!”

Padrão

Ao chegarmos em Bofete, o Davi foi logo perguntando: “onde está o pomar de laranjas?”. Soubemos e vivenciamos pelo paladar que não é época de laranjas, que as mangas preparam-se para abundar em dezembro, que as pitangas e amoras estão no auge de sua lúdica safra e o principal: que existem os ingás. Como eu pude passar 31 anos de minha existência, e tantos deles jogando stop, sem conhecer o ingá? 

Hoje pela manhã fomos passear no pomar. Minha sogra ontem nos contava que quando criança tinha uma tartaruga à qual montava e que era tão moleca que fazia as tarefas da escola em cima de uma árvore. Esta manhã, com seus sessenta-e-sejamos-discretas-mas-parece-muito-menos, demonstrou ao Davi e a quem mais quisesse ver como se sobe numa árvore. Os primeiros passos e braçadas foram realizados, os demais, indicados.

O Davi e o Pedro têm, no pomar, uma mangueira cada um. Aos pés de cada árvore existe, respectivamente, uma plaquinha com uma joaninha e outra com uma tartaruga. Fixamos nossos esforços alpinistas na mangueira do Pi. Depois de dar as instruções, e já começando a ouvir alguns protestos entre excitados e apavorados, a vovó acalmou o Davi dizendo que ele só subiria na árvore quando tivesse uns cinco ou seis anos.

 A psicologia reversa foi muito efetiva e o baixinho começou com os porquês e com as contrapropostas. Então coloquei-o num galho confortabilíssimo, a cerca de um metro e meio de altura, com locais demarcados para assento e para apoio de cada uma das mãos. Logo começaram os gritos de súplica: “seis anos! Seis anos!”…

Já em terra firme e mais calmo, ele alegou que era muito duro para o bumbum. Se sentar no penico já é um problema para suas carninhas até então acostumadas com o fofo da fralda, que dirá um galho d’árvore.

Há pouco ocorreu outro episódio intestinal. Ou melhor, não ocorreu. Mas o Davi garantiu que quando tiver vontade de novo ele vai chamar “o papai, ou a mamãe, ou o vovô, ou a vovó, ou o Pedro. Porque o Pedro não? Porque ele não pode me ajudar?”

Escrito em dezembro de 2010.