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Retrato de alguém que precisa melhorar

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Uma das atividades mais legais que o Davi fez na escola foi a releitura da obra de arte de Giuseppe Arcimboldo, na a qual usaram frutas para fazer um retrato e depois comeram de sobremesa.

Numa tarde que se encaminhava para ser mais calórica do que saudável, eu resolvi fazer circulozinhos verdes de kiwi, barrinhas amarelas de banana e lasquinhas vermelhas de maçã. Ficaram motivados e envolvidos. De quem eram aqueles os olhos verdes? Da vovó Ciça, claro!

– Mas e os óculos? – protestou o Pi. Sim, senhor, óculos nela.

– Não tá parecendo muito… Vou fazer de novo. Ah, não!

Em outro prato, armou olhos, nariz e boca. Mas usou as hastes dos óculos para fazer as sobrancelhas. Quase verticais.

– Essa você adivinha quem é.

– A vovó Ciça?

– Não. Outra pessoa. Uma mais brava, olha. – indicou as barras de banana, severas sobre os olhos.

– Não sei…

– Você tem que adivinhar uma pessoa brava, com as sobrancelhas assim.

– Acho que já sei…

– Então fala – desafiou-me com um sorriso corajoso.

– Eu…

– Acertou, ó! – apontou meu rosto.

– Eu sou muito brava, é?

– É, muitas vezes você é muito brava comigo. Precisa melhorar.

Ri, o que mais eu poderia fazer? Carinho em suas bochechas e um cheirinho atrás da orelha? Fiz também.

(Temos aqui o retrato da vovó Ciça. O da mamãe brava foi consumido antes da fotografia, porque os cabelos castanhos de chocolate granulado, esvoaçando sobre todo o rosto, estavam apetitosos demais. Ok, algo de doce eu devo ter, também…)

 

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Chamei pra fazer sopa, mas ele fez uma salada.

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A: Pi, vem ajudar a mamãe a fazer sopa?

P: Tá.

A: Qual o nome disso?                                   (abobrinha)

P: É… Francisco.

A: KKKKK… Francisco, meu amor? É abobrinha!

P: Ah.

A: E isso, como chama?                                (mandioqiuinha)

P: É… cenoura.

A: Quase, lindão; é mandioquinha. Ó a cenoura aqui.

P: Ah.

A: E isso, como chama?                                  (chuchu)

P: Pêra!

A: Pêra? KKKKK… Parece uma pêra, né? Pronto, tá tudo na panela.

P: Você viu a camomila que o Davi plantou? Já brotou…

A: Ãhn?

A: Aqui, ó.

P: Ah!! Tá. Agora quero vê a Camila.

O vendedor de sonhos

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O vendedor de sonhos

Davi. Alex?nO Davi Alex é um menino adorável de 10 anos. O conheci na venda onde trabalha, uma lojinha simples, onde ele vende lápis coloridos. Não unicamente os coloridos, como ele mesmo ressalva, também os brancos e pretos.

Fui até lá porque precisava de lápis amarelos, e ele me apresentou uma cuidadosa variedade, que incluiu desde o bege até o rosa médio. Enfatizei que estava interessada mesmo nos amarelos e ele respondeu tranquilamente que sabia disso, e que aqueles dois ao lado eram rosa, mas estavam lá porque eram quase amarelos.

Muito satisfeita com meus bastões canário, ouro e limão, pedi quanto lhe devia e ele pensou, preenchendo o tempo com um rumor, com a boca torta e o indicador no queixo, me olhando de esgueio, até dizer: “zero”. “Puxa, são de graça?”, eu repliquei, eufórica. “Sim, porque hoje é o meu aniversário”. “Meus parabéns!”, soltei empolgada, ao mesmo tempo em que tomei sem perceber a liberdade de estalar-lhe um beijo na bochecha direita. Ele reagiu encabulado, porém não limpou a bochecha com as costas da mão, como algumas vezes já espero que faça meu filho mais velho.

Foi aí que me lembrei dele, e comentei com o aniversariante que meus filhos adoram festas de aniversário. Nessa hora, meu caçula, Pedro, chegou à venda, com cara de travesseiro e muito emocionado. Peguei-o no colo para me ajudar nas compras, mas ele não quis nada, apenas bolo de aniversário.

Então meu vendedor predileto disse que, se eu quisesse, poderia levar até minha casa o convite para a festa desta noite. Achei ótimo e, antes de me despedir, comentei que justamente as duas não cores que ele vende ali são as prediletas do meu outro filho, Davi. Ele sorriu largamente e disse que Davi também é seu nome. Encantada com as coincidências da vida, perguntei seu sobrenome.

Foi então que, pela primeira vez, ele, ainda com muita maturidade, demonstrou alguma dependência e pediu licença para ir até a cozinha descobrir. Esticou o pescoço e, apoiado no batente da porta, ainda com as perninhas para fora do ambiente, cochichou alguma coisa com seu silencioso pai. Retornou em seguida, dizendo: “Batício, meu nome é Davi Batício”.

Como os clientes caíssem na risada, ele retornou logo à cozinha, em tempo de dissolver o engano, e murmurou ao pai invisível que “isso deve estar errado, eles estão rindo muito”. E, de volta à venda, disse que seu real sobrenome é Alex, Davi Alex.

Recebi Davi Alex em casa, minutos mais tarde. Muito gentil, ele levou de presente para seu xará os lápis branco e preto. Eu queria muito que os dois se conhecessem, mas no único momento em que meu filho apareceu, meu convidado havia sumido. Tentei de todas as formas que os dois se encontrassem, mas ambos ficavam desconcertados demais quando isso estava prestes a acontecer e eu, rindo como uma adolescente, não conseguia promover evolução. Exceto por um instante, em que apertaram a mão um do outro, mas – talvez seja efeito do desconcerto – pareceu-me que Davi Alex deu duas esmagadas no nada enquanto cantarolava sorrindo.

Antes de se despedir, Davi Alex me contou que o bolo de sua festa seria de chocolate com muita cereja e, mais surpresa ainda, fiquei com as coincidências da vida, porque na atual temporada este é o sabor predileto do meu filho Davi.

Logo em seguida, ao cair da noite, levei meus dois filhos ao aniversário. O Pedro ficou ao meu redor, um tanto quanto desambientado, bem como nos sentimos quando… não somos os donos da brincadeira. O Davi sumiu assim que chegou o anfitrião, convidando para brincar de pula-pula na bola azul. Deve ter se entretido lá pra dentro, porque não mais o vi até a hora dos parabéns.  

Antes do bolo, porém, o Pedro foi bem servido com carne feita no forno a lenha e com janta. Claro, Davi Alex já está completando seu décimo aniversário, mas bem se lembra que é essa a sequência que as mães solicitam para os filhos pequenos. Só não foi muito feliz em chamar seu convidadinho de “o pequenininho”, enquanto falava comigo, pois isso despertou o senso de justiça do Pedro, que perdeu a compostura declarando que “pequenEninho, não!” ele é grande, e que até fez xixi no banheiro esta manhã.

Impasse facilmente resolvido, já que meninos de dez anos não criam caso com crianças de dois. Fomos à sala do bolo e, gentileza atrás de gentileza, Pedro pôde assoprar sua própria vela, ao lado do aniversariante da noite.

Só não sou capaz de identificar se esse menino fotografado deliciando-se com o bolo e cerejas é o Davi Alex ou se é meu filho… Talvez a câmera fotográfica tenha ficado confusa… ou tão comovida quanto eu pelas entusiasmadas palmas descompassadas que acompanharam os parabéns…

Sim. Please.

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Volta da escola

Encontram-se irmãos

Adia soneca

Lutam de espadas

Repedem desculpas

Destroem as armas

Chora de sono

Vai para o quarto

Nega dormir

Dorme com anjos

Mãe companhia

Exercício da fono

Unhas pintadas

Algumas risadas

Compartilhivros

TV e PC

Porta abre

Pezinhos no chão

Sofá recheado

Retorna o irmão

Suco e banana

Agora o bolinho

Cheiro de filho

Quero mais

Peraí

Eco contratado

Bora pro fogão que tem duas bocas crescidas pedindo mais pão

Verde até o último fio de cabelo

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Então, como a tarde está linda e eu cansei da irritação que me causa uma pasta comunitária de documentos, saí com os meninos para comprar novas pastas no bazar.

O Pedro quis a verde, mas não menciono isso pelo fato de que a cor tem sido sua preferência nacional e o critério para escolher o giz de cera, a gelatina, as roupas, sapatos, brinquedos e, inclusive, a cor do cabelo. (Outro dia, no espelhão do elevador, com mãe e pai resmungando os cabelos brancos, o Davi declarou que estamos ficando velhos. E eu, prontamente, disse que não, cabelo branco é uma coisa normal, todo mundo tem, até o Pedro, que é bem novo. E antes que ele pudesse soltar sua risada esperta, o Pi vociferou: “meu cabelo não-é-ban-cô! É vei-djí!!”.)

Menciono que o Pi escolheu a pasta verde para que todos visualizem esta réplica do Piu-Piu sambando pelas calçadas arrebentadas e defecadas dos arredores de casa com uma pasta-aba-elástico-verde-bandeira defronte seu tronquinho. E mão suada obediente dada à mãe.

O Davi aceitou devolver a sua pasta transparente para a sacola quando impus tal condição para continuarmos o passeio. Ele queria atravessar a rua, para chegar onde “nunca fui na vida”. Sei. O bom foi que o caminhão das frutas meio que quebrou nessa hora e, enquanto o motorista rastejava de costas no asfalto para resolver a questão, tivemos tempo de seguir o som do “morango vermelhinho barato, barato”. Compramos. “Obrigado, mamãe, por ter comprado morango vermelhinho pra mim”.

Daí, fiz milk shake pra um, o outro preferiu in natura. Kalaro que eu quis tudo. E eis que, dada a primeira mordida no morango vermelhinho, t.o.d.o.s os pelos do meu braço levantaram vôo. Azedo. O Pi riu da minha careta. Com os olhos cheios de lágrimas mostrei o braço e ele, de boca aberta, disse: “Ah. Que pena…”. O Davi ficou impressionado com a quantidade de pelos que tenho – e eu tinha esquecido que é mesmo impressionante. Quase tão impressionante quanto a quantia de cabelos brancos…

Com bigode de milk shake, o Pi pediu colo. Peguei-o. “Você é meu nenezinho?”. “Não, sô u Pêdu Gebélli”. Mais lágrimas nos meus olhos, mas agora não por conta do azedo, e sim do doce extremo. “Vussê ta fiíz?”, perguntou meu pequeno, com olhos espremidos, nariz franzido, sorriso exagerado. Beijei seu cabelo verde até não poder mais e respondi que sim.

Se ele é o Pedro Gerbelli, está explicada a cor preferida.

Primeira comunhão

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Fazendo hora extra no horário de verão. Se já houvesse anoitecido, ele estaria dormindo, exausto pelo dia bem aproveitado, com gosto de infância. Mas seduziu a mãe e conseguiu mais uma rodada de quebra-cabeças antes de encerrar o expediente. Enquanto isso, comeu todos os pedacinhos de uma pêra picada. Intercalava às mastigações sorrisos com os olhos.  Continuando assim, pretendia atingir todos os seus objetivos: quem sabe a mamãe ficaria ali, olhando para ele embasbacada, levando garfadinhas de fruta à sua boca mimada ao longo de toda a noite? Quem sabe sequer se poria o sol brilhante, que há pouco avermelhara seus olhinhos claros e o fizera pedir para apagarem “essa luz”?

Terminaram o quebra-cabeças. A cena do presépio mostrava as figuras principais da noite natalina, e ele apontou o menino de cachinhos dourados dizendo, muito animado: “o bebezinho!”. Repassaram a história, em sua seguinte versão:

– Essa é Maria e esse…

Josésus!

– E esse aqui?

O menino Jesuso!

– Eles foram para Belém e perguntaram, “tem lugar pra gente?”

– Teeeeem!

-Não… não tem… E foram em outra casa, “tem lugar aqui?”

– Teeeeeem!

Pulinhos enfáticos sobre a cadeira, algumas falas gritadas de excitação.

– Então… foram dormir na casinha do…

– Cavalo!

– E o que aconteceu naquela noite?

-Apareceu o nenê!!!

– E a estrela guia…

-Bilô no tséu!

Boca bem aberta, canininhos de leite recém despontados tingidos pelo leite recém tomado.

– O nenê Jesus nasceu!!!

– Eu quero comê ele.

– Você quer comer o menino Jesus?

– Quero comer o pezinho dele.

Talvez tenha sido sugestionado pelo calendário de dezembro, que guarda um bombom em cada uma das vinte e quatro janelinhas. Talvez pelo carrossel que o encantou no restaurante esta tarde, em que um tubarão exibindo seus brancos dentes afiados instigou que saísse mordendo tudo o que via pela frente. Talvez tenha realmente querido alimentar-se daquela história que já lhe e tão familiar, e que há dois anos ele protagonizou na Missa do Galo.

Seduzida, apaixonada, aceitando as horas extra a mim impostas pelo caçula dos imperadores, sentindo talvez um pedacinho do amor que sentiu Maria por aquele bebezinho na manjedoura, só posso desejar que o meu montador de quebra-cabeças continue almejando vorazmente preencher-se do Santíssimo e com essa mesma pureza faça, uma dia, sua primeira comunhão.

Cookies de banana

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Tínhamos meia dúzia de bananas totalmente pintadas de preto. Então decidi que mais tarde faria uns cookies de banana com aveia, para aproveitá-las.

 Qual não foi minha surpresa quando cheguei da academia e descobri que quatro delas haviam sido milagrosamente consumidas pela manhã? Só porque as frutas da casa resumiam-se a dois limões, três fatias de abacaxi (sobraram as mais azedas) e quatro ameixas pretas – mas essas não contam, porque estavam na geladeira, sinônimo de invisibilidade.

Ok, a receita leva mesmo duas bananas. Mãos lavadas à obra! Davi, de novo, não quer lavar as mãos. Me garante que consegue sim mexer a massa mesmo com as mãos sujas. A contragosto, os dois tiveram suas mini mãozinhas lavadas – sem argumentações da minha parte e da parte do Pi.

Dessa vez decidi que não ia gritar durante nossa sessão culinária. Duas providências viabilizariam a intenção: (a)pedido expresso de auxílio a Nossa Senhora, (b) planejamento de atividades para manter os meninos entretidos e não gritando ou me pedindo coisas.

Mas eles são muito rápidos. E muito do contra. A brilhante idéia de dar as bananas para o Pi descascar originou choro sentido, porque não deixei  que ele as comesse. Então ele também não as descascou.

A brilhante idéia de dar batatas para o Davi lavar ocupou-o por tão poucos instantes que eu nem tive tempo de esquecer o que eram aquelas batatas molhadas – que nenhuma relação travavam com cookies de banana, a bem da verdade.

E assim foram as respostas às minhas propostas: ou faziam rápido demais (leia-se mal demais), ou recusavam-se a fazer. E sempre, sempre, a tarefa do irmão parecia muito mais legal. E a da mamãe, então, nem se fala.

[Mas ontem tive uma autopercepção de limite tão satisfatória – quando disse para o Davi: “cola você usa com as suas avós, com a mamãe não dá”- que resolvi mergulhar nessa aventura de perceber os meus limites e decidi que os ovos sou eu que quebro. Fim.]

Alguns momentos iluminados salvaram-se de pedidos, resmungos, poses desastrosas sobre banquinhos e cadeirão e roubo de objetos das mãos alheias:

– o momento em que os dois ficaram comendo Honey Nut’os (tá, tá, vai);

– o momento em que os dois ficaram comendo fatias de pepino japonês (!!!  Depois do sucrilhos!!!  E repetiram muito!!! E o Pi teve ‘aiai dói baída!’ mas nem me senti mal com isso!!!);

– o momento em que o Pi fez uma torre com as forminhas de silicone que eu pedi que ele distribuísse na assadeira;

– o momento em que o Davi “montou”, ups, “untou” a forma;

– o momento em que o Pi me ajudou a colocar os ingredientes medidos na tigela (obs: este momento deve ser considerado apenas a partir do ponto descrito, excluir os instantes anteriores, em que ele fazia bolhinhas de saliva por reação ao nojo que sentiu do fermento em pó);

– o momento em que o Davi ajudou a espalhar a farinha sobre a forma untada dando nela batidinhas fofas com o lado da mão (obs: este momento deve ser considerado apenas a partir do ponto descrito, excluir o instante anterior, em que ele espirrou sobre a forma untada, que teve que ser lavada e novamente untada);

– o momento em que os dois educada e pacientemente mexeram a massa dos biscoitos com um garfo, ao som de “eu! Eu! Eu! Eu! É meu! Té pomê!” e “mas afinal essa massa é mesmo muito dura hein, mamãe!”

Enfim, os cookies ficaram prontos e cheirosos.

Muitas outras coisas deram certo. O almoço foi simultaneamente confeccionado. E saiu. E eles comeram a comida e não os cookies.E já temos o lanche da tarde prontinho.

Bom saber: Nossa Senhora dá plantão ao final das manhãs de segunda-feira.

Escrito em setembro/2011.