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Oras, bolas!

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Fiz uma sessão extra de cócegas com ele de cabeça para baixo. Logo depois do lanche, é verdade, mas aquela cara branquela de ator mirim estava irresistível. Pronto. Refluxo imediato. A cara virou cara de pata choca e ele começou a mastigar. E a rir. E disse: “eu comi uma bulllinha”.

Tirei suas meinhas por um instante, só para morder os pés, antes de sair para a consulta médica. Ele começou a mancar e a reclamar que “aiai, tem uma bulllinha”. Horas depois, durante o exame, fui mostrar para a doutoura a unhinha preta e cadê-la? Deve ser no outro pé. Não, era nesse mesmo. Repõe a meia, retira a outra. Nada, em pé nenhum. A unhinha resolveu partir.

Cheguei do supermercado com as benditas caixas de papelão, que são tudo o que uma mãe multicarregada não precisa para carregar a mais. Ele quis “bulllinha, na minha boca!”: os pães de queijo? As uvas? Os tomatinhos? As carolinas recheadas? Sim, porque eu precisava saber quais dos pacotes deveria esconder prioritariamente. Mas é claro que a argumentação sedutora de uma boquinha gulosa e sorridente venceu a parada.

Oras, bolinhas, Pi, tudo com você é fofo, não?

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Tagarelão acurado

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Nesta tarde, meu mico leão dourado e meu macaco prego fizeram um lanche extraoficial ao meu lado enquanto eu preparava um bolo. Como o que eu queria era ter relativo sossego, acabei cedendo quanto a horário e qualidade nutricional e joguei a toalha. (Ok, a bem da verdade, para conferir um mínimo de dignidade à cena, foi o Davi que jogou. Toalha não, pano de prato. E sobre o banquinho.)

Foram autorizados aos meninos dois alimentos com muita coisa em comum: eram snacks, vinham em saquinhos, eram quadradinhos, crocantes, proibidos e gostosos. Como os chamaríamos? Bem, se eu e o Davi estávamos chamando um de “bolacha” e outro pelo nome comercial, a questão que me provoca é: como é que um ser de 24 meses de vida extrauterina consegue designar espontaneamente cada um por um nome diferente e extremamente adequado, sendo um deles (Quaker Minis) “barrinha” e o outro (Eqilibri) “salgadinho”?

Mastigando e observando-me preparar o bolo, o branquelão me viu jogar dois ovos na massa. Comecei a misturar e depois de relativa homogeneidade ele disse: “o ovo não tá mais”. E eu “tá sim, filho, é que misturou”. Olhou bem sério para o meu rosto, depois retornou o olhar para tigela e liberou o veredicto: “O ovo escondeu”. “É, Pi, isso mesmo”. “Ah.” – com as duas mãos semi-elevadas. “Tá.” – Baixando as duas para as coxas.  

Bem que seu sábio pai ontem à noite divulgou em rede internacional a mais nova láurea do pequeno. Conversávamos pelo Skype com a parte suíça da família e, durante um problema técnico nos mantínhamos silenciosos, enquanto o pequenoio narrava: “O tio Vitor fala. A Helô não fala”. E vendo a imagem imóvel: “A Helô não fala”. Eu: “Ela já vai falar, Pi, o papai ta arrumando”. Ele: “A Helô vai falar.” Eu: “Já vai falar, Pi, tá bom?” Ele: “Tá bom”.  Timing perfeito. Compreensão cem por cento. Bom vocabulário expressivo. E o papai comenta, num sussurro orgulhoso: “Isso aí, Pi, fluente no português”. E os tios, na terra do chocolate, completam: “É, e no skypês também”.

Diálogo poético

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Mãe irritada com filho que criou o hábito de limpar a boca no braço e não no guardanapo. Olha feio para o filho, o filho para e fica acuado, até que toma coragem para falar:

Filho: Eu quero limpar a boca.

Mãe: Limpa no braço, não é pra isso que serve seu braço?

Filho: Não, mamãe, meu braço serve pra dar a mão pra você…

 

Escrito em dezembro / 2010.

Três estratégias para as crianças esquecerem que não querem comer

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1)      “Finas Fatias”

Ingredientes: uma maçã e uma boa faquinha, uma bisavó, uma neta e dois bisnetos.

Modo de fazer: Ofereça a maçã às crianças após terem comido muito pão de queijo na casa da bisavó, no momento em que o caçula começa a chorar pedindo o pão de mel que comeu na semana passada e que hoje não tem. Eles recusarão a maçã. Lembre-se, então, que o caçula aceita muito melhor a maçã quando esta é cortada em lâminas. Alardeie: “então… teremos, tchan, tchan, tchan, tchan! Finas fatias!” Deixe que as crianças comecem a comemorar e, quando comer uma simples meia lua transparente de maçã começar a perder a graça, comece a esculpir corações “representando o meu amor por você”, formas geométricas,  letras do alfabeto.

Resultado: comem permanentemente até que a brincadeira acabe (em geral devido ao fim do estoque de maçãs ou à preguiça do escultor) e você ainda ganha um elogio admirado da sua avó, o que deixa tudo muito melhor.

2)      “Eu, eu, eu!”

Ingredientes: os pratos de comida, pai, mãe e dois filhos cansados.

Modo de fazer: Levem as crianças ao parque de diversões, depois saiam juntos para almoçar, passeiem no shopping e não priorizem as sonecas. Na hora do jantar, quando os dois estiverem gritentos e chorentos, decididos a recusar colheradas de qualquer composição, encarregue cada adulto de empunhar a colher de um dos filhos e declame com voz misteriosa: “a próxima colherada vai só para a criança queeeee… pulou no pula-pula do Mickey!” Varie os enunciados com provocações do tipo: “…sabe o que tem dentro do baú do tesouro!”, “…não teve medo do dinossauro grande!”, etc. Observe a expressão do seu marido iluminar-se a cada colherada aceita.

Resultado: eliminado o mau humor, o apetite é diretamente proporcional ao gasto de energia ao longo do dia e inversamente proporcional ao sono dos participantes.

3)      “Ouvindo vozes”

Ingredientes: danoninhos*, mãe e dois filhos.

Modo de fazer: Ingenuamente apresente às crianças, na hora do lanche, a bandeja de danoninhos inteira e deixe que escolham a cor desejada. Destaque os potinhos e, se necessário, abra-os. Guarde os demais e espere que comam comecem a resmungar, reclamar e chorar pedindo o(s) sabor(es) já guardado(s). Então, franza a testa teatralmente, olhe para a geladeira e diga que está ouvindo um sonzinho estranho vindo dali. Mantenha sua expressão neutra e tão imóvel quanto possível e, com voz agudizada, diga: “Oi! Olá-á! Eu sou o danoninho verde! Não vou sair daqui! Tô aqui na geladeira, fechado! Só saio outro dia!” e assim por diante. Atenção: é importante que o discurso seja cuidadosamente planejado, evitando os sons bilabiais, como: “Tô aqui preso”, “só saio amanhã”, o que prejudicaria o desempenho de ventríloquos amadores.  

Resultado: enquanto as crianças estiverem distraídas, ouvindo o personagem fantástico e dialogando com ele, será consumido o danoninho inicialmente escolhido. Em seguida, há grandes chances de ser também consumido o danoninho falante.

 *Faz-se necessário explicar porque alguém poderia precisar de alguma estratégia extraordinária para que as crianças comam danoninho: existem bandejinhas com sabores sortidos, e, obviamente, no instante seguinte à abertura dos potinhos escolhidos para aquela refeição, eles mudam de ideia quanto ao sabor. Alguns pais, especialmente os que estejam de dieta, podem desejar que seus filhos consumam o potinho já aberto.

Escrito em setembro de 2011.

Cutucão

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Hoje percebi exatamente o momento em que mudei de postura, da irritação para o deleite.

O Davi estava embaixo da mesa do restaurante, no meio da refeição, desamarrando minha sapatilha, puxando meu pé, atrapalhando o meu almoço, ignorando todos os pedidos do pai para ficar sentando e comer direito.

Foi quando, de repente, me permiti sentir o calor da sua mãozinha macia no peito do meu pé direito e percebi que perceptivo ele é para encontrar um lacinho tão pequeno ali no meu sapato, na penumbra daquele espaço.  Que engraçado ele fazer tanta força puxando a minha perna e eu poder facilmente mantê-la imóvel.

E me veio a constatação prévia de que, daqui a pouco, não só ele não caberá debaixo da mesa, como terá força para me deixar pendurada pela perna se assim desejar e não desobedecerá o pai em assuntos tão mixurucas. Isso se tivermos a sorte dele ir almoçar conosco. O que provavelmente ele faça mais interessado nas Bloomin’ Onions do que nos meus pés, ainda que eu esteja usando sapatilhas com lacinho.

Então deixei a memória sensorial carimbar na minha pele a suavidade das almofadinhas fofas dos dedinhos dele e posso descrever, sem ter visto, o seu olhar atento e sapeca puxando a ponta do cordãozinho de couro fake.

Obrigada, Davi, por ter cutucado a mamãe. Por dentro.

 

Escrito hoje.